Entendendo o conceito de habitar
Habitar vai muito além de simplesmente ocupar um espaço físico. Quando as pessoas falam sobre o que é habitar, muitas vezes reduzem a questão a ter um teto sobre a cabeça. Na prática, habitar envolve uma relação dinâmica entre corpo, tempo e espaço que raramente é capturada por definições de dicionário.
Qual é exatamente o o que é habitar?
A definição mais recorrente na filosofia e na arquitetura moderna parte de Heidegger, que em "Construir Habitar Pensar" descreve habitar como a maneira como os seres estão no mundo. Não se trata de mover-se de um ponto A para um ponto B, mas de como se permanece, como se estabelece vínculo com um lugar. Mais tarde, Henri Lefebvre trouxera essa discussão para o campo urbano, argumentando que a habitação é um direito e não apenas um produto imobiliário. O que importa entender é que habitar ocorre em múltiplas escalas. Um território indígena é habitado de forma radicalmente diferente de um apartamento em condomÃnio fechado, e ambos contam como prática de habitar. A diferença está na intensidade do vínculo e nos modos de apropriação do espaço.
Como a habitação funciona na prática
Na prática, habitar envolve três camadas que se sobrepõem. A primeira é a corpórea: você precisa conseguir desempenhar suas atividades diárias ali. Cozinhar, dormir, usar o banheiro, receber visitas. A segunda é a social: como esse espaço permite ou impede relações com outras pessoas. A terceira é a simbólica: o que aquele lugar significa para você e para os outros. Um caso concreto que encontro com frequência diz respeito a imóveis que tecnicamente atendem a todas as normas construtivas mas são impossível de habitar de forma digna. Recentemente processei um caso em São Paulo onde uma família morava em um apartamento de 34 metros quadrados com quatro pessoas. O imóvel passava na vistoria do INCC, tinha registro de obra, iluminação natural dentro do mínimo exigido. Do ponto de vista regulatório estava tudo certo. Na prática, uma criança de sete anos não conseguia fazer lição de casa porque o único espaço disponível era o corredor entre os quartos, e o barulho do elevador tornava qualquer conversa quase impossível depois das 22h.
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A solução não veio de uma reforma estrutural. Chegamos a um acordo onde os pais negociaram com a administradora do condomínio a possibilidade de usar uma sala de reuniões comum dois dias por semana, fora do horário de trabalho. Isso resolveu o problema imediato da criança estudar. Depois, com ajuda de um arquiteto parceiro, reaproveitamos alguns armários embutidos que estavam subutilizados e reposicionamos os móveis de forma a criar um mínimo de privacidade entre os adultos. O custo total ficou abaixo de R$2.000. Nada disso mudaria se baseássemos a análise apenas na metragem ou nas normas técnicas.
O que as pessoas costumam deixar de lado
O erro mais comum ao pensar em habitar é focar exclusivamente na dimensão física. Você pode ter o melhor projeto arquitetônico do mundo e mesmo assim não conseguir habitar aquele espaço se a localização for incompatível com seu modo de vida. Em cidades como São Paulo ou Rio de Janeiro, um apartamento bem projetado na Zona Norte pode ser muito mais difícil de habitar do que um apartamento pior projetado na Zona Sul para quem trabalha no centro, simplesmente porque o tempo de deslocamento consome a energia que sobra para aproveitar o lar. Outro ponto que passa despercebido é a questão da manutenção. Habitar um espaço exige manutenção constante. Um imóvel mal localizado com boa infraestrutura social tende a se degradar mais lentamente porque os moradores têm menos estresse e mais tempo para cuidar dele. Já imóveis abandonados ou subutilizados pioram rapidamente porque ninguém há para fazer o acompanhamento cotidiano que sustenta a habitabilidade.
Não existe solução única. Habitar depende de contexto, de recursos, de redes de apoio. Se você tem condições de sair do próprio imóvel e usar espaços públicos bem utilizados — bibliotecas, praças, centros comunitários — isso pode compensar limitações internas. Mas essa alternativa não funciona para famílias com crianças pequenas, idosos com mobilidade reduzida ou pessoas que trabalham em home office e precisam de silêncio. Cada cenário tem seus próprios pontos de falha.