Os personagens de Machado de Assis não são o que você espera
Voltando ao final do século XIX no Brasil, Machado de Assis escreveu um livro em que o narrador já morreu antes da primeira página. Isso é importante porque muda completamente como você lê os personagens. Eles não vivem no seu campo de visão normal. Você os vê através dos olhos de alguém que já passou do outro lado, o que dá uma liberdade cruel para julgar e desmontar cada um deles.
memórias póstumas de brás cubas personagens: uma lista prática
O narrador é Brás Cubas. Ele conta sua própria vida desde a morte. Não é um flashback tradicional. É alguém falando de fora, com pessimismo, ironia e um tédio quase científico sobre a condição humana. Ele foi um político, um escritor frustrado, um homem rico que nunca conseguiu impressionar ninguém de verdade, nem a si mesmo. Virgília é o grande amor da vida dele. Ela é casada com Vicente de Carvalho, um homem bom demais para ser interessante. A relação entre Brás Cubas e Virgília não é romântica no sentido convencional. É vaidade, costura, ciúme e, no fim, um abandono morno. Ela o deixa por uma possibilidade mais confortável, não por paixão.
Marcela foi a amante famosa de Brás Cubas. Ela é bonita, inteligente e completamente honesta sobre o próprio interesse. Diz na cara que só ama a si mesma. Brás Cubas admira isso nela de um jeito perturbado. Ela é provavelmente o personagem mais livre do livro, e ele sabe disso. Quincas Borba é o filosofo da História Humana, aquele que defende o rubricionismo. Ele carrega um gato de estimação chamado Basilique, que acaba sendo sacrificado durante uma viagem. Esse evento marca Brás Cubas profundamente. A filosofia de Borba é sedutora mas vazia por dentro, e Machado vai mostrando isso passo a passo.
Prudêncio é o escravo que Brás Cubas herdou e tratou mal. Um dia ele se rebela na rua, xingando o amo. A humilhação pública desse episódio persegue Brás Cubas pelo resto da vida. Ele é um personagem pequeno mas central para entender a culpa que nunca desaparece de verdade. Paula é a irmã de Brás Cubas. Ela casa com Lobo Neves, e essa história é um dos pontos mais dolorosos do livro. O relacionamento deles começa com ternura genuína e termina em ruína. Não é dramático no cinema. É lento, silencioso, cotidiano.
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Cotrim e Lima são os aliados políticos de Brás Cubas no cenário da época. Eles representam o jogo de poder carioca do Segundo Reinado. Nada heroico. São homens que entendem que política é troca de favores e ninguém se ilude com isso. Lobato é o amigo que trabalha com ele no jornalismo. Tem um papel secundário mas aparece nos momentos em que Brás Cubas precisa de alguém para conversar sobre coisas fúteis. É exatamente esse tipo de amizade que não sustenta nada quando a vida fica difícil.
Existem ainda personagens menores como a mãe Doña Trajinha, o pai defunto, e diversos figuras que aparecem em capítulos isolados. Machado usa muito o procedimento autobiografista: personagens reais da época dele aparecem disfarçados ou como versões satíricas. O problema que eu encontrei na prática ao revisar esses personagens para um trabalho acadêmico foi a tendência de classificar Virgília como simples adúltera. Esse rótulomata a Complexidade da personagem. Ela não age por paixão ou por malícia. Age por conveniência e por um tipo de fragilidade que Machado mostra com detalhes finos. A solução que encontrei foi ler os capítulos dela com atenção aos silêncios, às coisas que ela não diz, e comparar com a forma como o próprio Brás Cubas se retrata. O método mais útil foi traçar o que cada um dos dois pensa sobre o outro versus o que realmente fazem. A diferença entre discurso e ação é onde mora a crítica social do livro.
Outro detalhe que muitos leitores perdem: Brás Cubas não é um anti-herói no sentido romântico. Ele não sofre de um conflito interno grandioso. Ele é um homem que se conhece mal e não se importa muito com isso. A genialidade de Machado está em mostrar essa indiferença como forma de verdade. A maioria dos leitores tenta encontrar justificativas morais para as ações dele. Não existe. Machado foi intencional nisso. Se você está estudando esses personagens para uma análise literária, recomendo começar pelos capítulos sobre Marcela e pelo capítulo em que o gato Basilique morre. Esses dois trechos condensam tudo o que Machado quer dizer sobre desejo, poder e solidão. A leitura costuma levar entre três e quatro horas, dependendo da velocidade. Vale cada minuto.
Um aviso objetivo: Memórias Póstumas de Brás Cubas não é um livro prático. Ele não resolve nada. Ele mostra a vida como ela é, sem consolo. Se você espera uma narrativa que ensine algo útil sobre relationships ou sucesso, vai sair frustrado. A obra funciona melhor quando você entra sabendo que não vai encontrar respostas claras. A versão disponível gratuitamente no Projeto Gutenberg em português é confiável. Basta procurar pelo título completo. A tradução e a edição são adequadas para estudo. Não há necessidade de comprar uma edição especial a menos que você queira notas de rodapé extensas.