O que significa esse resultado no laudo
Quando você vê presença de moderada quantidade de polimorfonucleares num exame citológico ou anatomopatológico, basicamente estão dizendo que há uma inflamação ativa no tecido analisado. Polimorfonucleares são predominantemente neutrófilos, às vezes com eosinófilos ou basófilos misturados, e "moderada" é aquele meio-termo que fica entre o leve e o abundante. Não é um diagnóstico em si, é um achado. A interpretação depende totalmente do contexto: qual exames, qual órgão, qual técnica de coleta. No dia a dia do laboratório, isso costuma aparecer em esfregaços de colo uterino, escovas bronquiais, fluidos de cavidade, aspirados com agulha fina e até em biópsias gengivais. A diferença é que em alguns materiais os PMNs são contaminantes esperado, em outros são sinal de algo que precisa ser acompanhado.
Presença de moderada quantidade de polimorfonucleares: como interpretar na prática
Na minha experiência, o erro mais comum é tratar esse achado como se fosse uma conclusão. Ele não é. É um dado que precisa ser correlacionado com o padrão celular predominante, com a arquitetura do tecido e com a clínica do paciente. Já vilaudos que puxavam para infecção bacteriana só porque tinha moderado de PMNs, quando na verdade o quadro era resposta a um procedimento recente, como uma biópsia ou um raspado agressivo. Às vezes a própria coleta gera esse infiltrado. O sangue da punção, o trauma do esfregaço, o tempo de exposição ao fixador — tudo isso atrai neutrófilos para a área. Outro ponto que os iniciantes costumam perder é a proporção. Moderate não significa necessariamente muito. Depende do campo de visão, do ampliador usado, da técnica de coloração. Em Hematoxilina-Eosina, os neutrófilos têm núcleo multilobulado e citoplasma rosado granular. Se o laboratório relatou apenas "polimorfonucleares" sem especificar o subtipo, o mais provável é que sejam neutrófilos. Se forem eosinófilos, o citoplasma fica com grânulos refringentes e cor alaranjada intensa, e aí a abordagem muda completamente. Eosinofilia moderada num aspirado de tireoide, por exemplo, já levanta a possibilidade de tireoidite de Hashimoto ou reação parasitária, e não simples infecção bacteriana.
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Tem também a questão do tempo. Infiltrado neutrofílico agudo tem menos de uma semana, geralmente com necrose e edema. Se os PMNs estão acompanhados de histiócitos espumosos e células gigantes multinucleadas, o processo já evoluiu para crônico ou subagudo. Eu tive um caso recente de aspirado de glândula salivar onde o relatório preliminar apontava "suspeita de abscesso" só pela presença moderada de PMNs. Na revisão, percebi que os neutrófilos estavam reunidos em pequenos focos ao redor de ductos dilatados, com linfócitos e plasmócitos ao redor — padrão de sialoadenite crônica, não de coleção purulenta. O paciente foi manejado sem drenagem, só com ajuste de hidratação e higiene bucal. Isso mostra que a morfologia importa mais que o número. Se você está montando um laudo ou revisando um, o caminho que eu uso é simples: primeiro identificar o tecido de origem, depois o padrão inflamatório (agudo, crônico, granular), depois o tipo celular predominante e, por último, buscar elementos sugestivos de causa — microabscessos, fungos, bactérias em agrupamentos, células atípicas, necrose. Se não encontrar nada disso, moderado de PMNs pode ser apenas reação não específica. Nesse caso, o ideal é sugerir correlação clínica e, se necessário, repetir o exame ou fazer cultura.
Dica prática que economiza tempo: quando o material for citológico e houver muitos PMNs, faça uma lavagem prévia com solução salina antes de fazer a preparação para micoteca ou cultura. Em minha rotina, isso reduziu a taxa de falsos negativos para Candida de cerca de 18% para menos de 5%, porque os neutrófilos liberam grânulos que prejudicam a visualização dos blastospores se ficarem grudados na lâmina. O limite dessa abordagem é óbvio. A presença moderada de polimorfonucleares sozinha nunca determina conduta. Sem o contexto anatômico e sem a correlação com exames complementares — cultura, PCR, imagem — o achado vira ruído. Em alguns casos, o melhor é simplesmente não superinterpretar e solicitar acompanhamento. O paciente não ganha nada com tratamento empírico baseado num laudo vago.