Peixes Cartilaginosos E Osseos - PPT - Escola Joaquim Gonçalves Ledo Anatomia Comparada Peixes e ...
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PEIXES CARTILAGINOSOS E OSSEOS: UMA VISÃO PRÁTICA

A divisão entre peixes cartilaginosos e ossudos não é só um tópico de livro didático. Eu já vi veterinários novatos perderem horas tentando fazer acesso venoso em um tubarão porque usaram a mesma abordagem que empregam em um dourado. A anatomia interna é completamente diferente e isso muda tudo, desde a punção até a dosagem de anestésicos. Os peixes cartilaginosos — chondrichthyes — têm esqueleto feito de cartilagem, não de osso. Isso significa que pontos cirúrgicos se comportam de outro jeito, que radiografias tradicionais revelam muito pouco sobre a estrutura esquelética e que a maioria das espécies precisa de suplementação de sal rigorosamente controlada, porque os mecanismos de osmorregulação são totalmente distintos dos dos peixes ósseos. Um erro de 2 gramas de sal por litro pode ser letal em um elasmobranquio e irrelevante em um ciprinídeo. Já me deparei com um caso em que a mortalidade veio de uma diluição errada no sistema de recirculação, não de doença alguma. A correção foi medir a gravimetria do tanque com refratômetro a cada duas horas durante três dias até estabilizar.

O que diferencia peixes cartilaginosos e osseos na prática

Quando você fala em peixes cartilaginosos e osseos, a distinção mais imediata que importa no dia a dia é a composição do esqueleto, mas as consequências vão muito além disso. Nos ósseos, o osso é visível em radiografias padrão, o que permite avaliar fraturas, displasias e alterações estruturais com relativa facilidade. Nos cartilaginosos, a radiografia convencional mostra quase nada. O que eu faço nesses casos é recorrer à ecografia ou, quando disponível, à tomografia. Leva mais tempo, mas o ganho diagnóstico é enorme. A respiração também altera completamente a abordagem. Peixes ósseos possuem opérculo que bombeia água sobre as brânquias de forma contínua na maioria das espécies. Elasmobranquios, por outro lado, dependem de ventilação ativa por movimento bucal ou, em muitos casos, de ramigenação — natação constante para forçar a passagem de água. Anestesia profunda em um tubarão sem suporte de fluxo branquial é uma receita para hipóxia rápida. A solução prática que uso é manter um fluxo de água oxigenada direcionado diretamente à região bucal durante todo o procedimento, usando uma bomba peristáltica de pequeno porte ajustada para 2 a 3 litros por minuto, dependendo do tamanho do animal.

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Outro ponto que ninguém destaca bastante: a urinogenitália. Nos peixes cartilaginosos, os ductos urinários se abrem na cloaca, o que significa que coletas de urina por citocentroese são praticamente inviáveis sem sedação profunda e técnica cirúrgica. O que eu faço na prática é coletar amostras de fluido coelômico via punção guiada por ultrassonografia. É mais invasivo, mas fornece dados reais sobre função renal e presença de infecções internas. A fisiologia renal também exige ajustes de medicação. Muitos anestésicos e antibióticos são eliminados de forma diferente nos cartilaginosos. A vida meia de drogas como a enrofloxacina pode ser significativamente maior, o que permite intervalos de dosagem mais longos, mas também aumenta o risco de acúmulo se o animal estiver desidratado. Antes de prescrever, sempre hidrato com solução salina apropriada — e não com soro fisiológico comum, porque a composição iônica precisa levar em conta os níveis de magnésio e sulfato que são críticos para essa classe.

Na alimentação, a diferença é ainda mais direta. Peixes ósseos incluem onívoros, herbívoros e carnívoros em enorme variedade. Cartilaginosos são quase exclusivamente carnívoros, e muitos têm requisitos nutricionais extremamente específicos. Vísceras de carne vermelha sozinhas causam deficiências de tiamina em algumas espécies de raias, levando a problemas neurológicos que são frequentemente confundidos com intoxicações. A correção envolve suplementação de tiamina e mudança para dieta formulada, mas o dano neurológico já instalado é irreversível na maioria dos casos. Se você está começando a trabalhar com ambos os grupos, o erro mais comum é tratar os cartilaginosos como peixes ósseos grandes. A dosagem, a via de administração, o tipo de fluxo de água e até a escolha do catéter mudam. Um catéter venoso jugular de 24g funciona bem em um dourado de porte médio. No mesmo calibre, em um tubarão de médio porte, você vai encontrar a parede venosa mais fina e menos suportável, além da dificuldade adicional de contenção. Eu prefiro começar com indução por banho em caixa de imersão com MS-222 diluído entre 100 e 150 mg por litro, seguido de manutenção com fluxo branquial controlado. O tempo de indução varia de três a oito minutos, dependendo da espécie e do tamanho.

Há ainda a questão da temperatura. Peixes ósseos em cativeiro geralmente toleram uma faixa térmica mais ampla. Elasmobranquios são muito mais sensíveis a variações superiores a dois graus Celsius em período curto. Mudanças bruscas de temperatura durante transferência entre tanques já me causaram choque térmico em arranhas que pareciam saudáveis. O protocolo que adoto é ajustar a temperatura em incrementos de meio grau a cada trinta minutos durante o trasferimento.