Uma coisa simples que sempre causa confusão no português
Vamos direto ao ponto. A palavra viagem com G é um substantivo, o ato de ir a algum lugar. A palavra viajem com J é uma forma verbal do verbo viajar, conjugada no presente do subjuntivo ou no imperativo para terceira pessoa do plural. Elas não são sinônimas e não podem ser usadas de forma intercambiável.
O certo é viajem ou viagem: quando usar cada uma
A confusão acontece porque, na fala coloquial do brasileiro, o som é praticamente idêntico. O problema é que na escrita isso não funciona assim. Olha só como separar de vez. Se você está falando do ato de viajar, do deslocamento, da jornada, use sempre com G. Viagem de férias, viagem de negócios, viagem longa, viagem curta. É um substantivo feminino e sempre leva G.
Se você está conjugando o verbo viajar para ele/eles/elas no subjuntivo ou imperativo afirmativo, use com J. Que eles viajem amanhã. Viajem juntos se quiserem. É importante que nós viajemos com calma. Note que aqui o significado muda completamente: não é sobre o conceito de viagem, é sobre a ação de alguém viajar. Na prática eu costumo resolver testando uma coisa simples: troca por um verbo que termine em JOGAR. Se a forma verbal funciona com JOGAR, leva J. Se não funciona, é substantivo e leva G.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Pode ser que eles viajem assim como pode ser que eles joguem. Não funciona? É substantivo: uma longa viagem. Só isso. Esse truque de substituição eu descobri depois de passar vergonha em um relatório corporativo em 2016. Coloquei "que a viagem seja aprovada" com J num documento oficial da empresa. Meu gerente de conteúdo me chamou para corrigir na hora. A forma correta era "que a viagem seja aprovada" com G porque ali viagem é substantivo, objeto da preposição, e o verbo ser é que está no subjuntivo. Aprendi a lição. Desde então faço a verificação mental antes de qualquer texto mais sério.
Tem um detalhe que quase ninguém menciona e que custa caro. A primeira pessoa do plural do presente do subjuntivo de viajar também existe: viajemos. Com J e com E no final. Muita gente esquece dessa forma e acaba cometendo erro ao escrever textos formais como contratos ou pareceres jurídicos onde o subjuntivo é frequente. Se você está escrevendo algo como "É fundamental que nós viajemos na próxima quinzena", o correto é com J e com E: viajemos. Não viaje. Não viage. Viajemos. Outra pegadinha comum é quando a palavra aparece no meio de uma oração e o som das letras vizinhas acaba mascarando a grafia certa. Por exemplo: "Depois da viagem, eles viajem logo." Na primeira ocorrência o G marca o substantivo. Na segunda o J marca a forma verbal. Se você lê rápido sem notar a estrutura da frase, o cérebro tende a padronizar tudo para a forma mais comum, que é a substantiva. Por isso a dica do verbo jogar é útil: ela força você a analisar a função gramatical de cada palavra, e não só o som.
Vale lembrar também que há variações de conjugação que geram dúvidas parecidas. Viajamos é uma forma do pretérito perfeito que leva J porque vem do verbo, mas é primeira pessoa do plural, então não confunda com o substantivo. A forma "nós viajamos ontem" é verbal. "Nossa viagem foi ontem" é substantiva. A mudança de sentido é clara quando você para para pensar na estrutura, mas passa batido na pressa. Se quiser consultar a norma de forma direta, o Aurélio e o Houaiss tratam essa diferença de forma clara. A diferença entre as duas grafias não é regional nem informal: é gramatical e sistemática. Não existe variação aceitável entre elas no padrão culto escrito.
O que eu recomendo de verdade é desenvolver o hábito de identificar a função sintática antes de escrever. Se a palavra é sujeito, objeto, complemento nominal, é substantivo e leva G. Se a palavra integra uma oração subordinada com valor de finalidade, hipótese ou desejo, provavelmente é forma verbal e leva J. Esse tipo de análise leva uns três segundos e evita o erro na maior parte dos casos. Um último ponto prático: ferramentas corretoras automáticas às vezes falham nesse tipo de distinção porque dependem de contexto limitado. Eu já vi um corretor sugerir "viagem" no lugar de "viajem" numa frase como "Que os funcionários viajem até o evento", justificando erroneamente com base na frequência da ocorrência. O correto ali é viajem mesmo. Portanto, confie no seu julgamento linguístico e use a ferramenta como apoio, não como autoridade final.