Locução prepositiva funciona como preposição, mas nem todo mundo sabe distinguir
Você já percebeu que em textos formais as pessoas costumam errar feio com certas locuções? O problema é que a gramática normativa trata isso de forma um tanto solta, e quem tem que corrigir acaba perdendo tempo decidindo se o acento grave existe ou não. Vamos direto ao ponto.
O que é locução prepositiva
Locução prepositiva é simplesmente um conjunto de duas ou mais palavras que exerce a função de uma preposição. A maioria delas termina na preposição "a" ou "de", e as mais comuns são: abaixo de, acerca de, de acordo com, adiante de, a fim de, antes de, através de, debaixo de, em frente a, gracias a, junto a, logo após, para junto de, perante, proporção a, relativamente a, sofrimento a, sobretudo de, trás de. A diferença prática entre uma locução prepositiva e uma locução adverbial é crucial e muita gente confunde. Locução adverbial substitui um advérbio ("de repente", "de vez em quando", "com certeza") e não tem função prepositiva. Já a prepositiva substitui uma preposição simples e rege complemento nominal ou pronome.
No dia a dia, quando estou revisando um texto jurídico ou um edital de concurso, o primeiro filtro que aplico é este: a expressão em questão introduce um complemento que depende de regência? Se sim, é prepositiva. Se não, é adverbial. A distinção é funcional, não apenas morfológica.
O problema real: crase com locução prepositiva
Aqui é onde as coisas ficam complicadas na prática. A regra geral diz que não se usa crase antes de locução prepositiva. O motivo é simples: a crase é a fusão da preposição "a" com o artigo "a", e se a locução já contém outra preposição no final (geralmente "de"), a regência fica comprometida. Veja exemplos concretos: "ela chegou à moda de Brasília" — incorreto. O certo é "moda de Brasília", sem crase, porque o "de" final bloqueia a fusão. O mesmo vale para "à custa de", "à procura de", "à força de". Em todos esses casos, o "de" final torna impossível o uso do acento grave.
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Contudo, existe uma exceção importante e pouco discutida: locuções prepositivas que não terminam em "de" podem, em teoria, receber crase se o termo seguinte exigir artigo definido feminino. É o caso de "em frente a" — aqui o "a" é a própria preposição da locução, não um elemento separado. Portanto, "colocou os móveis à frente da casa" está correto, porque "da" = "de + a" (artigo). A confusão surge porque muitas gramáticas tratam isso de forma inconsistente. Já ouvi de corregedores de concurso que a banca Cespe considera errado marcar crase em "à moda de" mas considera certo em "à proporção que" — mesmo que essa última seja uma locução conjuntiva, não prepositiva. A inconsistência é real e afeta milhares de candidatos anualmente.
Um caso específico que encontrei na revisão
Recentemente, revisei um contrato onde constava "à medida que os valores aumentavam". O termo "à medida que" é classificado como locução conjuntiva proporcional, não prepositiva. Alguns revisores mais apressados mantiveram a crase por analogia com "à proporção que", mas a questão não é essa. O problema real é que "medida" aqui funciona como substantivo feminino que aceita artigo, então a crase é gramaticalmente aceitável. O que me causou problema foi um colega que queria remover o acento argumentando que era "locução prepositiva" — o que é tecnicamente incorreto, pois se trata de uma locução conjuntiva. A correção final manteve a crase, mas com a justificativa certa.
Pegadinhas que ninguém conta
Uma coisa que passa despercebida: a expressão "em vez de" é uma locução prepositiva, mas nunca recebe crase, mesmo antes de substantivo feminino. "Fizemos isso em vez de pagar a conta" — correto. "Fizemos isso em vez de a conta" — soa forçado e muitos normativos rejeitam. O "de" final de "em vez de" é parte integrante da locução e não permite a fusão. Outro ponto: "perto de" também é locução prepositiva. Antes de substantivo feminino com artigo, alguns gramáticos mais tradicionais aceitam "à perto da" em registros cultos, mas isso é exceção, não regra. Na prática jornalística e corporativa, evite. Use "próximo da" ou "perto da" sem crase.
Limitações que você precisa saber
Essa classificação não é tão firme quanto parece. Diferentes gramáticos classificam a mesma expressão de maneiras distintas. "Através de" era considerado por muitos como[locução prepositiva] pura, mas a norma culta moderna tende a tratá-lo como locução adverbial quando com sentido de "por meio de". A ambiguidade persiste e não há consenso absoluto entre as referências. Se você precisa de segurança máxima para elaboração de contratos ou peças jurídicas, o recomendado é consultar a Nova Gramática do Português Contemporâneo do Celso Cunha e Cintra, ou o Dicionário de Usos do Português do Houaiss. Dicionários comuns como o Michaelis às vezes omitem essas nuances. A consulta direta a manuais de redação institucional (como o da União Européia ou do TCU) também costuma resolver dúvidas que gramáticas gerais deixam em aberto.
O essencial é que locução prepositiva existe, a crase antes dela é regra de exceção (não de prática), e o "de" final quase sempre bloqueia o acento grave. O resto é análise de contexto e regência específica de cada expressão.