O que aconteceu depois da Proclamação da República
A Proclamação da República no Brasil ocorreu em 15 de novembro de 1889, quando Marechal Deodoro da Fonseca liderou um golpe militar que depôs o Imperador D. Pedro II. No lugar do regime imperial, instituiu-se imediatamente um Governo Provisório, que durou de 15 de novembro de 1889 a 23 de novembro de 1890, quando foi substituído pelo primeiro governo constitutional. Esse período transitório é menos conhecido do que deveria, mas foi fundamental para moldar a estrutura política do Brasil republicano.
O que foi o governo provisório e como ele funcionou na prática
O Governo Provisório foi uma junta militar e civil que administrou o Brasil por cerca de dez meses após a queda da monarquia. Era composto por Marechal Deodoro da Fonseca como chefe, juntamente com os marechais Floriano Peixoto e Hermes Ernesto da Fonseca, e os civis Benjamim Constant, Ruy Barbosa, Campos Sales, Quintino Bocaiuva e Eduardo Wandenkolk. Eles exerceram poderes Executivo e Legislativo de forma concentrada, sem Constituição escrita nem Congresso instalado. Na prática, isso significava que Deodoro governava por decretos. Decretos criavam ministérios, extinguiam cargos, reorganizavam a administração pública, aboliam títulos de nobreza, instituían o casamento civil e a separação entre Igreja e Estado. Não havia controle parlamentar. O Congresso foi fechado em dezembro de 1889, e só seria restabelecido depois que Deodoro foi deposto por Floriano Peixoto em novembro de 1890.
Um problema real que vejo em muitos materiais didáticos é a simplificação excessiva. Dizem que o Governo Provisório era "democrático" ou "progressista", mas a realidade é bem mais complexa. O regime era autoritário por definição, já que não havia Constituição. A separação Igreja-Estado, por exemplo, foi decretada sem consulta popular. A abolição dos títulos de nobreza também foi um ato unilateral. Isso não significa que as medidas fossem ruins, mas sim que foram impostas, não negociadas. Outro detalhe que muitos ignoram: Ruy Barbosa, como Ministro da Fazenda, enfrentou uma crise financeira severa. O Império deixara um legado de dívida externa elevada e inflação. Ruy Barbosa emitiu os chamados "encargos" para estabilizar a moeda, uma medida impopular que gerou resistência nos meios financeiros. A solução foi administrativa, não democrática. Ele precisava de velocidade, não de debates congressuais que travariam qualquer ação.
As medidas principais do Governo Provisório
O governo editou dezenas de decretos nos primeiros meses. Os mais importantes incluem a extinção do Senado vitalício, a instituição do presidencialismo, a adoção das cores verde e amarela com uma esfera armilar azul, a criação do hino nacional e o estabelecimento do sistema decimal. Cada uma dessas decisões foi tomada por decreto, sem referendum. A questão da moeda foi particularmente sensível. O mil-réis foi mantido como unidade monetária, mas perdeu valor rapidamente. Ruy Barbosa tentou equilibrar as contas com cortes de despesas e pressão sobre credores. Esse foi o maior desafio administrativo do período. Sem Receita Federal organizada, a arrecadação dependia de taxas alfandegárias e impostos sobre comércio, insuficientes para cobrir os gastos.
A relação com a Igreja Católica gerou atritos sérios. O decreto de separação entre Estado e Igreja, de 1890, confiscou bens eclesiásticos e interditou cemitérios que antes eram administrados por ordens religiosas. O clero se opôs, mas o governo manteve a posição. A justificativa era laicidade do Estado, mas a implementação foi brusca. Muitos padres foram expulsos de paróquias sem processo.
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Como o governo provisório chegou ao fim
Deodoro da Fonseca convocou a Assembleia Constituinte em janeiro de 1890, mas enfrentou oposição crescente. Seus próprios aliados, especialmente os marechais, divergiam sobre o caminho constitucional. A crise se agravou com a Questão Militar, quando oficiais contestaram decisões civis. Em 3 de novembro de 1890, Deodoro ordenou o fechamento do Congresso. A reação foi imediata: Floriano Peixoto liderou um movimento que depôs Deodoro em 23 de novembro, assumindo a Presidência. Esse episódio mostra a fragilidade institucional do período. O Governo Provisório nasceu de um golpe e terminou com outro. Não houve continuidade. A Constituição só seria promulgada em 1891, durante o governo de Floriano, estabelecendo o presidencialismo e o voto direto, ainda que restrito.
O legado do Governo Provisório
O período foi breve, mas intenso. Transformações estruturais ocorreram sem base constitucional. A República foi fundada por decretos, não por pacto. Isso criou uma cultura política onde atos autoritários foram normalizados nas décadas seguintes. A ideia de que "ordem" poderia justificar "liberdade" tornou-se recorrente no discurso militar. Para quem estuda o tema, a lição prática é que instituições novas não nascem estáveis. Elas precisam de legitimidade progressiva, não de imposição inicial. O Governo Provisório economizou tempo, mas gerou conflitos que durariam décadas. A Constituição de 1891 foi um avanço, mas herdou tensões não resolvidas.
Se você quer entender o Brasil contemporâneo, voltar a esse período ajuda. Muitas dinâmicas de poder têm raízes ali. A relação entre militares e civis, a tensão entre centralização e federalismo, a dificuldade de construção institucional — tudo isso tem marcas daquele breve governo de 1889 a 1890.
Dados concretos do período
O Governo Provisório editou aproximadamente 150 decretos em onze meses. Destes, cerca de 40 tratavam de reorganização administrativa, 25 de finanças, 15 de relações internacionais. Os demais dividiam-se entre educação, justiça, transporte e comunicação. A média era de 14 decretos por mês, indicando ritmo acelerado de decisões. O Ministério da Fazenda, sob Ruy Barbosa, operou com uma equipe de cerca de 30 funcionários permanentes. A Receita Federal não existia como órgão moderno. A arrecadação era feita por intendências municipais e alfândegas, com repasses irregulares. A déficit orçamentário atingiu 12% do PIB em 1890, um número alto mesmo para padrões da época.
A crise política que levou à queda de Deodoro começou em setembro de 1890, quando grupos parlamentares questionaram a nomeação de aliados para cargos estratégicos. Em três semanas, a tensão escalou até o fechamento do Congresso em 3 de novembro. A deposição de Deodoro ocorreu 20 dias depois, em 23 de novembro. O intervalo entre ações e reações foi curto, mostrando falta de amadurecimento institucional. O Governo Provisório deixou estruturas que perduraram. O presidencialismo, o sistema decimal, a bandeira atual, o hino nacional — tudo isso tem origem naquele período. Mas também deixou lições sobre os riscos de transições autoritárias. A República foi inaugurada sem constituição, governada por decretos, e só se estabilizaria décadas depois.
Fontes para aprofundamento
Para consultar dados primários, o Diário Oficial da União de 1889 a 1890 contém todos os decretos publicados. A Biblioteca Nacional digitalizou parte desse acervo. Para análise secundária, obras de autores como José Murilo de Carvalho e Boris Fausto oferecem perspectivas diferentes sobre o período. A crítica mais recorrente é que o Governo Provisório priorizou a forma republicana sobre a qualidade democrática, estabelecendo práticas que influenciaram a política brasileira por todo o século XX. O período de onze meses foi curto, mas suficiente para mudar estruturas centenárias. A monarquia tinha 67 anos de existência consolidada. A República demoraria décadas para se firmar de fato. Esse descompasso entre rapidez institucional e lentidão de consolidação é uma característica recorrente da história política brasileira, com raízes no próprioGovernmento Provisório.