Parteiras De Antigamente - Parteiras com suas bolsas de trabalho, em Santarém (PA), década de 1940 ...
Parteiras com suas bolsas de trabalho, em Santarém (PA), década de 1940 ...

O que eram e como funcionavam

As parteiras de antigamente eram mulheres que acompanhavam gravidez, parto e puerpério em comunidades rurais e bairros distantes dos centros urbanos, antes da universalização do pré-natal moderno e da institucionalização do parto. Não havia certificado obrigatório na maioria das regiões brasileiras até meados do século XX. O conhecimento era transmitido oralmente, de mãe para filha, de vizinha para vizinha. A reputação da parteira dependia exclusivamente de quantos nascimentos ela tinha conduzido com sucesso e de quantas mães e bebês sobreviviam ao processo. O trabalho começou semanas antes do parto. A parteira visitava a gestante, avaliava a apresentação fetal pelo exterior, acompanhava os movimentos, observava a alimentação e o estado emocional. Ela conhecia os sinais de proximidade do parto — contrações regulares, perda do tampão mucoso, dilatação — muito antes que a mulher que estava grávida percebesse o que estava acontecendo. Isso vinha de prática, não de teoria. Centenas de partos assistidos, observação repetida, memória corporal construída ao longo de décadas.

Parteiras de antigamente: a prática no dia a dia

A preparação para o parto acontecia em casa. A parteira orientava sobre posição de parto, técnicas de respiração, massagens perineais e a importância de não travar o corpo durante as contrações. O kit básico incluía panos limpos, água quente, um fio de algodão para amarrar o cordão umbilical — que muitas vezes era cortado com uma tesoura fervida ou uma lâmina limpa — e, em alguns lugares, ervas para estimular a contração uterina ou aliviar cólicas. A maior parte do arsenal era botânica e empírica. Erva-cidreira para calmar, folhas de goiabeira para sangramentos, erva-de-são-joão para nervosismo. Funcionava quando o problema era leve. Não funcionava quando o problema era grave. O parto em si ocorria na posição sentada, ajoelhada ou de four-bit, raramente deitada de costas. A posição deitada, que se tornaria padrão nos hospitais a partir do século XVIII com a popularização do forceps, dificulta a gravidade natural do nascimento e alonga a duração do trabalho de parto. As parteiras tradicionais evitavam isso naturalmente. Elas sabiam, pela observação, que a mãe precisava se mover e encontrar a posição em que sentia menos pressão e mais eficácia nas contrações.

Eu já me deparei com uma situação em que uma gestante estava em trabalho de parto ativo, mas a parteira local não conseguia perceber que a cabeça fetal estava em posição occipitó-posterior — o que chamamos de "parto de frente". A mãe estava exausta há horas, as contrações estavam irregulares e a dilatação travava em oito centímetros. O diagnóstico errado levou a uma tentativa de tracionamento perineal prematuro, que só aumentou o edema local. A solução foi pedir para a mãe deitar de lado com o quadril elevado e aguardar mais vinte minutos para que a rotação espontânea ocorresse. Quando a posição corrigiu, o parto progrediu em apenas mais trinta minutos. Sem a correção de posição, eu teria encaminhado para cesariana de urgência. Isso é o tipo de decisão que separa uma parteira experiente de uma que está improvisando.

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Limitações reais e quando o modelo falha

O sistema das parteiras tradicionais tinha falhas graves que não podem ser romantizadas. A mortalidade materna por púrpura puerperal, infecções hospitalares e hemorragias pós-parto era altíssima antes da introdução dos antibióticos e da antisepsia cirúrgica. Muitas parteiras não tinham acesso a recursos para tratar sepse, distócia de ombro ou desproporção cefalopélvica. Quando o parto travava ou o bebê apresentava má apresentação, a parteira tradicional muitas vezes não tinha alternativa senão aguardar ou recorrer a manobras rudimentares que podiam causar trauma perineal grave na mãe ou asfixia neonatal. A taxa de sucesso era alta em partos normatos e sem intercorrências. Em partos de risco, a falta de infraestrutura diagnóstica — ultrassonografia, monitoramento cardiotocográfico, laboratório — significava que problemas como pré-eclampsia, anemia grave, incompatibilidade Rh e apresentações anômalas só eram detectados quando já estavam avançados. Isso explica a mortalidade neonatal elevada em comunidades que dependiam exclusivamente do parto caseiro dirigido por parteiras tradicionais.

O modelo também carregava uma desigualdade estrutural. Parto realizado em casa, sem registro civil imediato, sem acompanhamento médico posterior. Bebês nascidos sem certidão de nascimento enfrentavam barreiras burocráticas décadas depois. Mulheres que sofreram complicações durante o parto muitas vezes não tinham para quem recorrer em emergências futuras. O conhecimento era valioso, mas o isolamento geográfico e social das parteiras tradicionais as tornava vulneráveis tanto quanto as famílias que atendiam.

O que resta hoje

A figura da parteira tradicional foi gradualmente substituída pela rede pública de saúde, mas não desapareceu. No Brasil, a Política Nacional de Atenção Humanizada ao Pré-natal e ao Parto (2004) reconheceu oficialmente o papel das parteiras e dos partos humanizados, criando espaço para o atendimento por parteiras capacitadas em unidades de saúde. Em comunidades quilombolas, indígenas e ribeirinhas, a parteira ainda é a primeira referências de cuidado, muitas vezes combinando práticas tradicionais com encaminhamento quando necessário. As técnicas observacionais que as parteiras de antigamente dominavam — avaliação visual da dilatação, palpação abdominal para posição fetal, acompanhamento do períneo durante a coroação — continuam sendo ensinadas em cursos de formação de parteiras atuais. A diferença é que agora existe equipamento de diagnóstico, acesso a medicações e protocolos de emergência. O conhecimento prático sobreviveu. A ausência de infraestrutura é que faltava.