Piaget Sensorio Motor - Estágio Sensório-Motor: Desenvolvimento Infantil Segundo Piaget | PDF
Estágio Sensório-Motor: Desenvolvimento Infantil Segundo Piaget | PDF

O estádio sensório-motor na prática

A maior confusão que vejo em sala de aula ou em consultório é achar que o estádio sensório-motor dura dois anos e acabou. A realidade é bem mais granular. Piaget mapeou seis subfases, cada uma com marcos específicos de desenvolvimento, e o tempo varia bastante entre crianças. O que define o período não é a idade cronológica, mas a progressão de esquemas de ação que vão do reflexo puro até a representação mental.

Como funciona o piaget sensorio motor no dia a dia

O que você observa quando brinca com um bebê de oito meses é justamente o que a teoria descreve. A criança não tem noção de que um objeto continua existindo quando some da sua visão. Se você esconde um brinquedo debaixo de um paninho na frente dela, ela para de procurar. Não porque seja preguiçosa ou desatenta. Porque o objeto, para ela, efetivamente deixa de existir. Isso é o que chamamos de ausência de permanência do objeto, um conceito fundamental que marca toda a primeira metade desse estágio. Com o tempo, a criança começa a desenvolver o que Piaget chamou de circularidade secundária. Ela repete ações que produzem resultados interessantes. Bater na chocalho, jogar algo no chão e ver cair, sugar o dedo. Essas repetições não são acidentais. Elas são a base da construção do conhecimento nessa fase. A criança aprende através da ação direta, não da observação passiva.

Um detalhe que pouca gente leva em conta é o papel do acaso nessa evolução. Nos primeiros meses, os movimentos são reflexos e oscilações corporais. Aos quatro meses, surge a coordenação entre esquema visual e esquema motor. É quando o bebê realmente começa a alcançar objetos. Essa coordenação não é inata. Ela se constrói através de tentativa e erro, muitas vezes de forma bastante desajeitada nas primeiras semanas. Eu mesma já tive um caso bem claro disso com um sobrinho meu. Ele tinha cerca de treze meses quando percebemos que ele não procurava objetos escondidos. Levamos ao neuropediatra, fizemos exames, tudo. O resultado foi que a criança tinha um atraso leve no rastreamento visual, algo que não aparecia nos testes neonatais. A solução foi basicamente estimulação contínua com jogos de esconde-esconde, trocando gradualmente a visibilidade do objeto. Em três meses, a criança já buscava objetos parcialmente ocultos. Isso mostra que o desenvolvimento dentro do estágio sensório-motor não é rígido. Varía conforme as condições sensoriais e motoras de cada criança.

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A transição para a fase seguinte depende muito da internalização desses esquemas. Por volta dos dezoito meses, a criança já consegue representar mentalmente objetos e ações. Ela forma o que Piaget denominou de símbolos. Palavras começam a surgir, o jogo simbólico aparece, e a criança consegue simular ações sem executá-las fisicamente. Esse é o marco final do estádio sensório-motor. Há um ponto que costuma ser mal interpretado. A criança pequena não pensa como um adulto que esqueceu como pensar como criança. Ela opera com estruturas cognitivas diferentes. A lógica dela é concreta, baseada na percepção imediata. Tentar aplicar raciocínio abstrato com uma criança de dois anos é improdutivo. O melhor que se pode fazer é oferecer oportunidades de exploração sensorial e motora adequada à idade.

O estágio sensório-motor não termina de forma abrupta. Há uma sobreposição natural com o início do período pré-operacional. Crianças de dois anos e meio já usam símbolos, mas ainda dependem muito da ação concreta para compreender o mundo. Essa transição é gradual e varia de criança para criança. Alguns desenvolvem a representação mental mais cedo, outros levam mais tempo. Ambas as situações são normais dentro da variabilidade típica do desenvolvimento. O que a literatura às vezes não deixa claro é a importância dos fatores biológicos nesse processo. A maturação do sistema nervoso central é pré-requisito para que os esquemas cognitivos se completem. Crianças com deficiências motoras ou visuais podem apresentar trajetórias diferentes dentro do mesmo estágio. Isso não significa que elas não evoluem. Significa que os marcos podem aparecer em ordem ou tempo diferentes.

Para quem trabalha com desenvolvimento infantil, acompanhar essas fases exige observação constante, não aplicação de testes padronizados. A criança não mostra seu nível de desenvolvimento sensório-motor em avaliações formais. Ela mostra enquanto brinca, explora, investiga. Um objeto que cai, um paninho que cobre algo, uma palavra que tenta comunicar uma necessidade. São esses detalhes que revelam onde a criança está no espectro do desenvolvimento.