Letramento Por Magda Soares - Letramento - Um tema em três gêneros por Magda Soares (Ebook) - Leia ...
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O que realmente é letramento na prática

A maioria dos professores e até alguns formadores ainda confundem alfabetização com letramento como se fossem duas coisas separadas, quando na realidade elas acontecem ao mesmo tempo. Magda Soares trouxe essa distinção de forma clara nos anos 1990, mas ela nunca foi tão mal aplicada em sala de aula. Eu vi material didático sendo criticado porque o autor achava que "trabalhar letramento" significava apenas fazer atividades com textos reais, sem nenhuma conexão com o sistema alfabético. Isso não funciona. Os dois eixos precisam andar juntos desde o primeiro dia.

Os pilares do letramento por magda soares

O conceito parte de uma distinção simples na teoria mas complicada na execução. Alfabetização é o domínio do código escrito, o mecanismo de converter fonemas em grafemas e vice-versa. Letramento é o uso social da leitura e da escrita, a capacidade de funcionar no mundo com textos. Magda Soares enfatizava que uma coisa não substitui a outra e que escolas que priorizam só a decodificação produzem alunos que sabem ler mas não entendem o que leram. Escolas que priorizam só o letramento produzam alunos que tentam adivinhar palavras pelo contexto e nunca consolidam o princípio alfabético. O ponto que poucos mencionam é que o letramento não é um fase que vem depois da alfabetização. Ele ocorre simultaneamente. Quando uma criança ouve uma história lida pelo professor, já está em situação de letramento enquanto ainda está decifrando letras. A integração é o que importa.

Eu tive um problema específico com uma turma de segundo ano no ano passado. O material do projeto político pedagógico da escola recomendava esperar a criança dominar o código alfabético antes de introduzir textos autênticos. Apliquei essa recomendação por três meses e observei que seis alunos da turma haviam desenvolvido ansiedade extrema em relação à escrita e dois deles estavam recuando na frequência. A virada veio quando passei a inserir cantinhos de leitura com revistas, rótulos e bilhetes desde a primeira semana, mantendo ao mesmo tempo a sistemática fônica nos contratos de produção textual. Em oito semanas, a turma que tinha resistência passou a pedir para escrever palavras próprias durante os momentos de circulação pela sala. Não foi mágica, foi só deixar o texto real estar presente enquanto o código estava sendo construído.

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Como implementar sem cair nos erros mais comuns

O erro mais frequente que eu encontro em planejamento é tratar letramento como um gênero textual ou como um momento da rotina. Magda Soares deixa claro que letramento é uma abordagem, um modo de entender a função social da escrita. Tentar encaixá-lo numa terceira-feira de análise linguística não faz sentido. Um detalhe prático importante: evite usar apenas livros infantis como fonte de texto autêntico. Isso cria uma distorção. Textos do cotidiano, como receitas, avisos da comunidade, mensagens de WhatsApp impressas, receitas de jogos, funcionam melhor porque a criança reconhece a função social daquele gênero. Eu costumo começar com materiais que os alunos já veem em casa. No meu caso, pedi que trouxessem qualquer embalagem, rótulo ou bilhete de casa e construímos um banco de textos da turma. Isso gerou engajamento imediato e permitiu trabalhar tanto a consciência fonológica quanto a interpretação sem splitar os eixos.

Outro ponto que os manuais não destacam é que a progressão alfabética precisa ser explícita mesmo em turmas com forte imersão em letramento. Crianças precisam ouvir a correspondência fonema-grafema de forma sistemática. A imersão sozinha não ensina o princípio alfabético. É uma combinação. O que funciona é alternar momentos de convenção ortográfica com momentos de uso social, sem separar rigidamente as atividades. Existe também uma limitação que precisa ser dita claramente. O modelo de Magda Soares depende de condições que muitas escolas não oferecem. Turmas com mais de trinta alunos, falta de material diversificado, professores sobrecarregados com burocracia. Nesses cenários, a teoria fica no papel. Se você está nessa situação, o recomendado é focar no que é viável: criar rotinas curtas de leitura compartilhada, usar documentos da comunidade escolar como texto de estudo e priorizar a autonomia dos alunos na escolha do que ler, mesmo que seja pouco. Não adianta seguir a teoria na íntegra se a estrutura não sustenta.

Recursos que realmente funcionam

Para quem quer se aprofundar, os livros da própria Magda Soares são a base. "Letramento e alfabetização: as muitas facetas" e "Alfabetização e letramento" são os mais citados, mas ela tem uma produção extensa que passa por temas como práticas de linguagem e formação docente. As publicações da Autêntica e da Contexto geralmente têm versões acessíveis e com preço competitivo se você comparar com outros títulos da área. Além disso, há vídeos de entrevistas e palestras disponíveis gratuitamente. A qualidade varia, mas algumas gravações da Universidade Federal de Minas Gerais mostram Magda Soares explicando com clareza a diferença entre os dois conceitos e como aplicá-los em sequência didática. Eu particularmente recomendo procurar gravações dos seminários do CEALE, Centro de Alfabetização, Letramento e Avaliação, porque o material é direto e evita romantização do tema.

Se você estiver montar um plano de ação para a escola, o caminho mais seguro é começar pela diagnóstico real da turma. Anotar quais alunos já dominam o princípio alfabético e quais ainda estão em fase de hipótese de escrita permite agrupar de forma mais eficiente. A maioria dos professores que eu acompanho não faz esse diagnóstico inicial e entra no ano no padrão, o que gera lacunas que só aparecem no meio do ano letivo, quando já é tarde para correção em larga escala. Eu costumo dizer que a ideia central de Magda Soares é simples de entender mas delicada de manter no dia a dia porque exige que o professor nunca abandone a sistematicidade em nome do uso social, nem sacrifique o sentido em nome da técnica. O equilíbrio é isso. O resto é detalhe de roteiro.