Obras Do Barroco Brasileiro - Aleijadinho: Vida e Obra do Artista Barroco Brasileiro - Escola de Lucifer
Aleijadinho: Vida e Obra do Artista Barroco Brasileiro - Escola de Lucifer

Preservando e estudando o barroco brasileiro na prática

Quando você entra numa igreja colonial de Minas Gerais e vê um retábulo dourado com quase trezentos anos, a primeira coisa que percebe não é a beleza, mas o estado de degradação. A folha de ouro está descascando em vários pontos, o madeira em baixo tá atacada por carunchos e às vezes tem infiltração que escorre pelas imagens sacras. Isso é o cotidiano de quem trabalha com conservação de obras do barroco brasileiro — não é só admiração, é um problema técnico constante. Uma coisa que muita gente não sabe é que o barroco brasileiro não segue exatamente os padrões europeus. Os mestres mineiros, como Aleijadinho e Mestre Ataíde, adaptaram as técnicas importadas aos materiais disponíveis localmente. O ouro das folhas vinha do Peru ou de Portugal, mas o madeira veio de árvores nativas, o que cria diferenças térmicas na expansão que não existem nos retábulos portugueses. Eu já perdi uma peça boa porque não considerei essa dilatação diferencial durante uma restauração em Ouro Preto.

Obras do barroco brasileiro: catálogo e documentação

O problema de iniciar um projeto de catalogação é que a dispersão geográfica é enorme. Temos obras desde a Bahia até o Rio Grande do Sul, espalhadas em igrejas, museus e acervos particulares. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) mantém um cadastro, mas ele ainda não cobre tudo. Para obras menores ou de propriedades privadas, muitas vezes você precisa bater porta em porta, tirar fotos com luz natural e registrar dimensões com trena, não com scanner 3D, porque o equipamento muitas vezes não cabe nos espaços estreitos das sacristias. Uma técnica que funciona bem é criar fichas padronizadas com dados específicos: data provável (estilo arquitetônico ajuda a refinar), técnica mista (muitas obras têm escultura em madeira, policromia, douração e talha em uma única peça), procedência (se foi encomendada pelo padre ou pela irmandade local), e intervenções anteriores. Anos atrás eu trabalhei numa igreja de Congonhas e descobri que o altorrelevo que todos achavam ser original tinha sido completamente reffeito em 1952 com gesso, porque o original em pedra-sabão estava irreparavelmente danificado pela chuva ácida.

Materiais e técnicas específicas

O barroco brasileiro usa três materiais principais: madeira de lei (cedro, jacarandá, peroba), revestimento em gesso para correções e preparações, e folha de ouro para douração. A técnica de douração a fogo, trazida dos portugueses, era o padrão nas capelas mais ricas. Já a polícroma, com tintas a óleo sobre madeira, era mais comum em imagens isoladas e retábulos de vilas menores. Um detalhe técnico importante é que o gesso usado como base para a douração frequentemente contém cola de origem animal, que com o tempo perde elasticidade. Quando isso acontece, a folha de ouro se solta formando bolhas que parecem pequenas ilhas amareladas na superfície. O tratamento convencional seria remover a folha, renovar o gesso e aplicar nova preparação, mas isso consome cerca de quarenta horas de trabalho por metro quadrado, o que rapidamente torna o orçamento inviável para pequenas paróquias.

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Eu encontrei uma solução alternativa trabalhando na restauração da Igreja de São Francisco de Assis em São João del Rei. Em vez de remover toda a folha solta, apliquei uma resina acrílica de baixo pH com pincel, deixando penetrar por capilaridade entre a folha e o substrato. Isso estabilizou cerca de sessenta por cento da superfície sem necessidade de remoção total. O resultado não é reversível no sentido estrito da terminologia conservacionista, mas preservou um patrimônio que provavelmente seria perdido por falta de verba.

Autenticação e datação

Datar obras do barroco brasileiro com precisão é um dos maiores desafios da área. Estilo visual ajuda, mas muitos mestres trabalharam em regiões diferentes e suas marcas individuais podem variar. Dendrocronologia, o método mais confiável, exige amostras da madeira do esqueleto estrutural, o que significa fazer perfurações em pontos visíveis. Para imagens sacras, onde a integridade estética é primordial, muitos restauradores recusam esse método. Uma alternativa prática é comparar a técnica de douração com peças datadas de acervos já consolidados. O Iphan tem fotografias em alta resolução de peças da Coleção de Arte Sacra que servem como referência. Eu costumava cruzar dados de espessura da folha, padrão de martelagem e tipo de preparação com esses acervos. Isso não dá datação absoluta, mas reduz a margem de erro para décadas em vez de séculos.

Desafios contemporâneos

O maior problema hoje é a falta de mão de obra especializada. Os mestres entalhadores e douradores que aprenderam as técnicas tradicionais estão envelhecendo e não há programas estruturados de transmissão de saber. Universidades oferecem disciplinas de conservação, mas a prática específica do barroco mineiro ou baiano muitas vezes fica de fora do currículo. Eu já vi jovens restauradores formados aplicarem vernizes sintéticos em retábulos setecentistas sem perceber que estavam selando a madeira e acelerando o apodrecimento interno. Também existe a pressão do turismo. Igrejas como a de Bonfim em Tiradentes recebem milhares de visitantes por ano, e a umidade relativa do ar gerada pela respiração e suor altera o equilíbrio higroscópico das peças. Em alguns casos, a instalação de climatização foi a solução, mas o custo de manutenção supera o orçamento anual de muitas paróquias. Onde não há ar-condicionado, o controle é apenas comportamental: señalização, rodízio de acesso e horários restritos.

Recursos para consulta

Para quem quer pesquisar obras do barroco brasileiro, o site do Iphan tem o Cadastro Nacional de Bens Culturais, que pode ser filtrado por estado e tipologia. A Fundação de Arte de Ouro Preto também disponibiliza catálogos digitalizados de acervos. Existe ainda o livro "Barroco Brasileiro", organizado por Lívio Xavier, que reúne ensaios sobre técnicas e regionalismos, embora alguns dados estejam desatualizados em relação às descobertas mais recentes de conservação. Se você estiver no eixo histórico de Minas Gerais, vale a pena contactar diretamente as paróquias. Muitos párocos aceitam visitas de pesquisadores e estudantes, desde que haja proposta formal e respeito aos horários de culto. Algumas comunidades até disponibilizam guias locais que conhecem a história oral de cada obra, algo que não aparece em nenhum catálogo impresso.