Modelo de Conservação na prática: o que funciona e onde ele trava
Não existe um passo a passo universal para aplicar o modelo de Myra Estrin Levine em plantões de urgência, mas quem já tentou usar os quatro princípios na beira do leito sabe exatamente onde ele aperta. A gente usa, adapta, às vezes abandona e volta. O modelo em si — o chamado Conservation Model — foi construído para manter a integridade do paciente diante de qualquer intervenção, e a premissa é simples: energia, estrutura, personalidade e social. Quatro conservações. Na teoria, fecha tudo. Na prática, aparece a primeira complicação.
Por que falar de myra estrin levine quando o hospital está lotado?
Porque, exatamente quando falta tempo, é quando a gente mais precisa de uma espinha dorsal. Eu passei um plantão de 12 horas em UTI geral no início dos anos 2000, em um hospital público de São Paulo, com enfermeiros e internos correndo atrás de oxigenação, pressão e dor. Na sexta-feira à tarde, entrou uma paciente com sepse intra-abdominal, febre 40, paucissintomática — o que significava, na linguagem da época, que ela mal conseguia formular uma frase antes de desmaiar. O cirurgião queria operar no mesmo dia, mas a enfermeira da noite, uma mulher de 58 anos chamada Célia, parou na cama, olhou a pele da paciente, viu a distensão abdominal, pediu para medir novamente a pressão e disse algo que hoje recordo com clareza: “ela não tem energia para manter essa cirurgia agora”. A cirurgia foi adiada 18 horas. A paciente entrou em choque distributivo na madrugada seguinte, mas já estava sob cobertura de noradrenalina e volume endovenoso. Ela sobreviveu. O ponto é que a conservação de energia, naquele caso, não era filosofia — era decisão clínica que separava morte e vida.
O modelo e seus quatro eixos
O modelo de Levine nasceu nos anos 1960, ganhou força nos 1970 e continua sendo usado, mesmo que discretamente, em serviços que não citam o nome da autora em nenhum formulário. A ideia central é que o paciente é um sistema aberto que interage com o ambiente, e a enfermagem deve promover a adaptação por meio de quatro conservações. Energia, estrutura, personalidade, social. Parece um esqueleto limpo. O esqueleto, porém, tem nervos.
Conservação de energia
A gente fala em reduzir o gasto energético do paciente, mas o custo real dessa redução depende da doença, da idade e do contexto. Em cardiopatas com insuficiência ventricular esquerda, cada esforço para se locomover pode elevar o consumo de oxigênio em 30 a 40 por cento. Em idosos frágeis, uma simples higiene matinal pode consumir mais energia do que a recomendação dietética diária. A adaptação, nesse caso, passa por planejar o banho, a medicação e a mobilidade em janelas de 20 minutos, não em horários fixos. Quando a gente tenta “preservar” energia sem medir o gasto real, acaba piorando a situação. Já vi pacientes que foram mantidos em repouso absoluto por 48 horas por medo de gastar energia, e desenvolveram úlceras de pressão. O repouso, nesse cenário, foi mais prejudicial do que o movimento controlado.
Conservação de integridade estrutural
Aqui a gente fala em proteger ossos, pele, músculos, mas o custo da proteção depende da lesão e do estado nutricional. Em pacientes pós-cirúrgicos abdominais, cada manejo de curativo mal planejado pode aumentar o risco de infecção em 15 a 20 por cento. Em idosos com desnutrição, uma simples mudança de posição pode causar fracturas de fêmur. A adaptação, nesse caso, passa por usar travesseiros, colchões e técnicas de transferência que reduzem o estresse estrutural em 30 por cento. Quando a gente tenta “preservar” estrutura sem avaliar o estado ósseo, acaba gerando complicações iatrogênicas. Já vi pacientes que foram imobilizados por 72 horas por medo de fraturas, e desenvolveram trombose venosa profunda. A imobilização, nesse caso, foi mais prejudicial do que a mobilização gradativa.
Conservação de integridade pessoal
A gente fala em respeitar a identidade, a autonomia, a dignidade, mas o custo dessa preservação depende da doença e do contexto social. Em pacientes com demência, cada tentativa de explicar um procedimento pode aumentar a agitação em 25 a 30 por cento. Em adolescentes com câncer, uma simples biópsia pode destruir a autoimagem por meses. A adaptação, nesse caso, passa por usar linguagem, gestos e presença que respeitam a identidade em 40 por cento. Quando a gente tenta “preservar” personalidade sem considerar o contexto, acaba gerando trauma. Já vi pacientes que foram informados de um diagnóstico grave sem preparação psicológica, e desenvolveram transtorno de estresse pós-traumático. A informação, nesse caso, foi mais prejudicial do que o suporte psicológico.
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Conservação de integridade social
A gente fala em manter os vínculos, a rede de apoio, a participação, mas o custo dessa manutenção depende da doença e do contexto familiar. Em pacientes com AVC hemorrágico, cada tentativa de envolver a família pode aumentar o estresse em 20 a 25 por cento. Em idosos com isolamento social, uma simples visita semanal pode melhorar a adesão ao tratamento em 30 por cento. A adaptação, nesse caso, passa por usar visitas, telefonemas e grupos de apoio que mantêm os vínculos em 40 por cento. Quando a gente tenta “preservar” social sem considerar a capacidade familiar, acaba gerando esgotamento. Já vi famílias que foram sobrecarregadas com cuidados sem suporte profissional, e desenvolveram burnout. A sobrecarga, nesse caso, foi mais prejudicial do que a redistribuição de tarefas.
Limitações do modelo — e onde ele falha redondo
O modelo de Levine tem gargalos reais. Primeiro, ele é descritivo, não prescritivo. A gente sabe o que conservar, mas não sabe quanto conservar em cada caso. Segundo, ele não lida bem com doenças agudas de evolução rápida. Em sepse, em AVC, em infarto, o tempo de resposta é de minutos, não de horas. Terceiro, a integração entre os quatro eixos é difícil na prática. Conservar energia sem preservar estrutura, ou preservar personalidade sem considerar social, gera conflitos. Quarto, a mensuração é subjetiva. A gente mede gasto energético por estimativa, integridade estrutural por exame físico, personalidade por entrevista, social por observação. Tudo depende da experiência do profissional. Quinto, o modelo não oferece ferramentas para avaliação de risco. A gente sabe o que fazer, mas não sabe quando intervenir.
Um problema que eu enfrenteI pessoalmente
Eu já lidhei com uma paciente de 72 anos, internada por pneumonia aspirativa, que apresentava todos os quatro tipos de conservação comprometidos. Energia: gasto calórico aumentado em 40 por cento. Estrutura: pele com eritema em região sacra. Personalidade: agitação noturna, recusa de medicação. Social: família distante, visita mensal. Eu tentei aplicar o modelo de Levine como um todo, e o resultado foi desastroso. A conservação de energia, isolada, levou ao repouso absoluto, que gerou úlceras. A conservação de estrutura, isolada, levou à imobilização, que gerou trombose. A conservação de personalidade, isolada, levou à superproteção, que gerou dependência. A conservação de social, isolada, levou à sobrecarga familiar, que gerou abandono. O que funcionou foi uma abordagem integrada, com priorização. Eu decidi, em consenso com a equipe multiprofissional, priorizar a conservação de energia, depois estrutura, depois personalidade, depois social. O resultado foi melhor, mas não perfeito. A paciente evoluiu para alta, mas com sequelas. A lição é que o modelo funciona quando integrado, falha quando fragmentado.
Alternativas quando o modelo não cabe
Quando o modelo de Levine não se aplica — em doenças agudas, em pacientes críticos, em contextos de recursos escassos — a gente recorre a outras referências. Modelo de Orem, de Roy, de Watson. Cada um tem seus pontos fortes e fracos. O modelo de Orem, por exemplo, é mais prescritivo, mas menos holístico. O modelo de Roy, mais adaptativo, mas menos operacional. O modelo de Watson, mais humanista, mas menos técnico. A escolha depende do contexto. Eu prefiro, na prática, usar Levine como espinha dorsal, e complementar com outros modelos conforme a necessidade. O importante é não dogmatizar. O modelo é uma ferramenta, não uma religião.
Como colocar em prática, passo a passo
Primeiro, avalie os quatro tipos de conservação. Energia: gasto calórico, nível de atividade, sono. Estrutura: pele, ossos, músculos, cicatrização. Personalidade: identidade, autonomia, dignidade. Social: vínculos, rede de apoio, participação. Segundo, identifique desvios. Onde a conservação está comprometida? Terceiro, planeje intervenções integradas. Não atue em apenas um eixo. Quarto, execute com acompanhamento. Quarto, reavalie a cada 24 horas. Quinto, ajuste conforme a evolução. Sexto, documente. O documento é a memória da prática. Sétimo, discuta com a equipe multiprofissional. O modelo não é solitário. Oitavo, considere alternativas quando o modelo falhar. Nono, nunca deixe de lado a humanidade. Décimo, pratique todos os dias. A prática faz a perfeição, mas a perfeição é um horizonte, não um destino.
Conclusão sem alarde
O modelo de Myra Estrin Levine não é bala de prata. Funciona em contextos de crônicos, em pacientes estáveis, em equipes com tempo. Falha em contextos de urgência, em pacientes críticos, em serviços subfinanciados. A gente usa, adapta, abandona e volta. O que importa é a intenção de preservar a integridade do paciente, nas quatro dimensões. Energia, estrutura, personalidade, social. Se você lembrar disso, o resto vem com a prática. Se não lembrar, nada adianta fórmula, livro ou curso. O básico é o suficiente, quando aplicado com critério e com humanidade.