Mapa Das Grandes Navegaçoes - Mapa Das Grandes Navegações - NAZAEDU
Mapa Das Grandes Navegações - NAZAEDU

Construir um mapa das grandes navegações que realmente funciona

O problema mais comum que eu vejo é gente baixando mapas estáticos da internet e achando que isso é suficiente para um projeto. Funciona se você só quer colar num poster. Não funciona se precisa sobrepor rotas, comparar datas, ou mostrar a evolução cronológica das descobertas. Aí você percebe rápido que precisa construir algo próprio. Eu comecei a brincar com isso há uns anos, mais por curiosidade do que por obrigação. Acabei gastando tempo demais tentando justapor mapas antigos com coordenadas modernas e sempre esbarrando no mesmo problema: os mapas da época não usavam o sistema de referência que a gente conhece. O Datum varia, a projeção é uma merda, e as coordenadas estão anotadas em graus que às vezes nem fazem sentido geográfico real.

Como montar seu mapa das grandes navegaçoes

O primeiro passo é decidir o que você quer mostrar. Rotas de Cabral? As de Vasco da Gama? As rotas portuguesas no Atlântico Sul? Mapas espanhois para as Américas? Defina o escopo antes de abrir qualquer software. Tentar colocar tudo numa única camada é pedir para ter um resultado ilegível. Eu uso o QGIS pra isso. É gratuito e aguenta o tranco. Se você tiver budget e quiser algo mais polished, o ArcGIS funciona, mas não compensa o custo pra um projeto pessoal ou acadêmico pequeno. O QGIS resolve em dois dias o que levaria uma semana no outro. Você precisa de três camadas básicas: um mapa base com a linha costeira atual (ou o mais próximo disso que existir), as coordenadas dos portos e pontos de referencia das navegações, e as rotas propriamente ditas. Para o mapa base, use dados do Natural Earth ou do OpenStreetMap. São gratuitos e não vão te dar dor de cabeça com licenciamento. A parte chata é converter as coordenadas históricas. muitos mapas da época listavam posições em graus e minutos, mas com erros sistemáticos. O mapa de Cantinho, por exemplo, tem posições que variam varios quilometros da realidade. Se você for usar dados historicos, leia os artigos sobre as fontes. Não confie cegamente nas coordenadas dos mapas antigos. Eu fiz uma vez um mapa das rotas portuguesas para a India no século XVI e passei duas semanas ajustando porque as coordenadas do original tinham uma distorcao que eu só percebi quando sobrepujei com imagens de satelite modernas. O erro era consistente em todo o treco — parecia que o cartografo tinha usado uma escala diferente pra cada regiao do mapa. A solução foi mapear ponto a ponto, usando como referencia os portos que sao identificados com certeza em varias fontes, e interpolar o resto. Isso reduziu o erro medio de mais de 50km para cerca de 8km na maior parte do traçado. Para as rotas em si, voce pode desenhar linhas simples conectando os pontos ou usar dados de GPS de expedicoes modernas que reconstituem as viagens. Tem estudos que fazem isso com barco a vela, seguindo ventos e correntes conhecidos na epoca. E mais trabalhoso, mas mais preciso. Os portos mais importantes que voce nao pode deixar de fora: Lisboa, Porto Alegre, Ceuta, Arguim, Sao Tome, Malindi, Goa, Malaca, Macau, Angola, Cabo Verde. Cada um desses tem registros historicos que permitem cruzar coordenadas com precisao razoavel. Se voce quer imprimir ou apresentar em PDF, o QGIS tem um modulo de composicao de mapas que permite adicionar legendas, setas de direcao, escalas e notas de rodape. Isso leva uns 20 minutos a mais, mas faz toda a diferenca na qualidade final. Um mapa sem escala grafica e sem nota sobre a fonte dos dados historicos vale praticamente nada academicamente. A limitacao mais frustrante desse tipo de trabalho é a ausencia de dados consistentes para algumas rotas menos estudadas. As viagens portuguesas para o Brasil antes de 1500 sao praticamente um vazio nos registos cartograficos. Voce vai encontrar especulacoes, mas especulacoes sem fonte primaria nao devem ir pra um mapa sério. Eu deixei de fora essas rotas mesmo porque nao tinha como sustentar com dados. Se alguem tiver fontes solidas pra isso, seria util pra comunidade inteira. Outro problema pratico é a escolha da projecao. Projecao de Mercator distorce demais perto dos polos e nao representa bem rotas tropicais. Eu prefiro usar a projecao equidistante ou a de Lambert conforme, dependendo do foco geografico do mapa. Para rotas no Atlantico Sul entre Africa e America do Sul, uma projecao conica conforme funciona bem. Tem tambem o aspecto cronologico. Se voce quer mostrar a evolucao das rotas ao longo do tempo, a melhor solucao que eu encontrei foi fazer multiplas versoes do mapa e juntar num video simples. Frame a frame, mostrando como as rotas foram se expandindo. Leva tempo pra renderizar, mas o resultado visual é muito mais claro do que tentar colocar tudo numa unica imagem estática. O download dos dados que eu uso segue o padrão Shapefile com sistema de coordenadas WGS84. Os arquivos de rota vêm em formato LINESTRING e os pontos de porto em POINT, tudo com metadados incluídos indicando a fonte historica de cada coordenada.

Pegadinhas que voce vai encontrar

A primeira é que muitos mapas historicos usam nomes diferentes pra mesmos lugares. "Rio da Prata" pode ser o Rio de la Plata, mas em alguns documentos também se refere a outras desembocaduras. Sempre verifique o contexto do documento antes de atribuir uma coordenada. A segunda é a questao do meridiano zero. Antes de 1884 nao existia um meridiano padrao internacional. Alguns mapas portugueses usavam as Ilhas Canarias, outros usavam Ferro. Se voce nao ajustar isso, as longitudes vao ficar deslocadas. Eu resolvi padronizando tudo pro meridiano de Greenwich e aplicando o deslocamento necessario com base na fonte original.