Inventario Breve De Dor - INVENTARIO DA DOR - Traumatologia e Ortopedia
INVENTARIO DA DOR - Traumatologia e Ortopedia

Guia prático do inventário breve de dor: o que funciona, o que não funciona

O inventário breve de dor é uma ferramenta de avaliação clínico-gerada que mede intensidade e interferência da dor em várias dimensões. Foi desenvolvido por Cleeland e Farrar nos anos 1990, tem versão curta e longa, e existe em português validado pelo grupo de pesquisa do HC-FMUSP. Não é um teste diagnóstico isolado, mas sim um instrumento de acompanhamento.

Como preencher o inventario breve de dor na prática

A versão curta tem oito itens de intensidade e sete itens de interferência. A escala vai de 0 a 10. Você pede ao paciente para responder baseado na pior dor, na pior nas últimas 24 horas, na média, e na menos quando está mais confortável. Depois pergunta-se como a dor atrapalha o humor, sono, caminhada, trabalho normal, relações com os outros, atividade diária, humor, e capacidade de trabalhar. Um detalhe que muita gente perde: o inventário breve de dor não pede apenas o número. A pergunta sobre "a menor nos últimos dias" é tão importante quanto a "pior". Na minha prática clínica, vi pacientes com dor neuropática post-herpética que marcavam 10 na pior, mas 7 na menor. Isso muda completamente a conduta. Se você ignorar o item de menor intensidade, subestima a carga real e toma decisões erradas sobre ajuste medicamentoso.

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O preenchimento leva entre três e cinco minutos. Eu aplico em papel mesmo quando o prontuário é eletrônico, porque consigo observar microexpressões enquanto o paciente lê cada item. Às vezes o paciente não consegue diferenciar "dor que atrapalha o sono" de "dor que atrapalha o humor", aí eu reformulo: "Quando você acorda cansado, isso é porque a dor te tira do sono ou porque você está bravo?". Pequena reformulação, dados muito mais precisos. Outro ponto que ninguém destaca: a versão em português brasileiro já passou por adaptação transcultural e validação psicométrica com coeficiente alpha de Cronbach acima de 0,85 na maioria das populations estudadas. Isso significa que a ferramenta é confiável, mas não significa que ela funciona igualmente bem para todos os tipos de dor. Em dor oncológica avançada, por exemplo, pacientes frequentemente marcam tudo no máximo porque não conseguem discriminar os itens. Isso não é mau preenchimento, é limite cognitivo da condição.

Se você estiver usando isso em pesquisa ou em protocolo institucional, anexe o score total de intensidade e o score total de interferência separadamente. Some os oito itens de intensidade e os sete de interferência individualmente, não misture as escalas. Muitas planilhas que vejo pela internet somam tudo junto num score único, o que statistiquement não faz sentido e inviabiliza comparação com a literatura. Existe download gratuito do instrumento em versões válidas no site da European Association for Palliative Care e também em artigos de referência da tradução brasileira de 2006 publicado na Revista da Associação Médica Brasileira. Você não precisa comprar nada para usar de forma ética em contexto clínico, desde que cite a fonte. Para uso em pesquisa, verifique se a instituição tem parecer do comitê de ética específico, porque algumas revistas exigem registro de licença mesmo para instrumentos de domínio público.

A principal limitação que eu vejo na prática: ele não avalia qualidade da dor. Dores neuropáticas, viscerais e somáticas podem ter scores idênticos no inventário breve de dor, mas requerem abordagens completamente diferentes. Por isso eu sempre uso em conjunto com uma descrição qualitativa obrigatória — o paciente descreve a dor com suas próprias palavras antes de numerar. Isso gasta dois minutos a mais, mas evita erros grossos de classificação. Se seu contexto é dor crônica não oncológica sem componente neuropático claro, o inventário breve de dor serve como baseline razoável. Se for dor oncológica, dor neuropática ou dor em paciente com comprometimento cognitivo, considere complementá-lo com a Escala Faces de Wong-Baker ou com o Mini-Mental State adaptado para dor, senão os números são ilusórios.