O que realmente é o gerundismo na prática
O gerundismo é o vício de usar o gerúndio (-ndo) em construções onde o infinitivo ou outra forma verbal seria mais natural. Não se trata apenas de uma regra gramatical de livro didático. É um padrão que surge no dia a dia, especialmente em ambientes corporativos, jurídicos e na mídia, onde a linguagem tende a se alongar sem necessidade.
o que e gerundismo
Definição curta: é o uso inadequado ou excessivo do gerúndio para expressar ação contínua, futuro imediato ou finalidade, quando a língua portuguesa oferece formas mais precisas e diretas. Exemplo clássico: "Estou aqui esperando seu retorno" em vez de "Aguardo seu retorno". Ou "Vamos fazer uma reunião para estar discutindo o projeto" quando o correto seria "para discutir o projeto". No fim das contas, o problema não é o gerúndio em si. O gerúndio existe e tem funções legítimas. O problema é a automatização do uso, a falta de seleção consciente da forma verbal, e a pressão social para soar "formal" ou "contemporâneo" sem entender o custo comunicativo disso.
Eu já vi contratos técnicos ficarem incompreensíveis porque o redator decidiu transformar todas as ações em gerúndio, como se a continuidade fosse a característica mais relevante. Em um projeto de análise de dados, tive que reescrever três páginas de documentação porque o texto original dizia "os dados estão sendo processados enquanto os usuários estão navegando pela interface" em vez de algo simples como "os dados são processados durante o uso da interface". O significado não mudou. A clareza dobrou.
Como identificar e corrigir na prática
A primeira coisa é parar de tratar o gerúndio como padrão de escrita. Comece a notar onde ele aparece em textos que você lê ou escreve. Anota exemplos durante uma semana. Você vai surpreender-se com a frequência. Para corrigir, substitua o gerúndio por:
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- Infinitivo quando indicar finalidade ou ação a ser realizada: "para resolver" em vez de "para estar resolvendo".
- Presente do indicativo quando descrever estado ou ação habitual: "o sistema analisa" em vez de "o sistema está analisando".
- Particípio quando a ação já ocorreu ou tem resultado consolidado: "os arquivos foram compactados" em vez de "os arquivos estão sendo compactados".
Um erro comum é achar que eliminar todo gerúndio resolve o problema. Na verdade, a chave é a precisão. Há situações em que o gerúndio é a única forma adequada, como em "Ela estava cantando quando eu cheguei" — aqui a ação passagera e em curso é exatamente o que se quer transmitir. Na minha experiência revisando editais de licitação, encontrei trechos como "o fornecedor deverá estar entregando os materiais até o dia X". Isso é gerundismo disfarçado de formalidade. A forma correta é "o fornecedor deverá entregar os materiais até o dia X". A diferença não é apenas estética; em disputas contratuais, a ambiguidade sobre se a obrigação é contínua ou pontual pode gerar interpretações jurídicas divergentes.
Limitações e armadilhas
Não existe fórmula mágica. A remoção do gerúndio não torna automaticamente um texto bom. Às vezes, a substituição gera construção mais pesada ou pouco idiomática. Por exemplo, trocar "está chovendo" por "chove" soa estranho em certos contextos narrativos, onde a continuidade é parte do efeito desejado. Além disso, o gerundismo não é uniforme na língua portuguesa. No Brasil, ele é mais visível na fala urbana e em escritórios; em Portugal, padrões diferentes prevalecem. Se você trabalha com conteúdo bilíngue ou para públicos lusófonos diversos, a correção deve ser ajustada ao registro-alvo.
Outro ponto: ferramentas de revisão automática frequentemente não captam o gerundismo como erro, porque ele não viola regras gramaticais estritas. Elas só sinalizam desvios de concordância ou ortografia. Ou seja, a responsabilidade pela detecção fica inteiramente com o revisor humano. Isso consome tempo, mas é um tempo bem gasto.
Quando realmente importa
Em textos técnicos, jurídicos, acadêmicos e em comunicações institucionais, a economia verbal afeta diretamente a taxa de compreensão. Um estudo não publicado de um grupo de revisão de documentos da minha área mostrou que a substituição de formas gerundiais desnecessárias reduziu o tempo médio de leitura em cerca de 18%, sem perda de informação. Em comunicações informais, como mensagens de WhatsApp ou e-mails rápidos, o gerundismo costuma passar despercebido e não causa danos. Aliás, em muitos casos até soa mais natural. O ajuste deve ser direcionado aos textos onde a precisão e a economia são critérios de qualidade.
Se você quer praticar, pegue um texto seu dos últimos meses — um relatório, uma proposta, até um thread profissional — e marque todas as formas em -ndo. Para cada uma, pergunte: a ação é contínua e relevante? A finalidade está clara? Existe uma forma verbal mais direta? Se a resposta for não para pelo menos duas dessas perguntas, substitua. O gerundismo não é um monstro. É um hábito lingustico que se fortalece pela repetição e pela pressa. Reconhecer isso é o primeiro passo para escrever com mais controle, não necessariamente com mais regras.