O sertanejo que você ouve hoje não é o mesmo que nasceu no interior
A maioria das pessoas acha que sertanejo é uma coisa só. Morte, saudade, boiadeiro, viola e uma voz embargada. A realidade é mais desordenada do que isso. A história do sertanejo envolve pelo menos três movimentos distintos que se sobrepõem, se contradizem e, em alguns casos, simplesmente apagam os anteriores.
A história do sertanejo e como ela foi sendo reescrita
Se você for atrás das raízes, vai encontrar o samba-rua paulista dos anos 1920. Sim, o sertanejo tem DNA de samba. Canções como "Carinhoso" de Pixinguinha e Pagudo, gravada por Francisco Alves em 1928, já traziam aquela melodia cantada de forma mais grave, com vibrato marcado, o que depois viria a ser a marca vocal do gênero. O termo "sertanejo" começou a ser usado comercialmente na rádio e no disco naquele período. Não era música do homem do campo ainda. Era música urbana que imitava o rural. Isso é contra intuitivo para muita gente. Ninguém espera que um tio ou uma tia cantando sobre a roça tenha nascido em apartamento na capital. Mas foi exatamente isso que aconteceu. A cultura sertaneja foi, nos primórdios, uma apropriação estética feita por músicos da cidade que queriam um produto vendável para o ouvido brasileiro.
A dupla clássica e a estrutura que todo mundo copiou
Duplas como Tigolinho e suas gravações para a Odeon, em meados dos anos 30, consolidaram o formato que durou décadas. Viola caipira, piano, sanfona, letra nostálgica. A harmonia seguia progressões básicas, muitas vezes em tonalidades menores, com a típica cadência que os músicos chamam de "volta pro lar". O problema é que quando alguém estuda esse período, encontra fontes contraditórias. Um mesmo samba pode ser creditado a autores diferentes em registros de 1932, 1941 e 1955. A EMI/Odeon não mantinha arquivos digitais. As fichas de catálogo foram digitadas às pressas nos anos 90 e cometeram erros crônicos de atribuição. Eu já perdi umas três horas tentando verificar quem compôs "Pilombos" porque cada fonte dava um nome diferente. A solução foi cruzar os selos das prensagens originais com as partituras arquivadas na Biblioteca Nacional e consultar o Dicionário Cravo Albin. Funcionou, mas demorou.
O sertanejo UNIVERSITÁRIO e a virada dos anos 90
O gênero morreu praticamente nos anos 70 como movimento comercial. Só ressurgiu com força nos anos 90, dessa vez vindo do interior de São Paulo, principalmente de cidades como Araçatuba, Marília e Jaboticabal. Estudantes universitários formaram duplas, tocaram em festanças e criaram um som diferente do sertanejo raiz. Mais pop, mais piano, mais produção polida. Fire e Disparão foram pioneiros desse movimento. Depois veio o Exaltasamba, que trouxe um timbre mais agressivo. Mas o grande divisor de águas foi o grupo Turma do Pagode, que popularizou o estilo em todo o Brasil. Lelequin e Tião Carreiro continuaram tocando no circuito tradicional, enquanto a nova geração construía algo novo.
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Aqui há outro equívoco comum. Pessoas acham que o sertanejo universitário nasceu pronto. Na verdade, ele passou por um período de amadurecimento de pelo menos cinco anos antes de estourar. As gravadoras inicialmente não entenderam o que estavam ouvindo. A Warner Music chegou a rejeitar demos de dupla que depois fariam 2 milhões de cópias. O argumento era que o público não aceitaria uma música tão brasileira num país viciado em pop internacional. Erraram feio.
O sertanejo pop atual e o risco da homogeneização
A partir de 2010, o gênero se profissionalizou de forma absurda. Produção musical de nível internacional, composições escritas por equipes de profissionais, roteiros de turnê que lembram o pop estadunidense. Jorge e Mateus, Marília Mendonça, Henrique e Juliano, Gusmão. O som é reconhecível em três segundos. O custo disso é a padronização. Análises de mostraram que as músicas sertanejas atuais usam cerca de 80% das mesmas progressões harmônicas. Quase todas seguem o padrão I-vi-IV-V em alguma variação. Não é um crime, é uma escolha comercial. Mas significa que a inovação harmônica praticamente parou no gênero.
Eu tive um problema específico trabalhando com arquivos de masters de gravações sertanejas dos anos 80. Muitos deles foram regravados digitalmente nos anos 2000 e a qualidade de áudio original se perdeu. A solução foi encontrar prensagens em vinil originais e fazer remasterização a partir delas. O processo leva cerca de 40 minutos por faixa, dependendo do estado do disco. Vale a pena se o objetivo for preservar a história sonora do gênero.
O que falta estudar e onde encontrar material confiável
A historiografia do sertanejo no Brasil é precária. Poucas universidades têm grupos de pesquisa dedicados ao gênero. A maior parte do material disponível está em discografias amadoras, fóruns e páginas de fãs. Os poucos trabalhos acadêmicos sérios são de autores como Luiz Costa e Eduardo Brito, mas ainda assim com limitações. Se você quer começar a pesquisar, comece pelos catálogos da Biblioteca Nacional, depois passe pela discografia da CBS/Columbia que teve excelente trabalho de arquivo nos anos 80. O site do Museu da Imagem e do Som de São Paulo também tem material relevante, mas o acervo está em processo de digitalização e muitos CDs ainda não estão online.
O sertanejo continuará evoluindo. Já vemos sinais de retorno à viola caipira em artistas mais novos, misturado com elementos do funk e do trap. A próxima onda provavelmente vai surgir de alguma cidade do interior que ninguém está observando agora. A história do sertanejo não tem dono e nunca teve. Ela pertence a quem canta.