A origem do sertanejo é mais bagunçada do que parece
O sertanejo surgiu no interior de São Paulo e nas regiões centro-oeste do Brasil, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Não tem um ponto exato de nascimento, como um endereço com CEP. Veio de uma mistura de tradições musicais trazidas por tropeiros, vaqueiros, caboclos e imigrantes italianos e japoneses que ocupavam aquela região. A base rítmica vem das danças de roda e das modas de viola, que eram cantadas em festas de igreja e encontros de gado. Muita gente acha que sertanejo veio do Nordeste, do verdadeiro sertão. Não veio. O sertanejo paulista e mineiro tem raízes diferentes do forró e da música de raiz nordestina, embora ambas compartilhem instrumentos parecidos, como a viola. A confusão é comum e acontece porque o nome "sertanejo" remete linguisticamente ao sertão, mas na prática musical brasileira os caminhos se separaram cedo.
onde surgiu o sertanejo de verdade
Se você for procurar o berço histórico, a resposta honesta fica entre os municípios do interior de São Paulo — Piracicaba, Campinas, Rio Claro — e o estado de Minas Gerais, especialmente a região de Triângulo Mineiro. Nas décadas de 1920 e 1930, os primeiros discos de modas de viola foram gravados aí. Artistas como Carmem Lipini e os irmãos Paulino e Vicente Wilson documentaram essas músicas que depois virariam o embrião do que chamamos de sertanejo. O que acontecia na prática era o seguinte: as gravadoras da época, como a Odeon e a Victor, viajavam pelo interior buscando gravar o que chamavam de "música caipira". Eles registravam canções que os músicos locais tocavam em feiras e festas. Aquilo tinha uma sonoridade própria, com viola de tan gota, sanfona às vezes, e letras que falavam da vida no campo, da saudade, do amor não correspondido. Era tudo muito semelhante, mas cada região tinha seu jeito particular de cantar e tocar.
Um detalhe que as pessoas geralmente ignoram: o sertanejo que conhecemos hoje passou por uma transformação radical nos anos 1980. Antes disso, era basicamente música instrumental e vocal acústica. A dupla sertaneja que começou a dominar as rádios com violões elétricos, batidas mais marcadas e harmonias mais próximas do pop foi uma reinvenção, não uma continuação direta. Se alguém te disser que o sertanejo atual é fiel à tradição, essa pessoa não sabe o que está falando. Eu já perdi tempo tentando rastrearlinagens diretas entre duplas dos anos 1950 e as duplas dos anos 2000, e não dá. Os elementos se misturaram tanto com a MPB, com o rock, com a música pop internacional, que qualquer tentativa de traçar uma genealogia pura vira exercício de fé, não de música. O que existe são influências, ecos, adaptações. Não linhagens fechadas.
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Outro ponto que as pessoas ERRAM-feio: romantizar a ideia de que o sertanejo nasceu "puro" ou "autêntico". A música sertaneja sempre absorveu influências externas. Nos anos 1950, por exemplo, houve uma forte presença de ritmos argentinos e uruguaios nas gravuras do interior paulista. Tambores, acordes, arranjos. Os músicos da época eram pragáticos. Tocavam o que o público queria ouvir, e o público queria dançar. Se você está estudando a gênese do gênero para algum trabalho acadêmico ou projeto editorial, aqui vai uma dica prática que ninguém conta: consulte o acervo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e as gravações da Coleção Brasiliana da Biblioteca Nacional. Os discos de 78 rotações das décadas de 1920 a 1950 estão digitalizados em parte e mostram claramente a transição entre a moda de viola estrita e o que viraria o sertanejo romântico. Sem those gravações, você fica só na teoria.
Um problema que eu encontrei na prática ao tentar mapear as primeiras duplas gravadas: as datas de lançamento dos discos muitas vezes não batem com a data real da gravação. As gravadoras adiou lançamentos por questões comerciais, e os selos nos vinis nem sempre tinham a informação correta. A solução foi cruzar dados de catálogos de prensagem, contratos de artistas e matérias de jornais da época que mencionavam as gravações. Demorou semanas, mas o resultado ficou muito mais confiável do que qualquer lista da internet. O sertanejo universitário, aquele que domina as paradas hoje, surgiu nos anos 2000 como uma derivação do sertanejo romântico dos anos 1990. A diferença principal é a produção: mais sintetizadores, batidas mais próximas do pop e R&B, letras menos ligadas ao universo rural. Duplas como Jorge e Mateus, Gusttavo Lima e Marília Mendonça construíram carreiras nesse contexto. Não é errado gostar, mas é errado chamar isso de sertanejo tradicional.
Existe ainda uma vertente que muitos esquecem: o sertanejo de raiz, que sobreviveu principalmente no interior de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e partes do Paraná. Essas regiões mantêm tradições mais próximas das modas de viola originais, com violas de 10 cordas, repertório focado em compositoras como Tião Carreiro e Pardinho, e apresentações em eventos como as festas do peão de Barretos e de Boa Esperança. Se você quer ouvir algo que se aproxima do sertanejo dos primórdios, esses eventos são o lugar certo. A informação sobre onde surgiu o sertanejo costuma ser simplificada demais em fontes turísticas e escolares. A realidade é mais complexa: múltiplas regiões, múltiplas influências, múltiplas fases de transformação. O gênero não nasceu pronto. Ele foi se construindo aos poucos, com contribuições de músicos anônimos e consagrados, de produtores que buscavam lucro e de públicos que exigiam novidades. Tudo isso junto forma a história real.