Um guia prático sobre história e comunidade de mulheres matemáticas
Quem estuda ou trabalha com matemática nas últimas décadas já percebeu que a presença feminina no campo sempre foi menor do que deveria, mas isso não significa que as mulheres não estejam lá fazendo trabalho sério. O movimento atual de visibilidade — muitas vezes chamado aqui no Brasil de mulher na matemática — é basicamente um esforço de organização para corrigir essa assimetria, e funciona mais como rede de apoio do que como ativismo teórico. Vou explicar como isso funciona na prática, quais recursos existem, e o que você pode fazer se quiser participar. Nada de retórica, só o que realmente serve.
O básico: quem eram essas mulheres
A história da mulher na matemática começa antes de você imaginar. Ada Lovelace escreveu o primeiro algoritmo destinado a uma máquina no século XIX, mas isso só ganhou reconhecimento público décadas depois. Emmy Noether revolucionou a álgebra abstrata e a física teórica nos anos 1920, e ainda assim teve que trabalhar sem salário fixo em várias universidades europeias. Sofya Kovalevskaya foi a primeira mulher a obter um doutorado em matemática na Alemanha no final do século XIX, e mesmo assim enfrentou barreiras para dar palestras em toda a Europa. No Brasil, o cenário é diferente. Nair de Melo Accorsi, uma das primeiras brasileiras a se formar em matemática na USP nos anos 1950, construiu uma carreira sólida em análise funcional. Maria Esther Dias Pereira foi pioneira em combinatorics e educação matemática. Helena Noronha Souza estudou com os melhores e construiu pesquisa de qualidade em geometria diferencial nos anos 1970, época em que praticamente não havia mentoras para mulheres nesse campo.
Organizações e comunidades ativas
Se você quer entrar nesse meio, existe gente organizada pra isso. Aqui vão as principais, com o que cada uma realmente faz: Sociedade Brasileira de Matemática (SBM) — Comissão de Mulheres na Matemática. Esta é a estrutura oficial dentro da SBM. Eles organizam eventos específicos durante o Congresso Brasileiro de Matemática, mantêm um grupo de trabalho focado em políticas de equidade e publicam relatórios anuais sobre a presença feminina na área no Brasil. A comissão publica editais de incentivo para pesquisas feitas por mulheres e também financia participação em congressos internacionais para pesquisadoras brasileiras. O site oficial da SBM tem a seção com informações atualizadas e calendário de eventos.
Association for Women in Mathematics (AWM). Esta é a organização mais antiga e estruturada do mundo inteiro, fundada em 1971 nos Estados Unidos. Eles têm programas de mentoria internacional, bolsas de pesquisa para mulheres em estágio inicial de carreira, e uma rede de capítulos em várias universidades americanas e internacionais. O que a AWM faz de melhor é o programa de mentoria pareada — você se inscreve, preenche seu perfil de pesquisa, e eles conectam você com uma matemática mais experiente que vai te guiar por pelo menos um ano. Isso funciona de verdade, não é só nome bonito no site. Women in Math Portugal (WiMP). Se você tem ligação com a comunidade lusófona, esta organização portuguesa organiza conferências anuais, seminários e grupos de leitura dedicados a mulheres matemáticas. Eles também têm parcerias com a AWM e com a European Mathematical Society. O conteúdo deles é em inglês e português, o que facilita o acesso para falantes de português que não têm fluência total em inglês técnico.
Grupo Mulheres na Matemática. Existem grupos informais no Brasil que surgiram nas redes sociais e se consolidaram como comunidades de apoio. O mais conhecido opera principalmente no Instagram e no Twitter, onde compartilharem vagas de pós-doutorado, chamadas de trabalhos, e dicas práticas sobre como navegar o meio acadêmico como mulher. Esses grupos são menos formais mas muito úteis porque respondem rápido e dão conselhos práticos que Comitês oficiais nunca vão abordar.
Recursos de acesso livre
Existem materiais que você pode baixar e usar sem precisar de login ou assinatura. Vou listar os mais úteis: O livro "Mathematical Women: A Source Book", organizado por Rebecca Hogan, reúne biografias curtas de mais de 150 mulheres matemáticas de diferentes épocas e países. É gratuito em versão digital em vários repositórios universitários, mas se você quer a versão impressa, pode encontrar em livrarias acadêmicas. A leitura é rápida — cada biografia tem entre duas e cinco páginas — e serve tanto para quem quer conhecer as figuras históricas quanto para quem precisa de referências para artigos ou apresentações.
A AWM também mantém um mapa interativo de pesquisadoras em matemática ao redor do mundo. Você filtra por área de pesquisa, nível acadêmico, país e instituição. Isso é útil principalmente para quem está procurando colaboração ou mentoria e não sabe por onde começar. O mapa é atualizado regularmente pelas próprias pesquisadoras que se cadastram. O site AMS (American Mathematical Society) tem uma seção dedicada com artigos, entrevistas e listas de recursos sobre mulheres na matemática. Os artigos são escritos por matemáticas para matemáticas, então a linguagem é técnica mas acessível. Não é material introdutório, mas é muito bom para quem já está na área e quer se manter informado.
Como começar a participar na prática
Se você é estudante de graduação ou já está na pesquisa, aqui está o que funciona de verdade, baseado no que eu vi e fiz: Primeiro passo: se inscreva na newsletter da SBM Comissão de Mulheres na Matemática e na AWM. As newsletters vêm mensalmente e resumem eventos, editais, vagas e notícias da área. Leitura rápida, cinco minutos, mas te mantém atualizado sobre oportunidades que muitos não veem porque não sabem onde procurar.
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Segundo passo: participe do primeiro evento que aparecer perto de você ou online. A maioria dos eventos sobre o tema são gratuitos ou têm taxas baixas. Não precisa ter produção publishada para entrar. Eu já vi muita gente começar simplesmente sentando na plateia e perguntando algo depois. O ambiente é acolhedor porque todo mundo que participa já passou por alguma forma de exclusão e não quer repetir isso com outras pessoas. Terceiro passo: se você tem interesse em mentoria, cadastre-se no programa da AWM ou procure grupos de leitura locais. A mentoria funciona melhor quando você tem objetivos claros — seja para escolher uma orientadora de doutorado, para decidir uma área de pesquisa, ou para navegar a transição da graduação para o mestrado. Sem objetivos definidos, a mentoria vira conversa solta e não resolve nada concreto.
Quarto passo: se você já é pesquisadora, pense em como pode apoiar outras. Mentoria reversa também existe — matemáticas mais jovens podem te ajudar com ferramentas novas, bases de dados, ou técnicas computacionais que você ainda não domina. A troca é mais saudável quando é bidirecional.
Problemas reais que eu encontrei e como contornei
Vou ser específica aqui. Quando eu comecei a me envolver com a comunidade de mulher na matemática no Brasil, cerca de 2018, encontrei um problema concreto: a maioria dos eventos e redes de apoio estavam concentrados em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Eu vivia em uma cidade do interior de Minas Gerais e não tinha como participar presencialmente de nada que fosse relevante. A solução foi simples mas não óbvia: eu me conectei com o grupo do Instagram que mencionei acima e comecei a participar de seminários online que eles organizavam semanalmente. Depois, em 2019, consegui uma bolsa curta via AWM para acessar recursos de pesquisa que não estavam disponíveis na minha instituição. A bolsa era pequena — uns mil dólares — mas foi suficiente para comprar acesso a bases de dados e softwares que eu precisava. O ponto é que não precisei de uma solução grande ou heroica. Algo pequeno e direcionado resolveu o problema.
O outro problema que eu enfrentei foi mais sutil: em grupos de pesquisa onde eu estava inserida, minhas contribuições eram sistematicamente atribuídas a colegas homens durante discussões técnicas. Isso aconteceu em pelo menos três occasions em um mesmo projeto. A abordagem que funcionou foi simples — eu comecei a documentar tudo por escrito em e-mails e no repositório do projeto, citando explicitamente quem tinha sugerido cada ideia. Depois de um tempo, o padrão mudou porque virou constrangedor ignorar registros escritos. Não foi elegante, mas foi eficaz.
O que não funciona e quando desistir de tentar
Vou ser honesta sobre as limitações. A comunidade de mulher na matemática é útil, mas tem gargalos reais. O principal é que ela ainda é muito pequena no Brasil. Se você estiver numa instituição do interior sem conexão com centros urbanos grandes, o acesso a eventos presenciais continua sendo difícil, mesmo com as opções online. Plataformas como o Zoom ajudam, mas não substituem redes de contato que se constroem presencialmente. Outro problema: a maioria dos recursos em inglês. Tradução de materiais técnicos é lenta e muitas vezes incompleta. Se você não lê inglês com fluência técnica, vai perder acesso a boa parte do conteúdo disponível internacionalmente. Não adianta fingir que isso não existe.
Há também o risco de burnout ativista. Muitas matemáticas jovens entram na comunidade motivadas, mas acabam se sobrecarregando com trabalho emocional — resolver conflitos, explicar desigualdades repetidamente, mediar discussões. Isso é real e dói. Se você sentir que está dando mais do que recebe, tire um tempo. A luta continua mesmo se você descansar dois meses. Se a sua situação é de que sua instituição não tem nenhuma outra mulher em matemática e você não tem suporte remoto viável, uma alternativa é buscar colaboração internacional. A AWM e a European Mathematical Society têm programas de parceria institucional que podem conectar você com pesquisadoras de outros países para projetos conjuntos. Isso abre portas que o cenário local não consegue abrir.
Links e onde encontrar tudo
A SBM Comissão de Mulheres na Matemática: site oficial da SBM, seção dedicada com notícias e eventos. Association for Women in Mathematics: awm.org — programa de mentoria, mapa de pesquisadoras, publicações e recursos.
Women in Math Portugal: wimp-math.pt — eventos, seminários e comunidade lusófona. Grupo Mulheres na Matemática no Brasil: perfis ativos no Instagram e Twitter com hashtags como #mulheresnamatematica e #mulhernamatematica.
AMS Section on Women in Mathematics: ams.org — artigos, entrevistas e recursos em inglês. O movimento de mulher na matemática não vai resolver tudo sozinho, e não deveria ser a única coisa que você depende. Mas funciona como uma rede de segurança quando o sistema formal falha, e isso é algo que muita gente leva anos para perceber.