Entendendo a figura de João Romão em O Cortiço
O Cortiço é um romance de Aluísio Azevedo publicado em 1890, e João Romão é o protagonista masculino. Ele é um português imigrante que começa como caseiro de uma pensão e, ao longo da narrativa, sobe socialmente até se tornar dono de um cortiço. A personagem funciona como espelho do processo de acumulação capitalista no Brasil do final do século XIX. Não é uma leitura leve. O livro descreve a vida nos cortiços cariocas com um naturalismo cru que ainda causa estranhamento quando abordado em sala de aula.
João Romão O Cortiço: análise da personagem e sua evolução
A trajetória de João Romão é estruturada em duas fases principais. Na primeira, ele vive com Rita Baiana em um quarto da pensão da Baronesa Modesta. Trabalha como administrador de fazenda, guarda dinheiro com austeridade extrema e trata das contas do dia a dia com uma disciplina quase obsessiva. Na segunda fase, após a falência de uma parceria na lavoura, compra um terreno, constrói um cortiço e se instala com Rita como companheira oficial, embora o relacionamento se deteriorasse lentamente. O ponto central da personagem não é simplesmente a ascensão econômica. É a forma como ela transforma as relações humanas em transações materiais. João Romão chega a enxergar cada morador do cortiço como uma fonte de renda mensurável. Quando a doença e o isolamento atingem Rita, por exemplo, ele não reage com cuidado. Reage com calculo: o gasto com tratamento diminui o lucro do imóvel. Esse momento é fundamental para entender a frieza da personagem. A ascensão dele não é uma celebração. É um processo de esvaziamento gradual dos laços afetivos.
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Também é importante notar que Aluísio Azevedo não pinta João Romão como vilão puro. Ele mostra um homem que carrega traços da mentalidade do imigrante europeu do período: responsabilidade, economia, planejamento. A tragédia está em como essas qualidades são deslocadas para um contexto onde só o lucro importa. Quando João Romão morre, cercado de dinheiro mas totalmente sozinho, o romance deixa claro que a acumulação sem relação humana gera ruína. Nada mais. Se você está estudando o livro para vestibular ou concurso, o erro mais comum é tratar João Romão como mero antagonista. A análise mais precisa reconhece que ele representa uma força social, não apenas uma personalidade. O cortiço funciona como organismo coletivo no romance, e João Romão é o elemento que tenta dominar esse organismo por meio do capital. O conflito central é entre o individualismo do proprietário e a coletividade dos moradores.
Outro detalhe que muitos deixam passar: a relação de João Romão com a terra. Ele sonha em ser fazendeiro. Quer possuir solo, não apenas imóveis locados. Essa aspiração revela uma camada importante da psicologia da personagem. O cortiço é um meio, não o fim. O desejo verdadeiro é a propriedade rural, a estabilidade do senhor de terra. Quando a parceria agrícola fracassa, ele se conforma com o cortiço, mas essa frustração marca uma tristeza permanente na figura dele. Na prática de correção de redações e provas dissertativas, vejo frequentemente estudantes citarem trechos soltos sem contextualização. Recomendo ler os capítulos 18 a 25 com atenção, onde a construção do cortiço é descrita em detalhes. A descrição arquitetônica não é enfeite. Aluísio Azevedo mostra como cada tijolo representa economia, adiantamento de rendas, pressão sobre os inquilinos. O edifício é materialização do caráter de João Romão.
Há também uma questão de linguagem que merece destaque. O narrador usa um tom que oscila entre a objetividade naturalista e a ironia sutil. Em momentos-chave, como quando João Romão conta seus ganhos em voz alta para Rita, o texto sugere que a alegria dele é vazia. A personagem sorri porque acha que venceu. O leitor percebe que está sendo devorado pelo próprio sistema que construiu. Para quem quer aprofundar, recomendo ainda a obra Crítica e Sociedade da Cultura, de Antonio Candido, que aborda O Cortiço dentro do contexto do naturalismo brasileiro. A análise ajuda a compreender por que Aluísio Azevedo escolheu João Romão como eixo da narrativa e não um morador comum do cortiço.