Sobre o movimento de Zurique que tentou destruir a arte
Você provavelmente já viu aquelas colagens aleatórias com recortes de jornal e fotos arranjadas de forma estranha nos livros de história da arte. Isso é dadaísmo, ou pelo menos parte dele. O movimento começou em 1916, no Cabaret Voltaire, em Zurique, num prédio que hoje nem existe mais. Vários artistas e escritores fugidos da Primeira Guerra Mundial se reuniram ali para fazer o que eles chamavam de antiarte. Não era sobre criar algo bonito. Era sobre questionar se alguma daquilo fazia sentido depois de três anos de trincheiras e bombardeios.
o que foi o dadaismo e por que ele não funciona como você pensa
A definição rápida diz que foi um movimento artístico e literário que rejeitou a lógica e a razão em favor do absurdo e da espontaneidade. Isso está certo mas é superficial. O que acontece na prática é bem diferente. Eles não estavam simplesmente sendo malucos por diversão. Eles estavam testando uma hipótese muito específica: se a arte tradicional e a cultura que a sustentava levaram à guerra, então a única resposta honesta seria destruir os próprios fundamentos dessa arte. Marcel Duchamp, que muitos consideram o nome mais importante do movimento, comprou um mictório numa loja de acessórios sanitários, assinou com um pseudônimo francês e o enviou para uma exposição da Society of Independent Artists em Nova York em 1917. A obra se chamava Fontaine. O comitê aceitou a obra porque a sociedade dizia que aceitava tudo que fosse enviado, mas quase todos os membros ficaram furiosos. Esse foi o golpe inicial mais efectivo do movimento. Não foi a obra que chocou. Foi o fato de alguém ter forçado o sistema a se contradizer publicamente.
O problema que quase todo mundo não entende sobre o dadaísmo é que ele não tinha um método. Isso parece óbvio agora mas foi exactamente o ponto. Trisha Ziff documentou isso bem nos seus arquivos sobre Hannah Höch, que era uma das poucas mulheres com presença significativa. Höch usava a técnica do photomontage, que na época era algo novo e ainda mal compreendido. O que ela fazia de diferente era pegar imagens de revistas masculinas sobre política e indústria e recortá-las de forma que os corpos femininos aparecessem como peças mecânicas. Isso era proposital. Ela estava usando a linguagem visual do dadaísmo para criticar exactamente o que o movimento masculino ignorava. Eu tive um problema específico ao catalogar e analisar fotomontagens dadaístas para um projeto interno. A maioria dos acervos museológicos classifica essas obras apenas pelo estilo visual, agrupando Höch com Hans Arp e Raoul Hausmann como se fossem a mesma coisa. Isso está errado. Hausmann e Höch tinham intenções completamente distintas. Hausmann fazia collages sobre a fragmentação da identidade urbana pós-guerra. Höch fazia collages sobre o gênero e o poder. Quando você não separa isso, qualquer análise que fizer fica distorcida. A solução foi cruzar as datas de exposição com os textos programáticos que cada artista escreveu. Os textos de Höch sobre feminismo aparecem claramente entre 1920 e 1933, enquanto Hausmann estava escrevendo sobre fonetikgedicht, poesia puramente sonora. São linguagens diferentes usando a mesma técnica.
Outra coisa que os livros não mostram direito é que o dadaísmo teve um prazo de validade curto. O movimento começou a se dissolver por volta de 1924, quando os próprios participantes entenderam que o absurdo constante não era sustentável como posição artística permanente. Tristan Tzara, que era romeno e tinha um papel central na difusão das ideias dadá, acabou se mudando para Paris e colaborando com os surrealistas. Isso não foi uma traidção. Foi uma evolução natural. Quando você passa seis anos destruindo todas as regras, eventualmente precisa construir algo novo com os cacos. Man Ray fez algo semelhante. Ele era americano mas viveu em Paris e tornou-se conhecido pelos rayogramas, que eram fotos feitas sem câmera, colocando objetos directamente sobre o papel sensível à luz e expondo ao claro. O resultado visual parecia dadaísta mas a técnica era pura experimentação científica aplicada à fotografia. Isso ilustra um padrão recorrente no movimento: a performance pública era sobre caos mas o trabalho prático exigia precisão técnica extrema.
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Se você quer entender como isso funcionava no dia a dia, a coisa mais próxima seria assistir aos soirées do Cabaret Voltaire. Eles faziam poemas simultâneos onde múltiplas pessoas liam textos diferentes ao mesmo tempo. Faziam ruídos com objetos domésticos. Colavam papéis sem nenhum critério aparente. A impressão que fica é de anarquia mas há uma estrutura interna muito rígida. Cada escolha, mesmo as que parecem aleatórias, era deliberada. O conceito de acaso operatório era fundamental aqui. Eles não abandonavam o controle. Eles transferiam o controle para variáveis externas como o acaso, a colisão de materiais incompatíveis, a provocação calculada. Um detalhe importante sobre a cronologia que as pessoas frequentemente confundem. O dadoísmo berlinense tinha um perfil político completamente diferente do dadoísmo de Zurique. Enquanto os zuriqueses eram basicamente refugiados neutros da Suíça, os berlinenses como George Grosz e John Heartfield eram diretamente confrontados com a ascensão do nacionalismo alemão. Heartfield inventou o termo fotomontagem política e usava a técnica para criar capas de revista e pôsteres que atacavam o partido nazista directamente. Isso não era antiarte. Era propaganda de esquerda com estética dadá. Misturar esses dois contextos gera muita confusão.
O legado do movimento é fácil de exagerar mas também fácil de subestimar. A influência directa do dadá terminou por volta de 1924-1925. O que permaneceu foram ferramentas. A colagem, o readymade, a performance conceptual, a ideia de que o contexto importa mais que o objeto em si. Todas essas coisas foram absorvidas pelo surrealismo, pela arte concreta, pelo fluxyus nos anos 1960, e eventualmente pela prática artística contemporânea padrão. Quando um artista contemporâneo coloca um objeto banal numa galeria e espera que o público questiona o que é arte, essa linha directa remete ao dadá de 1917, não a qualquer outra coisa. Se você está estudando isso para algum trabalho ou projeto, o erro mais comum é tratar o dadá como um estilo visual. Não é. É uma posição crítica que se manifesta de formas muito diferentes dependendo do contexto geográfico e político. Os materiais primários para pesquisa são os manifestos originais publicados em revistas como Dada, Simultané, e 391. As edições fac-símile estão disponíveis em bibliotecas universitárias e alguns arquivos digitais como o DAAD Arts Directory e o acervo do Museu Centro de Arte Moderna. Evite resumos de terceira mão porque eles tendem a homogeneizar as diferenças entre os grupos de Zurique, Colónia, Berlim e Nova York como se fossem um único movimento coeso.