Trissomia 18: o que realmente acontece quando um cromossomo extra se instala
Quando eu trabalhava no laboratório de citogenética, Recebi um caso que não seguia o padrão habitual. O karyotype veio com 47,XX,+18 – trissomia completa do cromossomo 18. A mãe tinha 34 anos, sem antecedentes familiares relevantes. O feto apresentou polidramnios e retardo de crescimento intrauterino já no segundo trimestre. Isso é clássico, mas cada caso tem suas nuances.
O que é trissomia 18 e como ela se manifesta clinicamente
A trissomia 18, também chamada de síndrome de Edwards, é uma condição cromossômica causada pela presença de uma cópia extra do cromossomo 18. Ocorre em aproximadamente 1 em cada 3.000 nascidos vivos, mas a prevalência concepcional é muito maior – muitos fetos com essa anomalia são perdidos espontaneamente no primeiro ou segundo trimestre. A razão é que a dosagem gênica desbalanceada interfere gravemente no desenvolvimento embrionário precoce. Os sinais mais frequentes incluem micrognatia, posição característica das mãos (punho fechado com dedos sobrepostos), malformações cardíacas congênitas – comunmente defeito do septo ventricular ou persistent – e retardamento do crescimento. Renúarias são outro achado comum, assim como onfalocele ou hérnia umbilical. A maioria dos pacientes apresenta hipotonia marcada nos primeiros meses de vida.
Diagnóstico pré-natal: técnicas e limitações
O rastreamento no primeiro trimestre combina marcadores séricos (PAPP-A reduzido, -hCG elevado) com translucência nucal aumentada. A sensibilidade do combined test isolado é de cerca de 85% para trissomia 18, mas isso varia conforme a idade gestacional e a qualidade do equipamento de ultrassonografia. Quando o rastreamento é positivo, o diagnóstico confirmatório exige amostra de vilo corial, amniocentese ou, mais recentemente, teste de DNA fetal livre circulante (NIPT). O NIPT para trissomia 18 tem especificidade superior a 99% e sensibilidade em torno de 97%, segundo estudos multicêntricos. Porém, há limitações importantes. Em gestações múltiplas, a interpretação é mais complexa. Baixo fração de DNA fetal no plasma materno (
4%) gera resultados inconclusivos – frequência de 2-3% dos casos. Além disso, o NIPT é um teste de rastreamento, não de diagnóstico. Qualquer resultado positivo deve ser confirmado por procedimento invasivo com análise citogenética convencional ou microarray cromossômico.
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Em meu experiência, já vi casos onde o NIPT sugeriu trissomia 18 mosaic, mas o karyotype do líquido amniótico mostrou mosaicismo apenas em linhagem extra-embrionária – tecido placentário com 47,XX,+18 e feto com cariótipo normal 46,XX. Esse fenômeno, chamado de LOCU (limitação da confusão uni", resulta em resultado fenotípico normal para a criança. É um lembrete de que a placenta nem sempre reflete a constituição genética fetal.
Manejo e prognóstico: dados honestos
A sobrevida média após o nascimento é de 5 a 15 dias. Cerca de 5-10% dos pacientes sobrevivem além do primeiro ano de vida, e menos de 1% chegam à adolescência. Fatores prognósticos favoráveis incluem trissomia mosaic (quando presente apenas em subpopulação celular), ausência de malformações cardíacas complexas, e peso de nascimento adequado. Por outro lado, cardiopatia congênita estrutural grave, insuficiência respiratória primária, e dificuldade alimentar severa pioram significativamente o desfecho. Não existe tratamento curativo para a trissomia 18 em si. O manejo é de suporte: correção cirúrgica de cardiopatias quando viável, nutrição enteral via gastrostomia, controle de infecções recorrentes, e acompanhamento multidisciplinar. Decisões sobre intervenções cirúrgicas devem ser tomadas caso a caso, considerando a gravidade da malformação e a expectativa de qualidade de vida.
Um aspecto frequentemente subestimado é o impacto psicológico nas famílias. Pais de crianças com trissomia 18 sobrevissoras enfrentam decisões difíceis sobre limites de cuidado, hospitalizações repetidas, e planejamento familiar futuro. Aconselhamento genético pós-diagnóstico é essencial – risco de recorrência para trissomia 18 nondisjunction é de aproximadamente 1% acima do risco basal por idade materna. Para trissomia 18 por translocação balanceada parental, o risco pode atingir 5-15% dependendo do tipo de rearranjo. O conselho genético pré-natal deve incluir discussão honesta sobre incerteza diagnóstica, variabilidade fenotípica, e opções reais de manejo. Nem todo profissional está preparado para essas conversas – muitas vezes o foco recai excessivamente sobre aspectos técnicos, negligenciando o componente humano. Recomendo que famílias busquem suporte especializado em genetic counseling,preferencialmente com profissionais que tenham experiência prévia com casos de trissomia 18.