As obras de Nicolau Maquiavel que realmente valem a pena ler
A maioria das pessoas acha que conhece Maquiavel pelo sobrenome que virou sinônimo de manipulação política. A realidade é bem mais chata e interessante ao mesmo tempo. Ele escreveu tratados práticos, diálogos filosóficos e uma comédia engraçada que quase ninguém menciona. Se você quer entender o que ele realmente disse, precisa ir além dos resumos de escola.
Obras de Nicolau Maquiavel: o que existe e onde encontrar
O corpo principal dele se divide em três categorias. A política propriamente dita, os escritos históricos e literários, e as cartas, que são subestimadas mas essenciais. As obras de nicolau maquiavel mais citadas são O Príncipe e Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, mas pular o resto é perder metade da coisa. O Príncipe — escrito em 1513, publicado postumamente em 1532. É um ensaio curto, cerca de 140 páginas em edições padrão, sobre como adquirir e manter o poder. Não é um manual de maldade. É um manual de estratégia política escrito por alguém que estava desempregado e tentando conseguir um emprego de volta em Florença. A diferença entre ler o livro e ler um resumo é abismal. O contexto histórico dentro de cada capítulo muda completamente a leitura.
Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio — também de 1513, mas publicado só em 1531. É o oposto complementar de O Príncipe. Aqui ele defende repúblicas, cidadania ativa e equilíbrio de poderes. Muitos leitores ficam confusos porque parecem contraditórios. Não são. O Príncipe fala de momentos de crise extrema. Os Discursos falam de governança ordinária. Ele via as duas coisas como necessárias em tempos diferentes. A Arte da Guerra — 1521. Um diálogo em sete livros sobre estratégia militar. Parece desconectado dos outros textos até você perceber que a lógica é a mesma: organização, disciplina e adaptação prática. Foi a única obra dele publicada em vida. Interessante que foi justamente a menos-política das três.
Madama Bottiglia (A Mandrágora) — comédia escrita por volta de 1518. Uma história de adultério disfarçada de farça. Parece estranho encontrar Maquiavel escrevendo comédia, mas ela revela algo importante sobre como ele via a natureza humana. As pessoas fazem o que podem fazer, não o que deveriam fazer. A peça é inteligente e engraçada. Diálogo sobre a língua italiana — tratado linguístico pouco conhecido. Ele defendia o uso do toscano como língua literária. Soa técnico, mas mostra um lado dele que raramente aparece: o interesse pela cultura e identidade.
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O problema de encontrar edições confiáveis em português é grande. Traduções antiquadas distorcem termos-chave como virtù e fortuna. O termo virtù não significa virtude moral no sentido cristão. Significa capacidade de ação, habilidade política, a qualidade de quem age efetivamente. Já fortuna não é destino ou sorte no sentido fatalista. É a contingência, o imprevisível, aquilo que você precisa negociar. Eu já vi gente levar décadas acreditando que Maquiavel desprezava a moral porque confundia virtù com virtude religiosa. Isso altera completamente a interpretação de passagens inteiras. Um exemplo concreto: quando ele diz que um príncipe deve saber "não ser bom", não está aconselhando maldade. Está dizendo que a política opera num registro diferente da ética pessoal. Misturar os dois é o que causa fracasso, não o contrário.
Para edições em português, a tradução de João Cruz Costa de O Príncipe (Editora 34 ou Nova Fronteira) é sólida. Para os Discursos, a tradução de Maria Adelaide Novais Duerst (Unicamp) é referência. A Arte da Guerra tem boa versão da Martin Claret. Nada disso é perfeito, mas são o mínimo aceitável. Um detalhe que começoantes sempre perdem: Maquiavel não sistematizou nada. Ele escrevia de forma fragmentada, às vezes se contradizendo entre obras diferentes. Tentar construir um "pensamento maquiaveliano" coeso é um exercício fadado ao fracasso. Ele era um observador pragmático, não um filósofo de sistema. Leia cada texto pelo que ele é, não pelo que você espera que seja.
Outro ponto prático. A maior parte dos textos dele está disponível gratuitamente em domínio público no Brasil. O Projeto Domínio Público e a Biblioteca Digital da USP têm versões completas. Você não precisa comprar nenhuma edição para começar. Eu recomendo usar as versões gratuitas primeiro e só depois investir em edições comentadas quando quiser aprofundar. O que menos se fala sobre as obras de nicolau maquiavel é a relevância delas fora da ciência política. A Mandrágora é estudada em cursos de literatura. A Arte da Guerra aparece em departamentos de estratégia militar. Os Discursos são lidos por teóricos republicanos contemporâneos. Ele não cabe numa única caixa. Forçar isso é empobrecer a leitura.
Se você quer um caminho prático para começar, leia O Príncipe primeiro na tradução do Cruz Costa, depois os Discursos na tradução da Duerst, e por último a Mandrágora. A ordem importa porque muda a forma como você lê cada um. Começar pelos Discursos deixa O Príncipe mais chocante do que ele realmente é. A sequência inversa funciona melhor. Uma observação final que poucos fazem: Maquiavel escreveu para um contexto específico de guerras italianas, conflitos entre estados e a perda de independência florentina. Aplicar suas ideias diretamente a realidades políticas completamente diferentes sem adaptação é erro comum. Ele mesmo advertia contra isso implícitamente ao variar entre conselhos para príncipes, para repúblicas e para cidadãos comuns. O contexto nunca é neutro.