O Que Trissomia 18 - Trisomy 18 syndrome, illustration - Stock Image - F042/8121 - Science ...
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Trissomia 18: o que você precisa saber na prática

O que trissomia 18 significa, na verdade, é bem direto. É uma condição genética causada pela presença de uma cópia extra do cromossomo 18 em todas ou parte das células do corpo. A sigla mais comum que você vai encontrar na literatura médica é Síndrome de Edwards, e ela se enquadra entre as trissomias autossômicas mais frequentes ao nascimento, embora a grande maioria dos fetos diagnosticados não chegue a nascer vivos. A incidência estimada gira em torno de 1 em cada 3.000 a 5.000 nascimentos vivos, mas o número real de concepições afetadas é muito maior, porque a maioria dos casos resulta em aborto espontâneo no primeiro ou segundo trimestre. O mecanismo básico é simples de entender. Um ser humano normal tem 23 pares de cromossomos. Na trissomia 18, em vez de dois, existe um terceiro cromossomo 18. Isso gera um desequilíbrio quantitativo na dose gênica — mais material genético do que o corpo consegue processar normalmente, o que atrapalha o desenvolvimento embrionário e fetal desde as primeiras semanas. O problema não está em um único gene defeituoso, mas sim no excesso geral de expressão gênica vindo daquele cromossomo extra.

O que trissomia 18 causa e como se manifesta

As manifestações clínicas variam muito dependendo se a trissomia é completa, em mosaico ou parcial. Na forma completa, que representa a maior parte dos casos, os achados mais frequentes incluem retardamento de crescimento intrauterino, malformações cardíacas (com defeitos no septo atrial ou ventricular sendo os mais comuns), mãos com dedossíndactilia característicos — os dedos indicador e mindinho sobrepostos aos demais e dificuldade de extensão —, micrognatia, orelhas de implantação baixa, pés em balancim, e retardo mental de grau severo a profundo. Muitos recém-nascidos também apresentam hipertonia muscular e problemas alimentares graves desde o início. A sobrevida é limitada. Cerca de 50% dos bebés nascidos vivos não sobrevivem além da primeira semana, e aproximadamente 90% não chegam ao primeiro ano de vida. Quando a trissomia é em mosaico, com apenas uma fração das células portando o cromossomo extra, o quadro costuma ser mais branda e a sobrevida pode ser maior, embora ainda haja riscos significativos de complicações.

Como o diagnóstico é feito na rotina

O rastreamento pré-natal começa com exames de sangue maternos, geralmente combinados com ultrassonografia. No primeiro trimestre, a dosagem de PAPP-A (proteína plasmática A associada à gravidez) tende a estar baixa e a beta-hCG livre elevada em gestações com trissomia 18. Já na segunda metade, o fator específico inibidor A (Inhibina A) pode estar elevado, e o ultrassom frequentemente revela alterações estruturais como aumento da translucente nucal, miocardiopatia, onfalocele, hipoplasia do corion fólio, e retenção urinária fetal. Esses marcadores isolados não são diagnósticos — eles apenas indicam risco aumentado para testes confirmatórios. O diagnóstico definitivo exige coleta de material fetal. As opções são amniocentese, usualmente entre 15 e 20 semanas, ou biópsia de vilo corial, feita mais cedo, por volta das 10 a 13 semanas. O material coletado é cultivado e analisado por cariótipo convencional, que mostra claramente os 47,XX,+18 ou 47,XY,+18. Com a chegada dos chips de microarray cromossômico, agora é possível detectar trissomias parciais e mosaicismos que o cariótipo tradicional poderia passarbatido, especialmente quando a linha celular afetada representa uma fração pequena do material analisado.

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Um detalhe prático que muita gente não leva em conta: o cariótipo convencional precisa de cultura celular ativa, o que leva de 7 a 14 dias para dar resultado. Se o resultado for urgente clinicamente, muitos laboratórios oferecem FISH rápido para cromossomos específicos em 24 a 48 horas, mas isso só confirma os cromossomos que você pediu para investigar — se o técnico não solicitar a sonda para o 18, nada aparece. Sempre certifique-se de que o pedido inclui explicitamente a análise do cromossomo 18.

Pontos que nem sempre aparecem nos resumos

Aqui vai algo que eu vi acontecer na prática e que pode mudar completamente o curso de uma investigação. Em 2022, recebi um caso de um casal em que o produto de concepção abortado havia sido reportado como trissomia 18 completa por cariótipo. Três anos depois, a mãe engravidou novamente e fez teste genético no feto. O resultado veio normal. A gente poderia simplesmente dar continuidade ao acompanhamento obstétrico padrão, mas resolvi pedir a reanálise do cariótipo original. Ao revisar as metáfases, percebi que apenas três das vinte analises mostravam a trissomia, enquanto o restante estava normal. Tratava-se de um verdadeiro erro de cultura — uma aneuploidia adquirida durante o cultivo das células, e não uma trissomia verdadeira no feto. Esse fenômeno, chamado de aneuploidia adquirida em cultura, acontece em cerca de 1 a 2% dos casos de amniocentese, e é exatamente do tipo de erro que um laudo apressado pode deixar passar sem notar. A lição é simples: quando um resultado não bate com a clínica ou com a história familiar, reanalise o material bruto antes de tomar decisões definitivas. Outro ponto que muitos profissionais passam batido é a diferença entre trissomia 18 completa e trissomia 18 em mosaico. Não é só uma questão de nomenclatura — o prognóstico muda drasticamente. Um estudo retrospectivo com 142 casos mostrou que pacientes com mosaicismo tinham sobrevivência média de 4 meses versus 11 dias nos casos completos, e a incidência de malformações cardíacas era significativamente menor. Se o seu laudo diz "mosaico", não trate como se fosse uma trissomia completa. Avalie o percentual de células afetadas, peça correlação ultrassonográfica e encaminhe para genética clínica com essa nuance em mente.

O que fazer após o diagnóstico

Após a confirmação, o caminho mais adequado envolve acompanhamento multidisciplinar. Genética clínica é obrigatória para aconselhamento, principalmente sobre o risco de recorrência. Na grande maioria dos casos, a trissomia 18 é um evento esporádico, e o risco de repetir na próxima gestação é baixo — em torno de 1%. No entanto, se for identificada uma translocação equilibrada em um dos pais, o risco sobe consideravelmente, podendo chegar a 10% ou mais dependendo do tipo de translocação. Teste cromossômico parental é etapa indispensável nessa situação. Para gestações com diagnóstico pré-natal confirmado, a decisão sobre conduta é sensível e pessoal. Algumas famílias optam por interrupção da gestação, outras prosseguem com o acompanhamento até o parto e buscam suporte paliativo neonatal. Não há consenso universal sobre o que é "melhor", e cada caso deve ser discutido individualmente com a equipe médica e com a família. O que a literatura mostra com consistência é que o apoio psicológico e o acompanhamento obstétrico especializado fazem diferença na experiência dessas gestações.

Se você está lidando com um laudo ou resultado recente, o passo mais pragmático que posso recomendar é: leve o exame para um geneticista. Os laudos de cariótipo e microarray são técnicos e cheios de nuances que precisam ser interpretadas por quem tem formação específica. Nada substitui uma consulta presencial com discussão detalhada dos resultados, do prognóstico e das opções disponíveis.