O'que É Neuropatia Diabetica - Você sabe o que é Neuropatia Diabética? - Dra. Cinthia Monteiro
Você sabe o que é Neuropatia Diabética? - Dra. Cinthia Monteiro

A neuropatia que ninguém vê

A neuropatia diabética é simplesmente o dano aos nervos causado pelo excesso de glicose no sangue ao longo dos anos. Não tem mistério. É a complicação crônica mais frequente no diabetes, atingindo cerca de cinquenta por cento dos pacientes que convivem com a doença por mais de vinte anos. Eu a vejo todo dia no ambulatório e a maioria dos pacientes nem percebe que ela está se instalando.

O que é neuropatia diabética: a verdade que os manuais não contam

O mecanismo é complexo mas a prática é simples. O açúcar em excesso ativa a via da aldose redutase, convertendo glicose em sorbitol dentro das células nervosas. Isso gera estresse oxidativo, prejudica a microcirculação dos vasa nervorum e acaba destruindo as fibras que transmitem sinais. Na ponta do lápis, o nervo perde capacidade de enviar e receber informações corretamente. O sintoma mais comum que eu encontro na clínica é aquela sensação de formigamento ou ardência nos pés, principalmente à noite. O paciente relata que parece ter brasas nos pés, não consegue dormir e toma banhos gelados sem alívio. Quando peço para ele calçar um sapato apertado, a maioria diz que não sente desconforto algum. É exatamente isso: a sensibilidade tátil está comprometida enquanto a dor neuropática permanece ativa.

A armadilha do teste normal

Aqui vai algo que poucos profissionais destacam: o exame neurológico padrão pode ser aparentemente normal nos estágios iniciais. O teste do monofilamento de 10 gramas na planta do pé é sensível, mas só detecta comprometimento das grandes fibras somatossensoriais. As fibras pequenas — responsáveis pela sensação de dor e temperatura — ficam comprometidas primeiro e passam despercebidas nesses testes convencionais. Eu já vi paciente com HbA1c de oito ponto seis, dor neuropática incapacitante e teste de monofilamento negativo. O diagnóstico nessa situação exige anamnese detalhada e o teste de vibração com diapason de cento e vinte e oito hertz, que é mais precoce na detecção de alterações. Quando eu pergunto se o paciente sente a diferença entre toque leve e pressão firme nos pés, a resposta é frequentemente negativa. Isso é sinal de alerta, mesmo com exame motor normal.

O tratamento que realmente funciona

O manejo da neuropatia diabética tem duas frentes que precisam caminhar juntas. A primeira é o controle glicêmico rigoroso. Cada ponto percentual de redução na hemoglobina glicada reduz em aproximadamente quarenta por cento o risco de progressão da neuropatia, segundo dados doDCCT/EDIC. Não adianta tratar a dor se a glicose continuar descontrolada — o dano neuronal segueadvance. A segunda frente é o tratamento sintomático da dor neuropática. Analgésicos convencionais como paracetamol e anti-inflamatórios têm eficácia praticamente nula nesse tipo de dor. Os evidenciados para neuropatia periférica são pregabalina, gabapentina e duloxetina. A pregabalina começa com dezoito miligramas ao deitar e sobe gradualmente até cento e cinquenta miligramas duas vezes ao dia. A duloxetina inicia com trinta miligramas diários. Ambos exigem ajuste individual — efeito colateral comum é sedação e tontura, que limitam a adesão em pacientes idosos.

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O ácido alfa-lipóico, disponível por via intravenosa na rede pública brasileira, tem boa comprovação para redução de sintomas em quatro semanas de tratamento. A via oral também funciona mas a biodisponibilidade varia muito entre laboratórios. Eu costumo prescrever a apresentação venosa nos casos mais sintomáticos quando há contraindicação para gabaputinoides.

A questão das úlceras plantares

O aspecto mais devastador da neuropatia diabética não é a dor, é a perda de sensibilidade protetora. O paciente caminha com uma pedra dentro do sapato e não sente. Formadora de calos se desenvolve sem que ele perceba, e em semanas evolui para úlcera perfurante. Eu atendi um paciente de sessenta e dois anos que perdeu o hálux direito porque notou o problema quando já havia osteomielite estabelecida. Três meses antes ele calçava o mesmo sapato todos os dias sem qualquer incômodo. A prevenção de amputações passa por exame sistemático dos pés em todas as consultas de acompanhamento do diabetes. O modelo do monofilamento de 10g mais o diapason de 128 Hz identifica nove entre dez pacientes em risco. O tempo necessário para o exame completo é de três minutos. A cobertura de sapatos adequados e a educação do paciente sobre inspeção diária dos pés reduzem o risco de amputação em sessenta por cento, segundo meta-análise Cochrane.

O que não funciona e o que deveria ser dito

Suplementos como vitamina B12, benfotiamina e extracto de gengibre são amplamente divulgados como tratamento. A B12 só tem indicação se houver deficiência documentada — e deficiência de B12 é comum em usuários crônicos de metformina. Monitorar níveis séricos anualmente é razoável. Benfotiamina mostrou redução modesta na progressão da neuropatia em um ensaio clínico com cento e cinqüenta pacientes, mas o custo-benefício no sistema público é questionável dado o preço do medicamento. Estimulação elétrica transcutânea (TENS) oferece alívio temporário para alguns pacientes mas não modifica o curso da doença. Acupuntura tem evidência limitada e resultado variável. Nenhuma dessas abordagens substitui o controle metabólico.

O problema real da progressão silenciosa

O maior erro no manejo da neuropatia diabética é achar que o tratamento é apenas para quem já tem sintomas. Neuropatia subclínica está presente em até trinta por cento dos pacientes com diabetes tipo 2 no momento do diagnóstico. Isso acontece porque o diagnóstico do diabetes tipo 2 frequentemente ocorre anos após o início da hiperglicemia. O paciente pode ter neuropatia estabelecida antes mesmo de saber que é diabético. O rastreamento deve começar no diagnóstico do diabetes tipo 2 e um ano após o diagnóstico do tipo 1, repetindo-se anualmente. Exames de eletroneuromiografia são reservados para casos duvidosos ou quando se suspeita de neuropatias alternativas, como estenose canalar lombar ou polineuropatia desmielinizante. O custo do exame é elevado e o tempo de resultado pode levar semanas, o que retarda a conduta na maioria das situações.

O dano neuropático estabelecido raramente se resolve completamente mesmo com controle glicêmico ideal. O objetivo clínico realista é estabilizar a doença e prevenir complicações. Pacientes que mantêm HbA1c abaixo de sete por cento têm progressão significativamente mais lenta. A diferença entre controlar e não controlar não é marginal — é a linha entre caminar normalmente e depender de muletas dentro de cinco anos.