Os Retirantes De Cândido Portinari - Obra Retirantes de Portinari inspira concurso de desenho do Masp | VEJA ...
Obra Retirantes de Portinari inspira concurso de desenho do Masp | VEJA ...

Sobre os retirantes de Cândido Portinari

Portinari começou a trabalhar nessa série em meados de 1943, quando ainda vivia nos Estados Unidos como chefe da missão cultural brasileira. A seca de 1930 no Nordeste brasileiro o atingiu de um jeito que ele nunca conseguiu sair de cima. O resultado foram os dez painéis que hoje fazem parte do Acervo do MASP, em São Paulo.

Os retirantes de Cândido Portinari: o que são e por que existem

São dez telas que contam uma narrativa contínua. Não é um quadro único com várias figuras, são dez quadros que juntos formam um arco de 360 graus aproximadamente. O tema é o êxodo migratório provocado pela seca. A sequência começa com a terra rachada, passa pela saída dos retirantes, pelo sofrimento na estrada, pela morte, pela esperança no destino e termina com a chegada, que não é exatamente um final feliz. Eu vi isso ao vivo pela primeira vez num vídeo de 360 graus do MASP, mas a experiência não substitui ver em tamanho real. As telas têm quase dois metros de altura cada uma. A cor predominante é um marrom terroso, quase ocro, com toques de vermelho nas figuras mais dramáticas. Isso não é escolha decorativa. Portinari limitou a paleta de propósito porque estava representando desolação.

Como funciona a construção visual

O formato é uma sequência horizontal, mas o MASP organiza as telas de um jeito que você literalmente caminha ao redor delas. É um projeto que foi originalmente pensado para o edifício da Sociedade das Nações, em Genebra. Quando a ideia do painel para a ONU fracassou, Portinari refundiu aquela energia em Os Retirantes. Uma coisa que pouca gente nota é o uso consistente de rostos semiabstratos. As figuras são reconhecíveis como humanas, mas Portinari dissolveu os traços faciais em áreas de cor sólida. Isso cria uma sensação de massa anônima. Os retirantes não são indivíduos específicos; eles são um grupo, um fenômeno social.

No painel "A Morte", a figura central é uma mulher agachada segurando um crânio. O crânio está pintado com o mesmo tom de terra seca do fundo. A intenção parece ser mostrar que a morte se funde com a paisagem que causa a morte. Não é metafórico no sentido poético. É literal no sentido de composição visual.

Principais painéis e o que observar

O primeiro, "A Seca", mostra uma paisagem com árvores nuas e céu amarelado. A perspectiva é quase plana, o que reforça a sensação de ausência de refúgio. No segundo, "Os Retirantes", aparece a caravana em movimento. As figuras estão agrupadas de forma a criar um bloco visual contínuo, como se a multidão fosse um único organismo andando. "No Caminho" traz a cena mais crítica do percurso. Pessoas caídas, uma criança sendo carregada. O uso de sombras longas indica que é o fim da tarde, o que adiciona urgência à narrativa. "O Descanso" mostra figuras deitadas, mas nenhuma delas está realmente descansando. A tensão muscular nas figuras deita é o oposto de relaxamento. É exaustão.

"A Esperança" é o painel mais controverso. Aparece uma criança sendo sustentada por figuras adultas. A luz é mais clara, mas não é uma luz divina. É apenas um momento de respiração dentro da sequência de sofrimento. Já o painel "O Enterro" é provavelmente o mais impactante. As figuras enterram alguém com movimentos mecânicos, como se isso já tivesse acontecido muitas vezes antes. "A Chegada" é o último. Mostra os retirantes chegando a um local que parece ser uma cidade, mas não é claro que haja acolhimento. Há construções ao fundo, mas as figuras mantêm a postura encolhida. O deslocamento geográfico não significou melhora na condição.

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Panorama histórico e contexto

A seca de 1930 foi particularmente devastadora porque seou à crise econômica da Grande Depressão. O governo federal tinha poucos recursos e pouca vontade política para intervir de forma efetiva. Os retirantes eram famílias inteiras que abandonaram sertões inteiros, especialmente nas regiões de Caatinga e do Semiárido pernambucano e cearense. Portinari era de Brodowski, no interior de São Paulo, e tinha contato direto com problemas de trabalhadores rurais desde jovem. Ele não estava fazendo documentário jornalístico. Estava processando visualmente algo que ele já havia visto antes em outras escalas. A diferença aqui é que a escala era continental.

A técnica que ele usou combina elementos da pintura mural mexicana — especificamente Rivera e Siqueiros, que ele conheceu quando esteve no México em 1928 — com uma sensibilidade expressionista europeia. O resultado é uma linguagem própria, híbrida mas coerente.

Problemas de conservação e o que acontece hoje

As telas estão no MASP desde a doação feita por Assis Chateaubriand, fundador do museu. O problema é que a coleção original de Portinari para a ONU foi rejeitada pelo comitê da época como "degenerada" ou politicamente inadequada por alguns setores. Isso significa que a versão final de Os Retirantes é, em certo sentido, uma refração daquela obra rejeitada. A conservação é um desafio constante. A paleta terrosa de Portinari inclui pigmentos que tendem a escurecer com o tempo. Já vi restauradores discutirem isso em congressos. A decisão comum é não alterar as cores originais, mesmo quando o escurecimento é visível. A justificativa é que a cor atual é parte da história da obra.

Se você for visitar o MASP, há uma instalação temporária que reproduz a experiência do recorrido circular. Mas o original está em depósito ocasionalmente para tratamento. Fique de olho na programação antes de ir, porque às vezes os painéis saem da exibição por meses para conservação.

Por que essa obra importa até hoje

Porque os retirantes não desapareceram. Continuam existindo em formas diferentes, muitas vezes deslocados para periferias urbanas em vez de rotas de caminhada. A obra de Portinari capturou um padrão estrutural que se repete sempre que a seca encontra governança ausente. O formato de sequência circular também é interessante do ponto de vista conceitual. Você entra, vê as dez telas, e ao terminar está de volta ao ponto de partida. Não há resolução. A história não avança para um desfecho melhor. Ela simplesmente se completa como um ciclo que pode começar de novo.

Se quiser acessar imagens de alta resolução, o site do MASP tem um acervo digital gratuito. As fotos oficiais são boas, mas a fidelidade de cor nunca será perfeita em tela. Para análise séria da paleta, o catálogo raisonne de Portinari, organizado pelos especialistas do Instituto Póla Chateaubriand, é a referência mais confiável que existe.