O que é cariótipo e como ele funciona na prática
O cariótipo é a representação organizada dos cromossomos de uma célula, dispostos em pares de acordo com o tamanho e a posição do centrômero. Na prática, é uma fotografia metafásica dos cromossomos separados, numerados do par 1 ao 22, mais os cromossomos sexuais. Um cariótipo normal de mulher é 46,XX. Um de homem é 46,XY. Qualquer alteração no número ou na estrutura desses cromossomos pode ser identificada visualmente quando a amostra é preparada corretamente. Vou explicar primeiro como se faz, porque entender o método ajuda a entender o que você está olhando quando recebe um resultado.
Como coletar e preparar uma amostra para análise do cariótipo
A coleta mais comum é de sangue periférico heparinizado, mas também se usa líquido amniótico, biópsia de medula óssea, vilosidades coriónicas e culturas de fibroblastos de pele. O sangue precisa crescer em cultura por cerca de 72 horas em meio RPMI 1640 com fitohemaglutinina como indutor de mitose. Depois disso, colchicina ou colcemide é adicionado para travar as células em metáfase, porque é nesse estágio que os cromossomos estão mais condensados e visíveis. Aí vem o passo mais crítico: o hipotônico. Cloreto de potássio a 0,075 a 0,078M por 20 minutos, em banho-maria a 37°C. Se o tempo estiver errado, os cromossomos ficam superespalhados ou se rompem. Se a concentração estiver errada, a mesma coisa. Já vi laboratório inteiro perder um dia inteiro por causa de uma solução hipotônica mal feita, porque o técnico achou que dava pra calcular de cabeça e errou a diluição.
Depois do hipotônico, fixação em metanol e ácido acético na proporção 3:1, três trocas, sempre na geladeira. Espalhamento das células no slide fazendo o drop a uma altura de cerca de 30 centímetros, sobre um vidro limpo e levemente aquecido. Aí cora com Giemsa, o banding clássico, ou com bandas Q com quinacrina se o laboratório preferir esse método. Bandas G são mais comuns no Brasil e na maioria dos laboratórios clínicos porque são mais fáceis de visualizar com o microscópio de luz comum. A análise em si leva entre 15 e 45 minutos por amostra, dependendo da qualidade das metáfases e da experiência do citogeneticista. Você precisa contar pelo menos 20 células em metáfase boa, mas o padrão internacional exige a análise de pelo menos duas metáfases independentes para emitir um laudo. Se as metáfases forem ruins, você analisa mais. Isso é rotina, não exceção.
O que realmente significa o resultado
Um cariótipo normal é escrito com a nomenclatura ISCN, que é o sistema internacional. Por exemplo, 46,XX é mulher normal. 47,XY,+21 é síndrome de Down. 45,X é síndrome de Turner. 47,XXY é síndrome de Klinefelter. Mas o cariótipo também mostra coisas que testes moleculares não captam bem: translocaçõesadas, inversões, deleções grandes, aneuploidias completas de cromossomos inteiros. O problema é que cariótipo tem uma resolução limitada. Você precisa de pelo menos 400 a 550 bandas por haploidie para detectar alterações acima de 5 a 10 megabases. Se o laboratório pede baixo número de bandas, tipo 320, a resolução cai para 10 a 20 megabases. Alterações menores simplesmente passam despercebidas. Isso não é falha do técnico. É limite físico do método.
Um exemplo prático: eu já vi um caso em que um paciente com suspeita de síndrome de DiGeorge tinha cariótipo normal em bandas G de 400, mas o teste de FISH e depois o chip de hibridização genômica (CGH) mostraram uma microdeleção 22q11.2. O cariótipo não tinha erro. Ele apenas não conseguia ver algo tão pequeno. Recomendação óbvia: quando há indicação clínica forte e o cariótipo é normal, não para por aí. Pedir array CGH ou FISH conforme o caso. Outra limitação séria é que cariótipo não detecta mutações de gene único, nem variações de número de cópias muito pequenas, nem mosaicismo de baixa porcentagem se o nível for menor que 10 a 15 por cento nas células analisadas. E ainda tem o problema dos falsos mosaicismos causados por cultura, onde uma anomalia aparece só numa célula e não reflete a situação real do paciente. Isso acontece, especialmente em culturas de sangue periférico, e já causei confusão clínica quando não verifiquei se a anomalia estava presente em mais de uma célula independente.
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Dicas que ninguém conta
A maior parte dos erros em cariotipagem não acontece na leitura. Acontece na preparação. Slide sujo, fixador velho, tempo de hipotônico inconsistente, metáfase sobrecondensada ou subcondensada. Tudo isso gera imagens que parecem normais mas estão artificiosamente alteradas, e o citogeneticista perde tempo tentando interpretar algo que nunca foi real. Se você está começando a trabalhar com cariótipo, aprenda a reconhecer uma metáfase boa antes de aprender a diagnosticar. Metáfase boa tem cromossomos bem separados, sem sobreposição excessiva, com bandas bem definidas e centrômeros visíveis. Se as células estão todas esmagadas ou sobrepostas, desista de analisar. Refaça o prep. Levar mais 48 horas na cultura vale mais do que tentar salvar uma preparação ruim e emitir um laudo duvidoso.
Na hora de fotograhar as metáfases, use câmera acoplada ao microscópio com software de capture adequado. Câmera com sensor CCD ou CMOS moderno faz diferença real na qualidade da imagem. Microscópio com objetiva de imersão em óleo 100x, NA 1.3 ou mais, e condensador de Abbe ajustado corretamente. Iluminação de Köhler precisa estar calibrada. Sem isso, as bandas não aparecem com nitidez e a análise visual fica comprometida. O banding com Giemsa é o padrão-ouro para diagnóstico clínico geral, mas se o laboratório tiver equipamento para banding R ou C, vale usar como complemento em casos específicos. Bandas R são úteis quando as bandas G são ambíguas. Bandas C ajudam a identificar o cromossomo Y e regiões constitutivas, especialmente em anomalias de cromossomos sexuais.
Quando o cariótipo não é suficiente
Se o objetivo é rastrear síndromes microdeleção, como as relacionadas ao cromossomo 22q11.2, 1p36, 5p, ou outras regiões específicas, o array CGH ou a hybridization in situ por fluorescência (FISH) direcionado são mais indicados. O cariótipo continua sendo o melhor primeiro teste para avaliar o genoma como um todo de forma equilibrada, mas não substitui métodos de maior resolução quando a suspeita clínica é específica. Em oncologia, o cariótipo de medula óssea ou de massa tumoral ainda é muito relevante, especialmente para leucemias e linfomas, onde translocações como t(9;22) na LCR e t(15;17) na leucemia promielocítica aguda têm implicações terapêuticas diretas. Nesses casos, o cariótipo continua sendo padrão-ouro porque mostra a arquitetura completa das alterações cromossômicas, algo que PCR e FISH isoladamente não oferecem.
Para triagem pré-natal, o cariótipo de líquido amniótico continua sendo amplamente usado, mas muitos centros já adotam o array CGH como teste de primeira linha, especialmente quando a ultrassonografia mostra anomalismas fetais. O array detecta variantes de número de cópias submicroscópicas que o cariótipo perde, mas não detecta translocações balanceadas, então em muitas situações os dois métodos são complementares, não excludentes.
O que é cariótipo e por que ainda importa
O cariótipo continua sendo uma ferramenta fundamental na citogenética clínica porque fornece uma visão global e equilibrada do conjunto cromossômico. Ele não é perfeito, tem limites de resolução e pode passar por cima de alterações pequenas, mas para a grande maioria das aneuploidias, translocações grandes, deleções e duplicações macroscópicas, ele ainda é rápido, confiável e relativamente acessível. O segredo não é acreditar que o método resolve tudo, mas saber até onde ele chega e quando pedir algo a mais.