O Mito Da Desterritorializacao - O mito da desterritorializaçao: do fim dos territorios a ...
O mito da desterritorializaçao: do fim dos territorios a ...

Deterritorialização nunca acontece sozinha — e a maioria das pessoas ignora isso

Eu já vi gente aplicar a ideia de desterritorialização do Deleuze e Guattari em projetos reais e sempre dá no mesmo: o grupo que promete liberdade total acaba estruturando hierarquias mais rígidas do que as que queria abandonar. Não é coincidência. É o que o próprio conceito prevê, mas raramente se lê com atenção.

O que realmente é o mito da desterritorializacao

Desterritorialização é o processo pelo qual algo se afasta de um código, de uma territorialidade estabelecida — seja um território físico, social, simbólico ou institucional. Vem de "A Mil platôs" (1980), obra que constrói a parceria entre Deleuze e Guattari. O termo descreve movimento, não estado. Alguém ou algo sai de um enquadramento. O problema é que o conceito é lido como se fosse sinônimo de libertação, e aí entra o mito. A primeira coisa que os manuais costumam omitir é que a desterritorialização sempre vem acompanhada de uma reterritorialização. É um par inseparável. Quando você desterritorializa, você arranca algo de um lugar e ele vai se estabilizar em outro, ainda que provisoriamente. Ignorar esse mecanismo gera erros práticos sérios.

Por que o conceito é mal aplicado na prática

No campo organizacional, vejo bastante gente tentando "desterritorializar" equipes usando estruturas horizontais, remoção de cargos, gestão por círculos e similares. O resultado imediato é que surgem novas territorialidades não escritas: os que falam mais alto, os que têm mais tempo disponível, os que dominam a ferramenta de comunicação escolhida. A estrutura oficial desaparece, mas a dinâmica de poder se realoca. Eu já acompanhei um projeto que eliminou chefes formais e, em seis semanas, formou-se uma tríade informal que centralizava decisões sobre orçamento e contratação. Ninguém nomeou essa tríade. Ela simplesmente surgiu porque o vácuo precisa ser preenchido. No campo digital, o cenário é semelhante. Comunidades que nascem com a promessa de descentralização tendem a cristalizar regras próprias rapidamente. Tokens de governança, snapshots de votação, requisitos de participação — tudo isso funciona como nova territorialidade. O processo é previsível e acontece em escalas de tempo que vão de semanas a poucos meses, dependendo do tamanho do grupo e da complexidade do objeto desterritorializado.

O que a literatura efetivamente diz, sem o filtro motivacional

Deleuze e Guattari falam de três regimes de sinais. O selvagem, o bárbaro e o estatal. A desterritorialização aparece como movimento de fuga dentro desses regimes, não como saída absoluta. Há um nível absoluto de desterritorialização, sim, mas ele funciona mais como limiar teórico do que como recurso operacional. Na prática, trabalhamos com desterritorializações relativas, que podem ser canalizadas, redirecionadas ou contidas. O ponto que quase ninguém enfatiza é que a desterritorialização não é inerentemente progressista. Ela pode abrir espaço para algo novo, mas também pode permitir a chegada de formatos de controle mais eficientes. O capitalismo, na leitura deles, é precisamente uma máquina que captura fluxos desterritorialisados e os reterritorializa sob novas formas de valor. Dizer que fugir de um sistema tradicional automaticamente gera emancipação é ler o conceito de forma incompleta.

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Como trabalhar com o conceito sem cair nas armadilhas

A primeira regra é mapear a reterritorialização antes de implementar a mudança. Isso significa identificar o que vai ocupar o espaço que está sendo esvaziado. Em organizações, eu costumo perguntar: quais canais informais vão surgir? Quem vai ter acesso real às decisões? Qual código não escrito vai substituir o código formal? Na prática, eu aplico um ciclo de três etapas. Primeiro, desenho o território atual e registro os fluxos reais — não os fluxos declarados. Segundo, defino qual nível de desterritorialização quero e em qual direção. Terceiro, antecipo o ponto de reterritorialização e preparo mecanismos de contenção ou redirecionamento. Esse processo leva de quatro a seis semanas para grupos de até cinquenta pessoas, dependendo da maturidade prévia do grupo.

Um exemplo concreto. working em uma cooperativa que queria eliminar hierarquias administrativas, eu identifiquei que a reterritorialização ocorreria pela competência técnica. As pessoas que dominavam as ferramentas digitais concentravam poder informal. A solução não foi proibir o uso avançado, mas criar rotatividade obrigatória nas funções técnicas e registros abertos das decisões. Não eliminou a assimetria, mas tornou-a visível e negociável. O grupo levou oito meses para estabilizar nesse novo equilíbrio, e ainda assim houve rodízio de lideranças informais a cada trimestre.

Pontas soltas que o conceito não resolve

Desterritorialização não é ferramenta de gestão. É conceito analítico. Tentar usá-lo como método de transformação organizacional sem considerar a reterritorialização gera frustração e resultados distorcidos. Em contextos onde a estabilidade é crítica — hospitais, aviação, operações com risco de vida — a desterritorialização mal conduzida pode ter consequências reais. Eu já vi uma unidade de emergência adotar "gestão horizontal" e perder tempo precioso em discussões sobre quem tinha autoridade para decidir em situações de crise. A reterritorialização foi lenta e custosa. Também vale notar que o conceito foi desenvolvido para analisar movimentos culturais, sociais e políticos amplos. Aplicá-lo a microdinâmicas empresariais exige cuidado adicional, porque as escalas são diferentes e os efeitos de escala alteram a velocidade da reterritorialização. Grupos pequenos reterritorializam mais rápido do que grupos grandes, simplesmente porque a comunicação é mais direta e os laços pessoais ocupam espaços que estructuras formais deixaram vagos.

Consequências práticas de confundir desterritorialização com libertação

Quando se trata o conceito como promessas de liberdade, o risco é duplo: por um lado, se cria expectativa irreal; por outro, quando a reterritorialização aparece — e ela aparece —, o grupo tende a Culpar os indivíduos em vez de reconhecer o padrão estrutural. Eu já vi líderes acusarem membros de "não terem espírito colaborativo" quando, na verdade, o grupo estava passando por um processo previsível de realocação de poder. A linguagem do conceito, quando mal usada, vira arma política interna. Se o objetivo é reduzir concentração de poder, existem estruturas mais estáveis e testadas do que apostar em desterritorialização como solução única. Modelos de corresponsabilidade com regras claras de rotação, sistemas de freios e contrapesos informais, e transparência obrigatória em decisões estratégicas costumam produzir resultados mais duradouros do que a simples eliminação de fronteiras formais.

O conceito permanece útil como lente de análise. Ele ajuda a perceber movimentos de fuga, capturas e realocações que seriam invisíveis sob leituras puramente institucionais. O erro está em tratar a desterritorialização como destino em vez de processo. Todo processo gera novo terreno. Reconhecer isso é o que separa a aplicação cuidadosa da aplicação ingênua.