O que você realmente precisa saber sobre dígrafos
Dígrafos são dois grafemas que representam um único fonema. Isso é básico, todo mundo aprende na escola. O problema é que a maioria das pessoas para por aí e acha que entendeu. Na prática, trabalhar com palavras com dígrafos é bem mais complicado do que ler uma lista de ch, lh e nh e seguir em frente.
Palavras com dígrafos: definições, exceções e o que ninguém te conta
Vou listar os dígrafos consonantais do português primeiro, porque é por aí que a coisa começa. São eles: ch, lh, nh, ss, rr, sc, sç, xc, xs, qu, gu. Os dígrafos vocálicos ou nasais são mp, mb, nd, nt, nh, lh, ch. A diferença entre um e outro importa mais do que parece quando você está escrevendo um processador de texto ou um sistema de pesquisa. O que as listas escolares geralmente escondem é que qu e gu não são apenas consoantes dupla, são letras que mudam de som dependendo da vogal que vem depois. Antes de e i, q soa como /k/ e g soa como //. Antes de a, o, u, o padrão se inverte. Isso significa que em palavras como queijo e guerra, os grafemas q e g são parte de um dígrafo, mas em quilo e guru, eles funcionam como consoantes independentes. Um algoritmo ingênuo que só procura sequências fixas vai errar essas distinções.
Já os dígrafos nasais como mh e nh carregam uma pegadinha ortográfica diferente. Em português, mh aparece em palavras como alicerço (não, esse não tem mh, vou corrigir: ex-madrinha com hífen e a junção de sons, ou paralelepípedo que tem md, outro dígrafo). O ponto importante aqui é que muitos desses grafemas parecem dígrafos mas são apenas encontros consonantais em sílabas diferentes. Passar tem ss dentro da mesma sílaba, é dígrafo. Raio tem r e i juntos mas não é dígrafo, é apenas sílaba iniciada por r. A fronteira é tênue e quem não presta atenção nesse detalhe acaba gerando erros de tokenização que aparecem meses depois no relatório de qualidade. Eu já passei por isso de forma bem específica. Trabalhei num projeto de normalização de textos para um arquivo público que precisava segmentar milhões de palavras e identificar todos os dígrafos para calcular estatísticas fonéticas. O sistema que construímos inicialmente considerava apenas as combinações fixas de letras. Funcionou até encontrarmos exceções regionais e etimológicas que quebrou tudo. Por exemplo, a palavra escárnio tem sc, que é dígrafo e soa como /sk/ em grande parte do português brasileiro, mas em variações mais conservadoras ou em empréstimos de outras línguas, o som pode variar. Nosso modelo inicialmente tratava sc sempre como dígrafo, o que distorcia as contagens fonêmicas em textos com vocabulário mais formal ou arcaizante.
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A solução que encontramos foi criar uma camada de processamento que primeiro identificava o contexto silábico usando uma regra de separação baseada na vogal seguinte, e só então decidia se a sequência era dígrafo ou encontro consonantal. Para casos ambíguos, utilizamos uma lista de palavras com pronúncia documentada como referência. Esse ajuste reduziu o erro de classificação de dígrafos de cerca de 18% para menos de 3%. Não é perfeito, mas é suficiente para a maioria dos casos práticos. Outro detalhe que quase ninguém menciona é o problema dos dígrafos em palavras compostas e hifenizadas. Quando você tem sub-bloco ou anti-inflamatório, a junção de sílabas pode criar sequências que parecem dígrafos mas não são. O b e o c em sub-bloco estão em sílabas diferentes, então não formam um dígrafo. Um processador mal projetado pode considerar bb ou cc como dígrafos e inflar artificialmente as contagens.
Se você está pensando em implementar algo parecido, aqui vai um resumo direto do que funciona e do que não funciona: O que funciona bem: para textos correntes, uma regra simples que identifica ch, lh, nh, ss, rr, sc, sç, xc, xs, qu, gu antes das vogais específicas já cobre a grande maioria dos casos. Se o seu objetivo é apenas listar palavras com dígrafos para fins educacionais ou de curiosidade, isso é mais do que suficiente.
O que dá problema: textos formais, jurídicos, literários antigos ou regionais. Nesses contextos, a variação fonética e a presença de estrangeirismos aumentam significativamente os casos ambíguos. Dígrafos como xc e xs aparecem em palavras como exceto e excessivo, mas também em grafias alternativas que não são mais recomendadas pela ortografia vigente. Se você estiver trabalhando com textos históricos, vai se deparar com formas como excellente com tt, que não são dígrafos no sentido moderno. Alternativa se você não precisa de precisão fonética absoluta: use um analisador morfológico já consolidado, como o do NLTK em português ou o stanza. Eles lidam com a maior parte dos casos sem você precisar implementar as regras do zero. O custo é que você perde controle sobre os critérios de classificação, mas ganha tempo e estabilidade.
O ponto final que preciso deixar é o seguinte: palavras com dígrafos não são um problema que se resolve uma vez e esquece. Elas aparecem em sistemas de busca, corretores ortográficos, texto para fala e análise linguística, e em cada um desses contextos as exigências são diferentes. O que funciona para um corretor não funciona para um sintetizador de voz, e o que funciona para um sintetizador não funciona para um analisador morfológico. Defina claramente qual é o seu objetivo antes de escolher a abordagem, e teste com um corpus real do tipo de texto que você vai processar. A teoria é sempre mais limpa do que a prática.