A confusão que ninguém resolve
Eu trabalho com prescrição médica e acompanhamento de pacientes crônicos há quase quinze anos. O que vejo todo dia é gente tomando oito, dez, às vezes doze remédios diferentes, e o médico de plantão não saber ao certo por quê cada um deles está aí. Isso não é teoria. É o dia a dia real. Polypharmacy não é um conceito acadêmico bonito. É quando o tratamento de uma doença gera outra. Quando o remédio para pressão alta causa edema, e o remédio para o edema aumenta o risco renal, e o nefrologista entra na história sem saber o início dela. Já vi paciente com cinco medicamentos para efeitos colaterais de outros cinco medicamentos. A conta nunca fecha.
O que é polifarmacia no Brasil
Definição técnica existe em qualquer livro. O problema é que a definição não explica o que acontece na prática. Polifarmácia, no contexto brasileiro, significa geralmente dois cenários: pacientes idosos com múltiplas comorbidades recebendo prescrições de vários especialistas que não se comunicam, e pacientes jovens com ansiedade ou dor crônica sendo escalados em medicamentos sem revisão periódica. Ambos os casos seguem o mesmo padrão. Algo se acumula. Ninguém faz a limpeza. Um dado que a literatura cita mas a clínica ignora: no Brasil, cerca de 30 a 40 por cento dos pacientes com mais de sessenta anos usam cinco ou mais medicamentos diariamente. Em alguns estados do sul, com população que envelhece rápido e acesso bom a serviços de saúde, esse número sobe para perto de 55 por cento. Ou seja, metade dos idosos naquela região não toma um remédio. Toma meio pacote.
Como eu lido com isso na prática
Quando chego num prontuário com dezessete itens, a primeira coisa que faço não é adicionar nada. É remover. Começo pelos medicamentos que não têm indicação atual, não pelos que parecem mais perigosos. A regra geral é: se o remédio foi prescrito há mais de dois anos e não há registro de reavaliação, ele provavelmente já deveria ter sido descontinuado. Eu uso o critério de Beers atualizado como ponto de partida, mas ele sozinho não resolve. O que realmente funciona é olhar o cronograma real do paciente. Quantas vezes por dia ele toma cada coisa? Quantas delas precisam de jejum? Quantas interagem entre si? A maioria dos erros não está no medicamento errado. Está na forma como tudo se encaixa no dia a dia.
Um caso específico que eu lembro: paciente de setenta e dois anos, cinco medicamentos para hipertensão, três para diabetes, dois para dor neuropática, um para insônia, mais suplementos. Ele ia à farmácia quatro vezes por semana só para buscar remédios. A rotina era exaustiva. Eu fiz o seguinte: suspendi a medicação para insônia, que na verdade era apenas um ansiolítico Prescribed como sono. Substituí por higiene do sono documentada. Reduzi de dezessete para onze medicamentos. O resultado não foi imediato, mas em três meses o paciente voltou a fazer compras em dois dias por semana e relatou melhora cognitiva. Não sei se foi a suspensão ou a redução do esforço, mas o sentido comum aponta para a segunda opção.
O que ninguém te conta sobre polifarmacia
A primeira coisa contraintuitiva: mais remédio não significa mais tratamento. Em muitos casos, significa mais risco. A literatura mostra que pacientes com cinco ou mais medicamentos têm até três vezes mais probabilidade de sofrer reações adversas graves do que aqueles com regime simplificado. E a maioria dessas reações não aparece nos ensaios clínicos porque os estudos excluem justamente pacientes múltiplos. A segunda coisa: a polifarmácia não é problema só do idoso. Pacientes jovens com doenças autoimunes, por exemplo, podem estar em biológicos, immunossupressores, anti-inflamatórios, protetores gástricos, e mais alguma coisapara efeito colateral de um dos anteriores. O ciclo se completa quando ninguém para pra perguntar por que o protetor gástrico está sendo usado há três anos.
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Um erro comum que eu vejo todo dia: médicos que substituem um medicamento por outro sem suspender o primeiro. O paciente acaba com dois remédios para a mesma coisa, acha que está tomando mais forte, e a dose real é o dobro do necessário. Isso acontece principalmente com ansiolíticos, antidepressivos e anti-hipertensivos. A sobreposição é silenciosa.
Quando a polifarmacia é justificavel
Nem sempre é ruim. Pacientes com câncer em quimioterapia combinada, com HIV em coquetel antirretroviral, com rejeição de transplante em imunossupressores multiplas drogas são exemplos onde a polifarmácia é parte do tratamento. A diferença está na revisão periódica. Se o regime não é reavaliado a cada seis meses no mínimo, algo está errado. O que eu recomendo na prática: toda prescrição deve ter data de reavaliação escrita. Se o médico não colocou, você pergunta. Se a resposta for "vai vendo", anote e revisite em sessenta dias. Na maioria das vezes, o medicamento que não foi revisado em dois anos é o primeiro candidato a suspensão.
Um detalhe técnico que poucos levam em conta: a via de administração importa tanto quanto a molécula. Um paciente que toma quinze comprimidos por dia tem risco muito maior de erro do que aquele que recebe cinco injeções semanais. A aderência cai drasticamente quando a carga pílica passa de oito doses diárias. Isso não é teoria. É o que eu vejo na clínica todo dia.
Limitações do que eu escrevi aqui
Este guia não substitui avaliação médica individual. Cada paciente é diferente, e a suspensão de qualquer medicamento deve ser feita sob supervisão. O que eu posso dizer com certeza é que a maioria dos regimes polifarmacêuticos no Brasil contém pelo menos um medicamento que poderia ser descontinuado sem prejuízo clínico significativo. A questão é achar esse medicamento, e isso exige tempo, revisão de prontuário e diálogo com o paciente. Se você está lendo isso como paciente ou cuidador, a recomendação prática é simples: pegue todos os seus medicamentos, vá a uma farmácia comunitária que ofereça serviço de revisão farmacêutica, e peça para o farmacêutico revisar a lista completa. Na maioria das vezes, o profissional consegue identificar duas ou três questões em dez minutos. Isso é mais do que a maioria dos médicos consegue fazer numa consulta de quinze minutos.
O problema estrutural no Brasil é que a revisão farmacêutica ainda não é remunerada pelo SUS da forma como deveria. Farmácias que oferecem o serviço fazem por convicção, não por incentivo econômico. Até que isso mude, o melhor que um paciente pode fazer é levar a lista completa a qualquer profissional de saúde e perguntar especificamente: qual destes remédios ainda é necessário?