O fígado e sua localização no corpo humano
O fígado é o maior órgão interno do corpo humano e fica localizado predominantemente no quadrante superior direito do abdômen, logo abaixo do diafragma. A maior parte dele se estende da costela número 7 até a costela 11 do lado direito, ocupando cerca de 70% do espaço na cavidade abdominal superior. Uma pequena porção, chamada de lobo esquerdo, atravessa a linha mediana e chega até o lado esquerdo, mas essa parte é muito menor do que a direita.
onde fica o fígado lado direito ou esquerdo
Na prática clínica, quando um médico palpa o abdômen procurando o fígado, ele posiciona a mão no flanco direito do paciente e pede para a pessoa inspirar profundamente. O fígado desce com o diafragma durante a inspiração, e se estiver agrandado (hepatomegalia), você consegue senti-lo descendo abaixo do rebordo costal. Um fígado normal normalmente não é palpável, ou pelo muito pouco — talvez uma borda suave a cerca de 1 ou 2 cm abaixo das costelas em pessoas magras. O que eu observei inúmeras vezes nos consultórios é que pacientes obesos têm o fígado praticamente impossível de palpar apenas com a exame físico, e ai você precisa recorrer ao ultrassom ou tomografia para avaliar o tamanho real do órgão. Já vi casos onde o hepatologista achava que o fígado estava normal na palpação, mas a imagem mostrava uma cirrose estabelecida com o fígado contraído e endurecido — a palpação sozinha engana muito. A anatomia do fígado segue uma divisão funcional chamada segmentação de Couinaud, que divide o órgão em oito segmentos independentes, cada um com seu próprio suprimento vascular biliar e venoso. Isso é importante porque permite ressecções cirúrgicas parciais sem comprometer o restante do fígado. O lobo direito, que é o maior, corresponde aos segmentos V, VI, VII e VIII. O lobo esquerdo anatômico corresponde aos segmentos II, III e IV. Os segmentos I (lobo de caudado) fica na face posterior e tem drenagem venosa direta para a veia cava inferior, o que o torna relativamente protegido em situações de hipertensão portal. Esse detalhe anatômico explica por que pacientes com cirrose frequentemente mantêm o lobo caudado maior do que os outros lobos — ele não sofre tanto a influência da resistência vascular aumentada.
Uma coisa que muitos estudantes de medicina esquecem é que a posição do fígado varia com a respiração e com o estado nutricional do paciente. Em pessoas muito emagrecidas ou com enfisema pulmonar grave, o diafragma fica mais baixo e o fígado pode ser palpável até 3 ou 4 cm abaixo do rebordo costal sem que isso signifique necessariamente hepatomegalia. Por outro lado, em pacientes com pneumotórax ou ascite significativa, o fígado pode ficar completamente escondido e impossível de palpar, mesmo estando consideravelmente agrandado. O correto é sempre correlacionar a palpação com exames de imagem e exames laboratoriais de função hepática — ALT, AST, fosfatase alcalina, bilirrubinas, albumina e tempo de protrombina. Só os valores isolados de enzimas não dizem tudo; uma AST duas vezes maior que a ALT, por exemplo, é classicamente associada a doença alcoólica hepática, mas também aparece em infarto do miocárdio e miopatias, então o contexto clínico é fundamental. O fígado tem uma capacidade regenerativa impressionante. Já li estudos mostrando que mesmo após ressecção de até 70% do parênquima hepático, o órgão recupera seu volume original em cerca de 4 a 6 semanas em indivíduos saudáveis. Isso permite procedimentos como a doação de fígado vivo entre vivos, onde um doador sadia doa parte do lobo direito (que corresponde a cerca de 60% do volume hepático total) e o receptor recebe esse segmento. O fígado do doador cresce de volta para um tamanho quase normal em poucas semanas, e o segmento transplantado no receptor também se expande para preencher a cavidade abdominal. O que eu acho menos conhecido é que essa regeneração depende de uma cascata de citocinas e fatores de crescimento, principalmente o TGF-alpha e o HGF (hepatocyte growth factor), e que processos inflamatórios crônicos podem prejudicar seriamente essa capacidade — é por isso que pacientes com hepatitis C ativa têm regeneração hepática significativamente mais lenta pós-cirurgia.
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Se você está sentindo dor na região do hipocôndrio direito, isso não significa automaticamente que seja problema hepático. A vesícula biliar, o colono hepático, a flexura cólica direita, o rim direito e até a pleura pulmonar direita podem refrear dor para essa região. A dor hepática propriamente dita ocorre quando a cápsula de Glisson, que envolve o fígado, é distendida — seja por hepatomegalia rápida, congestão venosa na insuficiência cardíaca direita, ou inflamação da cápsula na hepatitis aguda. Essa dor é geralmente uma sensação de peso ou desconforto surdo, não uma dor aguda pontual. Um cálculo biliar que obstrui a via biliar produza cólica biliar, que é uma dor diferente — mais intensa, intermitente e que irradia para a escápula direita. Para avaliar a localização exata do fígado de forma não invasiva, o ultrassom abdominal é o exame de primeira linha. Ele permite medir o tamanho do fígado em centímetros ao longo da linha média direita, avaliar a ecogenicidade do parênquima (fígado gorduroso aparece mais branco, ou hiperecoico, comparado ao rim direito), identificar lesões focais como cistos hemangiomas ou tumores, e avaliar o fluxo sanguíneo pelos vasos hepáticos usando Doppler. Um fígado normal mede até 15-17 cm na linha média direita em adultos. Acima disso, considera-se hepatomegalia. O gordura hepática esteatose afeta cerca de 25% da população mundial e é frequentemente assintomática — a pessoa não sente nada, não tem dor, não tem alteração nos exames de função hepática nas fases iniciais. O diagnóstico é feito por acidente, num ultrassom feito por outro motivo, ou através de rastreio em pacientes com sobrepeso diabetes tipo 2 ou dislipidemia. O tratamento na fase inicial é perda de peso de 7 a 10% do peso corporal, o que já é suficiente para reduzir significativamente a inflamação e a gordura hepática em muitos casos.
A vascularização do fígado é única no corpo: ele recebe sangue duplamente, tanto pela artéria hepática própria (ramo da artéria celíaca, levando sangue arterial oxigenado) quanto pela veia porta hepática (levando sangue rico em nutrientes vindos do trato gastrointestinal). Cerca de 75% do fluxo sanguíneo hepático vem da veia porta, e os 25% restantes da artéria hepática. Esse sistema portal é o que permite que o fígado funcione como o principal órgão de processamento metabólico do corpo — tudo o que você absorve no intestino passa primeiro pelo fígado antes de chegar à circulação sistêmica. É por isso que a via oral é o caminho mais seguro para administração de muitos medicamentos; o fígado pode metabolizar e desativar compostos potencialmente tóxicos antes que eles alcancem outros órgãos. O efeito de primeiro passo hepático é um conceito farmacológico essencial — alguns medicamentos como a morfina e o nitroglicerina têm biodisponibilidade oral tão baixa (menos de 30%) que precisam ser administrados por outras vias para fazer efeito clínico adequado. Em termos de incidência de doenças hepáticas no Brasil, a hepatitis B e a hepatitis C continuam sendo causas importantes de morbimortalidade, especialmente em populações com menor acesso a vacinação e screening. A OMS estima que cerca de 1% da população brasileira vive com hepatitis B crônica e aproximadamente 1,5 milhão de pessoas têm hepatitis C. O tratamento da hepatitis C mudou radicalmente nos últimos anos com os antivirais de ação direta, que curam mais de 95% dos casos em 8 a 12 semanas de tratamento, com poucos efeitos colaterais. A vacina contra hepatitis A e B está disponível gratuitamente pelo SUS e é recomendada para todas as crianças e para grupos de risco em adultos. O rastreamento de câncer hepatocelular em pacientes com cirrose deve ser feito a cada 6 meses com ultrassom abdominal e dosagem de AFP, pois o diagnóstico precoce aumenta significativamente as opções terapêuticas e a sobrevida.
O fígado também desempenha um papel crucial na produção de bile, que é essencial para a digestão e absorção de gorduras e vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). A bile é produzida continuamente pelos hepatócitos e armazenada Concentrada na vesícula biliar. Quando você come uma refeição gordurosa, a colecistoquinina é liberada pelo duodeno e provoca a contração da vesícula biliar, despejando bile no intestino delgado. Se os sais biliares não chegarem ao intestino adequadamente, ocorre esteatorreia — fezes pálidas, oleosas e de difícil descida no vaso sanitário, porque as gorduras não estão sendo emulsionadas e digeridas corretamente. Isso pode acontecer em obstruções das vias biliares, seja por cálculos, tumores ou estenoses pós-cirúrgicas. Outro aspecto pouco discutido é a relação entre saúde hepática e saúde mental. O eixo intestino-fígado-cérebro é uma via de comunicação bidirecional que envolve metabólitos bacterianos, ácidos biliares e mediadores inflamatórios. Pesquisadores já demonstraram que pacientes com doença hepática crônica têm taxa significativamente maior de depressão e ansiedade comparados à população geral, e que a toxicidade acumulada de amônia no sangue (hiperammoniemia) pode causar encefalopatia hepática, manifestada por confusão mental, alteração do sono, e em casos graves, coma. A lactulosa é o tratamento padrão para encefalopatia hepática — ela acidifica o cólon, convertendo a amônia (NH) em amônio (NH), que não atravessa a barreira hematoencefálica e é excretado nas fezes. O tratamento reduz os níveis de amônia em cerca de 30 a 50% em algumas horas, mas não cura a doença de base.