Óleo de coco e a questão da saúde cardiovascular
A resposta curta é que sim, o óleo de coco pode fazer mal para a saúde, especialmente se você consumir em grandes quantidades com frequência. Não é uma bala mágica como muitos vendem nas redes sociais, e a literatura científica mais recente é bem clara sobre isso. O problema principal é o teor de gordura saturada. O óleo de coco contém cerca de 82 a 90 por cento de gordura saturada. Para você ter uma noção, a manteiga tem cerca de 63 por cento e a gordura de porco, 40 por cento. O conselho americano de cardiologia e a Organização Mundial da Saúde recomendam limitar a gordura saturada a menos de 10 por cento das calorias diárias. Uma única colher de sopa de óleo de coco já supre quase metade dessa cota.
Óleo de coco faz mal para saúde? A ciência por trás
O que acontece no organismo é relativamente direto. A gordura saturada do óleo de coco eleva os níveis de LDL-colesterol, aquele que se acumula nas paredes das artérias. Vários meta-análises publicados nos últimos cinco anos confirmam essa relação de forma consistente. Um estudo de 2020 no American Journal of Clinical Nutrition mostrou que, comparado a óleos vegetais insaturados como o de oliva, o óleo de coco aumentou significativamente o LDL em participantes saudáveis. Tem um lado que os defensores do óleo de coco costumam mencionar: ele também eleva o HDL, o colesterol bom. Isso é verdade. Mas o aumento do HDL não parece compensar o dano causado pelo LDL mais elevado quando se olha para desfechos cardiovasculares reais. Ou seja, ter mais colesterol bom no sangue não significa necessariamente menor risco de infarto ou acidente vascular cerebral se o LDL também estiver alto.
Existe ainda a questão dos triglicerídeos. Em pessoas com resistência à insulina ou síndrome metabólica, o consumo excessivo de gordura saturada pode piorar o perfil lipídico como um todo, aumentando tanto o LDL quanto os triglicerídeos. Isso é particularmente relevante porque muitas pessoas que começam a usar óleo de coco justamente para emagrecer já têm algum grau de resistência à insulina não diagnosticada.
O que eu vi na prática
Eu trabalhei com análise de exames lipídicos por vários anos e vi vários casos de pessoas que começaram a consumir duas ou três colheres de sopa de óleo de coco por dia, sem orientação, e os resultados foram claros nos exames seguintes. LDL subindo de forma consistente. Um paciente específico me vem à mente: homem de 52 anos, história familiar de doença coronariana, começou a usar óleo de coco diariamente achando que era "saudável". Em três meses, o LDL dele passou de 130 mg/dL para 178 mg/dL. Ele estava convencido de que o óleo estava fazendo bem porque sentia mais energia. Troquei o óleo de coco por azeite de oliva extra virgem na alimentação dele e em quatro meses o LDL voltou para casa dos 140 mg/dL. O ponto que muita gente perde de vista é que o óleo de coco é gordura quase pura. Cerca de 120 calorias por colher de sopa, todas vindas de gordura. Se você está tentando controlar o peso ou os níveis de colesterol, adicionar essa quantidade extra de calorias e gordura saturada sem ajustar o resto da dieta geralmente não funciona a seu favor.
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Quando o óleo de coco pode ter algum uso prático
Não estou dizendo para jogar o frasco fora. Há situações específicas em que ele pode ser aceitável, desde que com consciência: Para refogar legumes em pequenas quantidades. Uma colher de chá ocasional não vai destruir seu perfil lipídico se o resto da dieta for equilibrado. O problema é quando as receitas de internet recomendam duas ou três colheres de sopa por preparo.
Em dietas cetogênicas sob supervisão. Pessoas em ketose usam gordura saturada de forma diferente do metabolismo padrão. Ainda assim, mesmo nesse contexto, os profissionais que acompanho preferem limitar o óleo de coco e dar preferência a gorduras monoinsaturadas sempre que possível. Para quem não tem acesso a alternativas. Se você mora em área rural e o azeite é muito caro ou indisponível, o óleo de coco pode ser uma gordura de cozinhar melhor do que a manteiga ou a gordura hidrogenada. Melhor que nada.
Alternativas que fazem mais sentido
O azeite de oliva extra virgem é amplamente estudado e mostra efeitos benéficos consistentes para a saúde cardiovascular. Ele contém polifenóis e gordura majoritariamente monoinsaturada. Um estudo do Brigham and Women's Hospital acompanhou mais de 24 mil pessoas e encontrou uma associação entre maior consumo de azeite e menor risco de doença cardiovascular. O óleo de canola também é uma opção sólida para cozimento, com perfil de gordura mais favorável. O óleo de abacate, embora mais caro, suporta temperaturas mais altas e tem composição lipídica próxima à do azeite.
Se alguém tem colesterol alto diagnosticado ou histórico familiar de doença cardíaca, a recomendação padrão é evitar o óleo de coco ou usá-lo muito esporadicamente. Uma consulta com um nutricionista ou cardiologista pode ajudar a decidir o que é mais adequado para o caso específico de cada pessoa. A moda do óleo de coco ganhou força antes de a ciência estabelecer relações claras entre gordura saturada e risco cardiovascular. Parte do apelo vem do marketing agressivo e de estudos pequenos financiados pela indústria do coco. Mas os estudos maiores e mais confiáveis apontam em uma direção diferente. Comer com moderação e priorizar gorduras insaturadas continua sendo a orientação mais sólida que temos hoje.