O Período Das Regências - Livro: O período das regências (1831-1840) - Marco Morel | Estante Virtual
Livro: O período das regências (1831-1840) - Marco Morel | Estante Virtual

Por onde começar quando você vai estudar o período das regências

A primeira coisa que eu sempre recomendo é esquecer a ideia de que foi um tempo de "vacatio legis" ou "espaço vazio entre dois imperadores". Isso é uma visão muito simplista que aparece em vários manuais escolares e que não corresponde à realidade do que aconteceu no Brasil entre 1831 e 1840. O período foi marcado por transformações institucionais profundas, tentativas reais de federalização e uma violência política que definiu o curso das décadas seguintes. Quando eu estava revisando fontes primárias sobre a regência de Pedro de Araújo Lima, o futuro marquês de Olinda, percebi algo que os livros didáticos raramente mencionam: a correspondência entre os presidentes de província e o governo central mostrava que muitos desses líderes regionais já estavam arquitetando projetos autônomos muito antes da década de 1840. Isso mudou completamente a minha leitura do que foi a Constituição de 1824 e como ela foi interpretada durante a regência.

O período das regências: contexto e características principais

O período das regências começou com a abdicação de D. Pedro I em 7 de abril de 1831 e se estendeu até o Golpe da Maioridade em 23 de julho de 1840. Durante esses nove anos, o Brasil foi governado por regentes porque o herdeiro do trono, D. Pedro II, tinha apenas quatorze anos na data do golpe. A ideia de declarar a maioridade antecipada foi uma solução política, não jurídica, e isso é importante entender desde o início. O que muitos estudantes não percebem é que a regência não foi um governo único. Houve várias configurações diferentes. Inicialmente, foi instalado um triunvirato composto por Francisco de Lima e Silva, Carlos Antônio de Melo and José da Rocha Lima. Esse governo durou apenas alguns meses e foi substituído por uma regência unitária com João Carlos de Brum e Silva. Depois, em 1834, com a At Adicional, passou-se a ter uma regência.três membros, sendo o mais famoso Pedro de Araújo Lima.

Durante esse tempo, o país enfrentou uma série de revoltas regionais que muitas vezes são apresentadas de forma isolada nos livros. Na prática, elas tinham conexões importantes entre si. A Cabanagem no Grão-Pará, a Sabinada na Bahia, a Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, a Balaiada no Maranhão e a Revolta dos Males na Bahia formavam um quadro de insatisfação generalizada que ameaçava a coesão territorial do império.

O mecanismo institucional por trás do governo regencial

A constituição imperial de 1824 previa que, na ausência do imperador, o governo seria exercido por um conselho de regência. Mas o texto original não especificava com clareza quantos membros deveria ter esse conselho nem quais seriam seus poderes exatos. Isso gerou discussões acaloradas nas câmaras provinciais e no parlamento central sobre quem realmente detinha o poder durante o interregno. O At Adicional de 1834 foi a principal mudança institucional desse período. Ele criou as Assembleias Legislativas Provinciais, que tinham competência para legislar sobre assuntos locais. Isso foi uma conquista significativa para os liberais moderados que desejavam mais autonomia regional. Mas também gerou conflitos constantes entre governadores nomeados pela coroa e assembleias provinciais eleitas, conflito que se intensificou após 1837.

Um problema prático que eu encontrei ao pesquisar arquivos provinciais diz respeito à falta de clareza sobre a sucessão dos presidentes de província. Quando um presidente era afastado ou morria, quem assumia o governo não estava sempre definido. Em algumas províncias, o presidente da câmara municipal assumia interinamente. Em outras, o tribunal de justiça local tomava as rédeas. Essa ambiguidade jurídica criou situações caóticas que facilitaram o surgimento de lideranças locais fortes e, em alguns casos, de governos paralelos durante as rebeliões.

As revoltas que marcaram o período

A Cabanagem (1835-1840) no Grão-Pará foi provavelmente o conflito mais prolongado e sangrento da regência. Estourou em janeiro de 1835 e só foi sufocada em agosto de 1840, pouco antes do Golpe da Maioridade. As estimativas de mortos variam muito: alguns autores falam em 15 mil pessoas, outros chegam a 30 mil. O que é certo é que a população de Belém foi drasticamente reduzida e a província ficou economicamente devastada. A Sabinada (1837-1838) na Bahia teve características interessantes. Foi liderada por médicos e intelectuais, não por coronéis agrícolas. Manuel Fernandes de Araújo, o padre Sabino, proclamou a República Bahiana e tentou governar durante onze meses. O que é curioso nessa revolta é que ela tinha elementos tanto separatistas quanto republicanos, mas também pedidos de melhorias urbanas e administrativas que vão além do simples desejo de independência.

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A Revolução Farroupilha (1835-1845) foi a mais longa de todas e se estendeu por dez anos. Começou ainda durante a regência e só terminou com a Paz de Ponte, já no reinado de D. Pedro II. As causas eram complexas: tarifas alfandegárias favoráveis ao comércio argentino em detrimento dos produtores de charque gaúcho, disputas fronteiriças com o Uruguai e ressentimentos contra o governo central por questões de representação política. Os farrapos chegaram a controlar grande parte do território gaúcho e a criar estruturas administrativas próprias, inclusive emitindo moeda e estabelecendo relações diplomáticas com o Uruguai. A Balaiada (1838-1841) no Maranhão misturava elementos populares e elites regionais. Luis Alves de Lima e Silva, futuro duque de Caxias, foi chamado para reprimir a revolta e usou uma combinação de força militar e negociações políticas que lhe renderam grande prestígio. Esse prestígio seria fundamental para sua carreira posterior e para o mantenimiento da ordem durante os primeiros anos do reinado de Pedro II.

O período das regências e a questão da sucessão imperial

A questão sucessória era delicada porque D. Pedro II era filho de D. Pedro I e de uma arquiduquesa austríaca. Havia desconfianças sobre sua lealdade aos interesses brasileiros, especialmente entre os setores mais nacionalistas da elite política. Alguns críticos chegaram a questionar se um príncipe educado em costumes europeus e come mãe estrangeiras teria legitimidade para governar o Brasil. O Golpe da Maioridade, ocorrido em 1840, foi organizado pelos liberais do Partido Liberal que haviam perdido as eleições para os conservadores do Partido Conservador. Eles pressionaram o Parlamento a declarar D. Pedro II maior de idade aos catorze anos, permitindo seu acesso antecipado ao trono. Isso quebrou o processo legal de sucessão estabelecido pela constituição e criou um precedente perigoso: o poder poderia ser exercido através de manobras políticas em vez de processos institucionais regulares.

Uma observação prática que faço aqui é sobre as fontes disponíveis para estudar esse período. Os arquivos nacionais do Rio de Janeiro possuem documentos importantes, mas muitas informações estão espalhadas por arquivos estaduais e municipais. Para uma pesquisa séria sobre o período das regências, é necessário consultar fontes em múltiplas localidades. A digitalização tem ajudado, mas ainda há lacunas significativas, especialmente em províncias como o Grão-Pará e o Maranhão, onde muitos documentos foram perdidos ou danificados durante os conflitos.

Legado e interpretação histórica do período

A historiografia brasileira tem evoluído bastante nas últimas décadas sobre a avaliação do período regencial. Tradicionalmente, ele era visto como uma fase de caos e fragmentação, um intervalo perturbador entre dois momentos de estabilidade: o governo de D. Pedro I e o início do reinado de D. Pedro II. Essa interpretação enfatizava as revoltas e a insegurança política, minimizando as conquistas institucionais. Estudiosos mais recentes têm destacado a importância da At Adicional de 1834 e das Assembleias Provinciais como passos rumo ao federalismo. Eles argumentam que o período regencial foi fundamental para a construção de uma identidade política brasileira mais descentralizada e para o desenvolvimento de práticas parlamentares que influenciariam todo o resto do século XIX. Essa perspectiva mais equilibrada reconhece tanto os avanços quanto os recuos desse tempo.

O que eu diria, com base na experiência prática de lidar com documentos da época, é que o período das regências foi marcadamente contraditório. Por um lado, houve tentativas sérias de modernização institucional e de ampliação da participação política. Por outro, a violência das revoltas e a fragilidade do Estado central demonstraram as limitações estruturais do modelo político imperial. A solução encontrada com o Golpe da Maioridade foi evitar uma crise de sucessão, mas também ignorou o processo constitucional que prevvia a maioridade aos dezoito anos. Os conflitos armados da regência deixaram marcas profundas nas regiões afetadas. No Rio Grande do Sul, a memória farroupilha permanece viva até hoje. Na Bahia, a Sabinada é lembrada como um capítulo importante da história republicana. No Maranhão, a Balaiada ainda evoca debates sobre justiça social e representatividade política. Essas experiências regionais influenciaram as agendas políticas locais de forma duradoura.

O papel das elites regionais e a formação do Estado nacional

As elites regionais desempenharam um papel crucial durante a regência. Em muitas províncias, os políticos locais aproveitaram o enfraquecimento do governo central para consolidar seu poder. Isso resultou em uma tensão permanente entre o centro e as periferias que caracterizou toda a história política do império. Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, é uma figura central nesse processo. Sua atuação na Balaiada e depois na repressão a outras revoltas demonstrou a necessidade de um comando militar unificado e disciplinado. Suas campanhas militares foram eficazes, mas também revelaram as dificuldades de manter a coesão territorial em um país de dimensões continentais como o Brasil imperial.

Outro aspecto importante é o papel da imprensa e das sociedades patrióticas na difusão de ideias políticas. Durante a regência, houve um aumento significativo na circulação de jornais e na criação de associações que discutiam questões públicas. Isso contribuiu para a formação de uma opinião pública mais ativa eativa, mesmo que essa participação estivesse restrita a uma parcela pequena da população. Quando olhamos para o período das regências com olhos contemporâneos, é possível identificar muitos dos desafios que o Brasil ainda enfrenta em termos de relação entre União e estados, de representatividade política e de integração territorial. O que acontecia há quase dois séculos continua, de certa forma, a ecoar nos debates políticos atuais.