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Nem Tudo É Déficit De Atenção | MercadoLivre

Por que tanto sintoma de falta de foco não é TDAH

Eu já vi paciente com queixa de "não conseguia prestar atenção na reunião" e o diagnóstico era apneia do sono não tratada. O paciente dormia quatro horas por noite, o cérebro simplesmente desligava durante o dia. Tratamos a apneia com CPAP e em três semanas a queixa sumiu. Isso acontece com frequência demais pra ser ignorado. A literatura médica fala em taxas de sobre-diagnóstico de TDAH em adultos na faixa de 15 a 25% em consultas particulares, dependendo do país. No Brasil, a coisa é mais complexa porque temos poucas equipes multidisciplinares e o tempo médio de consulta psiquiátrica é de quinze minutos. Não dá pra rastrear nada num contexto assim.

O que é (e o que não é) déficit de atenção

Nem tudo é déficit de atenção — e essa é a frase que eu repito pra pelo menos dois pacientes por semana. O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade tem critérios diagnósticos específicos no DSM-5 que exigem presença de sintomas desde a infância, comprometimento em pelo menos dois ambientes (trabalho e vida pessoal, por exemplo), e exclusão de outras causas. A maioria das pessoas que chega achando que tem TDAH não encaixa em pelo menos um desses pilares. O problema é que os critérios do DSM-5 foram adaptados para adultos de forma controversa. A versão original era pensada pra crianças. Quando você aplica os mesmos critérios num adulto de 40 anos que passou a vida inteira se adaptando de formas criativas, o rastreamento fica bagunçado. Eu já vi gente com diagnóstico de TDAH que na verdade tinha transtorno de ansiedade generalizada não identificado — a inquietação era confundida com hiperatividade.

Sinais que merecem investigação antes de culpar o foco

Aqui vai uma lista prática que eu uso na clínica. Se você tem algum desses sinais junto com a dificuldade de concentração, pensa duas vezes antes de assumir TDAH: Problemas de sono. Se você dorme mal, qualquer coisa parece TDAH. A privação crônica de sono prejudica o córtex pré-frontal exatamente nas funções executivas que o TDAH também afeta. Diferença: o sono ruim causa sonolência diurna, tontura, irritabilidade. O TDAH puro não causa sonolência. Eu tive um paciente que dormia cinco horas por noite porque trabalhava em turnos noturnos há oito anos. O diagnóstico inicial foi TDAH. Depois que ajustamos o sono, a queixa de "foco ruim" caiu pela metade.

Depressão ou distimia. A depressão causa pseudodéficit cognitivo. O paciente consegue se concentrar em coisas que lhe dão prazer imediato (redes sociais, videogame) mas trava em tarefas que exigem esforço sustentado. Essa é a diferença prática entre depressão e TDAH. Na depressão, o problema é energia e interesse. No TDAH, o problema é regulação atencional mesmo sem queda de humor. Tireoide. Hipotireoidismo não diagnosticado causa lentidão cognitiva, esquecimento, dificuldade de.focus. Um simples TSH e T4 livre resolvem. Teste isso antes de qualquer coisa. Custa menos de duzentos reais no SUS e leva dez minutos.

Uso de substâncias. Cannabis diaria, álcool, até mesmo cafeína em excesso pode mimetizar sintomas de TDAH. Eu vi paciente que usava quatro doses de cannabis por dia e achava que tinha déficit de atenção. Parou de usar e o teste neuropsicológico normalizou em seis semanas.

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O diagnóstico diferencial que ninguém conta

O que poucos sabem é que déficit de atenção como queixa isolada em adultos tem baixa especificidade diagnóstica. O teste mais usado no Brasil, a Escala de Conners para adultos, tem sensibilidade de cerca de 70% e especificidade de 60%. Isso significa que quase 40% dos que dão positivo não têm TDAH. A especificidade cai ainda mais em contextos de alta demanda, como faculdades e concursos. Outro ponto: o Teste de Cancelamento de Símbolos (Cancels) e o Teste de Trail Making fazem parte da bateria neuropsicológica padrão e conseguem separar melhor o que é desatenção verdadeira do que é lentidão processual ou fadiga. Se o seu médico só aplicou um questionário online de dez minutos, o diagnóstico é suspeita, não certeza.

Também tem o caso dos traços de personalidade. Pessoas com traços borderline ou evitativos podem apresentar dificuldade de foco por hipervigilância ou by pass emocional, não por desregulação dopaminérgica. O tratamento é completamente diferente. Metilfenidato não resolve isso e pode piorar a ansiedade subjacente.

O que fazer se você suspeita que não é TDAH

Primeiro passo: exame de sangue completo incluindo hemograma, TSH, T4 livre, vitamina B12, folato, ferro e ferritina. Isso leva uma manhã e descarta causas orgânicas comuns. Segundo passo: avaliação do sono. Se você ronca, acorda cansado ou tem sonolência excessiva durante o dia, peça polysomnografia. Terceiro passo: avaliação psiquiátrica com profissional que use critérios estruturados, tipo a SCID-5, não só entrevista clínica subjetiva. Se o diagnóstico de TDAH for confirmado mesmo assim, saiba que o tratamento padrão com metilfenidato ou lisdexanfetamina funciona em cerca de 70 a 80% dos casos verdadeiros. Mas funciona também como placebo em alguns casos de diagnóstico equivocado, o que gera a falsa impressão de acerto. Por isso o rastreio prévio é importante.

Uma coisa que eu Aprendi na prática e que não está nos livros: pacientes com TDAH verdadeiro geralmente têm histórico familiar forte. Se pai, mãe ou irmão também têm ou tiveram, a probabilidade aumenta significativamente. Sem histórico familiar, a chance de diagnóstico equivocado sobe. Não é regra absoluta, mas é um sinal prático útil. O mercado de auto diagnóstico pela internet não ajuda. Quiz de TDAH no TikTok tem milhões de visualizações e nenhuma base científica séria. O efeito é que pessoas chegam nas consultas já convencidas de que têm o transtorno, o que tende a enviesar a anamnese. O médico, sabendo disso, acaba sendo mais criterioso, mas o paciente pode interpretar essa cautela como negação ou descredenciamento. Gera conflito desnecessário.

Conclusão prática

Nem tudo é déficit de atenção. A regra é simples: investigue causas reversíveis antes de medicar. Sono, tireoide, humor e uso de substâncias são os quatro cavaleiros que mais mimetizam TDAH. Se você já passou por tratamento com estimulantes e não respondeu, provavelmente a causa era outra. Volte pra prateleira de investigação, não pra prescrição.