Entendendo a obra completa de Thomas More
Thomas More escreveu um corpo de trabalho pequeno em volume, mas extremamente influente. O que muita gente não entende na hora de procurar livros de thomas more é que ele não foi apenas o autor de Utopia. Ele foi humanista, jurista, conselheiro do rei Henrique VIII, e depois canonizado pela Igreja Católica. Cada uma dessas dimensões produziram textos diferentes, em latim, alguns traduzidos apenas no século XX para o português. A lista básica que você precisa conhecero que se encontram mais facilmente em livrarias e bibliotecas no Brasil inclui:
- Utopia (1516)
- O Diálogo dos Bem-aventurados (1529)
- Carta de conforto contra as tribulações (1521)
- Resposta aos Lutheranos (1523)
- Coroação de Espinhos (coloquium de rosa)
- Suplicação das Almas (1529)
- Diálogo sobre as Heresias (1529)
Se você quer começar por algo acessível, Utopia é o caminho. Mas o problema é que existem dezenas de traduções diferentes, e muitas delas são muito ruins. A de Maria Lúcia Aragão, lançada pela Editora 34 ou pela Nova Fronteira dependendo da edição, é uma das mais respeitadas. A tradução do Laerte Ramos da Silva, disponível pela editora Martin Claret, também costuma ser bem avaliada por acadêmicos.
Onde encontrar livros de thomas more com boa qualidade editorial
O problema prático que eu enfrentei quando comecei a montar uma coleção séria desses textos foi que muitas edições brasileiras são traduções de traduções feitas do inglês, e não diretamente do latim. More escreveu tudo em latim. Isso significa que uma edição que alega ser "tradução direta" pode ter sofrido distorções consideráveis ao passar pelo francês ou inglês antes de chegar ao português. Quando eu estava verificando passagens do "Diálogo de Conforto", por exemplo, percebi que uma edição brasileira distorcia um termo técnico latino sobre martírio que eu tinha acesso no original. A solução foi comprar a edição crítica da Loeb Classical Library, que traz o texto latino em uma página e o inglês do outro lado, e usar isso como referência para validar as traduções em português. Para quem não quer lidar com latim, as melhores opções disponíveis no mercado brasileiro hoje são:
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- Utopia — Editora 34, tradução de Maria Lúcia Corrêa da Costa Aragão. Edição revista e ampliada com notas explicativas.
- Utopia — Martin Claret, tradução de Laerte Ramos da Silva. Boa para leitura universitária.
- O Príncipe e a Utopia — Várias editoras lançam coletâneas, mas verifique sempre o tradutor.
- Diálogo de Conforto — Edições Loyola ou Paulus costumam ter versões em português, embora mais escassas.
- Suplicação das Almas — Traduzido pela primeira vez em português por Edições 70, com nota introdutória de Charles Fantazzi.
O que a maioria dos leitores ignora é que Utopia funciona melhor quando lido junto com a "Responsio ad Lutherum". More escreveu a Utopia como uma sátira política disfarçada de reportagem de viagem. Sem entender o contexto da Reforma Protestante e das polêmicas religiosas que ele estava envolvido, você lê o livro como se fosse um projeto de sociedade perfeita. Não é. É uma peça retórica complexa que joga com ironia o tempo inteiro. O próprio narrador Raphael Hythloday é, em grande parte, a voz de More brincando com ideias que ele não necessariamente endossa. Umaarmadilha comum é tratar a ilha de Utopia como um modelo a ser seguido. Os estudiosos que trabalham com More há mais tempo sabem que o texto é deliberadamente ambíguo. O prefácio de Peter Giles, amigo de More, descreve a obra como um gênero híbrido entre filosofia e ficção, mas já alerta o leitor para não tomar tudo literalmente. A estrutura do próprio livro — com a primeira metade criticando a Inglaterra de Henrique VIII e a segunda descrevendo uma sociedade ideal — cria um contraste que é parte da pergunta, não da resposta.
Se o seu interesse é mais acadêmico do que literário, considere adquirir a edição bilíngue latim-português ou latim-inglês que a Editora UnB ou a Editora da Unesp publicou em parceria com projetos de pesquisa. Essas edições trazem aparato crítico com notas de rodapé que apontam as nuances do latim moreano, algo que traduções comerciais simplificam demais. Eu comprei uma dessas edições da UnB por volta de 2018, e a diferença na compreensão do texto foi imediata — passagens que em traduções comuns pareciam dogmáticas ganhavam contornos irônicos quando você via a escolha lexical exata de More no original. Outro ponto que ninguém destaca o suficiente: as obras tardias de More, especialmente "Suplicação das Almas" e o "Diálogo sobre as Heresias", são muito mais acessíveis do que se imagina e revelam um autor em transição. Elas mostram a evolução de um humanista que, pressionado pela realeza e pela Igreja, precisava justificar suas posições teológicas em linguagem cada vez mais defensiva. A leitura em sequência — Utopia primeiro, depois os tratados religiosos — dá uma noção muito mais clara do desenvolvimento intelectual dele do que qualquer antologia separada.
Para quem quer uma opção rápida e barata, as eBooks da Amazon Kindle e da SnapCut compilam várias traduções, mas a qualidade varia muito. Recomendo baixar uma amostra e ler as três primeiras páginas antes de comprar. Às vezes a tradução cai tão mal que compensa investir numa edição impressa com notas, mesmo que seja um pouco mais cara no longo prazo. Se o foco for apenas Utopia e você quer algo definitivo, a edição da Nova Fronteira com tradução de Marcus Vinicius da Cunha Alves, acompanhada de introdução de José Guilherme Merquior, é sólida. Merquior era um dos poucos escritores brasileiros que realmente dominou a tradição política de More, então a introdução dele funciona quase como um curso intensivo sobre o pensamento utópico no século XVI.