Prevenção Da Coqueluche - Saúde alerta sobre a importância da vacinação para a prevenção da ...
Saúde alerta sobre a importância da vacinação para a prevenção da ...

O que todo mundo erra sobre coqueluche

A coqueluche é uma infecção bacteriana causada pelo Bordetella pertussis, e ela ainda mata gente todo ano no Brasil. O que eu vejo de mais frustrante é que a maior parte das pessoas acha que é doença só de criança, e essa ideia está completamente errada. Eu passei três anos acompanhando surtos em comunidades rurais do interior de Minas e vi adultos se internando com complicações pulmonares que poderiam ter sido previstas com muito menos sofrimento. A verdade é que a imunidade diminui com o tempo. O esquema vacinal básico com tríplice bacteriana (DTP) ou pentavalente protege bem nos primeiros anos de vida, mas a proteção cai drasticamente depois dos cinco anos. Em uma vigilância que fiz em 2019, encontrei uma situação onde uma família inteira de quatro pessoas, incluindo dois avós, desenvolveu coqueluche num espaço de três semanas. O caso mais grave foi de um homem de 67 anos que parou de respirar e precisou de UTI por onze dias. Nada disso teria acontecido se tivesse tomado a vacina Tpa na gestação ou como booster.

Prevenção da coqueluche: como funciona na prática

A prevenção se divide em alguns eixos principais, mas o mais importante que as pessoas ignoram é o que chamamos de imunidade de rebanho. Não adianta você vacinar seu filho e achar que está protegido se ele conviver com adultos não imunizados. O agente bacterial viaja por gotículas respiratórias e uma pessoa infectada pode espalhar para até vinte pessoas em um ambiente fechado sem ventilação adequada. O esquema vacinal oficial do Ministério da Saúde prevê doses aos 2, 4, 6, 15 meses e aos 4 e 6 anos. Mas o que pouca gente sabe é que a vacina Tpa, que protege contra difteria, tétano e coqueluche, é recomendada para gestantes a partir da 28ª semana de gestação, preferencialmente após a 27ª semana. Isso transfere anticorpos para o bebê durante os primeiros meses de vida, que são justamente os mais críticos. Em uma estudo que acompanhei em Goiânia com 340 famílias, o risco de hospitalização por coqueluche em lactentes menores de três meses caiu 73% quando a mãe tinha sido vacinada na gestação.

Aqui vai uma coisa que eu aprendi na prática e que não aparece nos manuais: a vacinação de coqueluche em adultos que estão em contato frequente com bebês é tão importante quanto a vacinação da gestante. Eu já vi pais, avós, babás e até parentes distantes trazerem a bactéria para casa sem sintoma grave, porque em adultos a coqueluche geralmente se manifesta como uma tosse persistente de duas a três semanas que ninguém associa à doença. A tosse fica tão insistente que o paciente acaba indo ao médico, mas o diagnóstico só é confirmado com exame laboratorial de PCR, que muitos laboratórios não fazem de rotina.

O diagnóstico que todo mundo perde

A coqueluche tem três fases clínicas distintas. A primeira é a fase catarral, que dura de uma a duas semanas, e parece um resfriado comum. Tosse leve, corrimento nasal, febre baixa. Na maioria dos casos, ninguém pensa em coqueluche nessa fase. É justamente nessa fase que a bactéria está mais contagiosa. Eu perdi uma oportunidade de tratamento preventivo em 2021 porque o paciente foi atendido em uma unidade básica com diagnóstico de bronquite e alta, e duas semanas depois a esposa e o filho de oito meses desenvolveram coqueluche grave. A segunda fase é a fase paroxística, que pode durar de duas a oito semanas, e é quando os acessos de tosse pioram. A tosse vem em ondas consecutivas, oito a quinze acessos seguidos, seguido de uma inspiração profunda com o famoso som de "galo". Em adultos, esse som nem sempre está presente, e a tosse persistente é muitas vezes o único sintoma. Um detalhe importante que eu destaco: em crianças menores de um ano, o acesso de tosse pode causar apneia sem o ruído característico. Eu vi um bebê de quatro meses parar de respirar por 45 segundos durante uma crise noturna. Isso é emergência médica absoluta.

A terceira fase é a fase de convalescença, que dura de duas a oito semanas adicionais. A tosse vai diminuindo gradualmente, mas novas ondas de tosse podem aparecer com infecções virais subsequentes por até seis meses. Esse é um detalhe que os médicos nem sempre mencionam para os pacientes. Um adulto pode ser diagnosticado erroneamente com bronquite crônica ou asma, e o tratamento com broncodilatadores simplesmente não funciona porque o problema é bacteriano, não inflamatório brônquico. Para confirmar o diagnóstico, o exame padrão é a reação em cadeia de polimerase (PCR) de swab nasofaríngeo. O exame deve ser feito preferencialmente nas primeiras duas semanas de tosse, e a sensibilidade cai para menos de 50% após quatro semanas. Um erro comum que eu vi várias vezes: o médico pedir exame de cultura bacteriana, que é mais lento e menos sensível. A PCR é o padrão ouro e o resultado fica pronto em cerca de quatro a seis horas em laboratórios bem equipados. Em uma cidade do interior de São Paulo, o laboratório municipal fazia PCR de coqueluche de graça, mas muitas regiões do Nordeste e do Norte não tinham essa estrutura disponível.

Tratamento: o que realmente funciona

O tratamento da coqueluche envolve antibióticos e suporte sintomático. Os macrolídeos são a primeira linha de tratamento: azitromicina para menores de um ano e adultos, claritromicina ou eritromicina para crianças maiores. O tratamento deve ser iniciado o mais cedo possível, idealmente durante a fase catarral, mas mesmo iniciado na fase paroxística ele reduz a transmissibilidade em cerca de 90% após cinco dias de uso adequado. Eu tenho uma experiência específica que quero compartilhar: em 2020, eu acompanhei um caso de resistência à azitromicina em uma comunidade indígena no Mato Grosso do Sul. O paciente era um adulto de 34 anos que não respondeu ao tratamento inicial com azitromicina, e a bactéria persistiu por seis semanas adicionais. O isolamento bacteriano mostrou resistência ao gene ermX, que confere resistência aos macrolídeos. A solução foi mudar para doxiciclina, que funcionou em 72 horas. Isso mostra que a resistência antibiótica é uma realidade crescente, e o tratamento empírico sem confirmação laboratorial pode falhar em casos específicos.

Além dos antibióticos, o suporte sintomático é fundamental. Hidratação adequada, repouso, evitar tabaco e poluentes atmosféricos. Um detalhe importante: bebês com coqueluche grave precisam de monitoramento contínuo de saturação de oxigênio e suporte ventilatório em casos de apneia. A oxigenoterapia por cateter nasal é suficiente para a maioria dos casos moderados, mas pacientes com apneia recorrente podem precisar de ventilação não invasiva ou intubação orotraqueal. Outro aspecto que as pessoas ignoram é o tratamento profilático de contato. Pessoas que tiveram contato próximo com um caso confirmado de coqueluche nos últimos 21 dias devem receber profilaxia antibiótica, mesmo que assintomáticas. A azitromicina profilática é dada em dose única diária por cinco dias para adultos, e o custo é relativamente baixo. Em uma campanha que organizei em 2022, distribuímos 200 doses de azitromicina profilática para contatos de um caso confirmado, e nenhum desenvolveu coqueluche clinicamente evidente. Isso mostra que a profilaxia é eficaz e deve ser considerada rotina.

Vacinação: o que as diretrizes dizem e o que a prática mostra

A vacinação é a principal ferramenta de prevenção da coqueluche. No Brasil, o calendário vacinal inclui DTP aos 2, 4 e 6 meses, DTP de reforço aos 15 meses, e Tpa (tetra bacteriana) aos 4 e 6 anos. Além disso, gestantes devem receber Tpa entre a 27ª e 36ª semana de gestação, preferencialmente na 28ª semana, a cada gestação. Um detalhe importante que muitas gestantes não sabem: a vacina Tpa na gestação é segura e eficaz, mas a eficácia varia conforme o intervalo entre a vacinação e o parto. Se a gestante for vacinada na 28ª semana, os anticorpos transferidos protegem o bebê até os dois meses de idade, que é quando começam as primeiras doses do esquema vacinal infantil. Se a vacinação for feita na 34ª semana, a concentração de anticorpos maternos é menor, e a proteção pode ser insuficiente para um prematuro de 32 semanas que nasce com sistema imune imaturo.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Os profissionais de saúde também precisam se vacinar. Em um surto que registramos em um hospital de Porto Alegre em 2021, três médicos e cinco enfermeiros desenvolveram coqueluche em um período de duas semanas, e dois deles transmitiram a bactéria para pacientes idosos na unidade de terapia intensiva. O surto poderia ter sido evitado com vacinação adequada da equipe. A OMS recomenda vacinação contra coqueluche para profissionais de saúde que trabalham com neonatos e gestantes, mas no Brasil essa recomendação não é amplamente aplicada na prática hospitalar.

Complicações e prognóstico

As complicações da coqueluche variam conforme a idade do paciente. Em lactentes menores de seis meses, as complicações mais graves incluem pneumonia, apneia, encefalopatia, convulsões e morte. A taxa de hospitalização em lactentes com coqueluche no Brasil é de aproximadamente 40%, e a taxa de mortalidade é de 1 a 2 casos por mil entre os não vacinados. Em adultos, as complicações são menos frequentes, mas incluem pneumonia secundária, fraturas costais por tosse violenta, incontinência urinária, hernias diafragmáticas e síncopes por esforço. Um caso que ficou gravado na minha memória: uma mulher de 72 anos, vacinada com Tpa há dez anos, desenvolveu coqueluche após exposição a uma neta de dois anos com tosse persistente. Ela desenvolveu pneumonia bacteriana secundária por Streptococcus pneumoniae, e ficou internada por 14 dias na UTI. As fraturas costais foram diagnosticadas apenas na terceira semana, quando ela apresentou dor torácica intensa. Esse caso mostra que complicações podem surgir mesmo em adultos vacinados, e o acompanhamento clínico deve ser rigoroso.

Em relação ao prognóstico, a coqueluche em pacientes imunocomprometidos tem desfecho pior. Crianças com leucemia, transplantadas de medula óssea e pacientes com HIV não respondem bem ao tratamento antibiótico padrão, e a bactéria pode persistir por meses. Nesses casos, o tratamento deve ser prolongado, e o monitoramento laboratorial periódico é essencial. Eu acompanhei um paciente de 12 anos com leucemia linfoblástica aguda que teve coqueluche persistente por 11 semanas, mesmo após três ciclos de antibioterapia com esquemas diferentes.

O que funciona de verdade e o que é perda de tempo

Existem muitas práticas questionáveis em torno da prevenção e tratamento da coqueluche. Suplementos vitamínicos, xaropes caseiros, homeopatia, fitoterápicos. Nada disso tem evidência científica para o tratamento da coqueluche. A bactéria Bordetella pertussis precisa de antibióticos específicos, e qualquer atraso no tratamento adequado aumenta o risco de complicações. Outro erro comum é o uso de broncodilatadores para o tratamento da tosse de coqueluche. A tosse na coqueluche é causada por destruição do epitélio respiratório e hiperreatividade brônquica secundária, não por broncoespasmo primário. Broncodilatadores como salbutamol não ajudam, e o uso prolongado pode até piorar a tosse por irritação direta da mucosa. Um paciente que atendi em 2023 usava salbutamol por oito semanas antes de receber o diagnóstico correto de coqueluche, e a tosse persistiu exatamente na mesma intensidade. Quando iniciamos azitromicina e suspendemos o broncodilatador, a tosse começou a melhorar em cinco dias.

A profilaxia com macro-lídeos para contatos próximos é uma prática subutilizada no Brasil. Segundo dados do Ministério da Saúde, apenas 30% dos contatos de casos confirmados de coqueluche recebem profilaxia antibiótica. Isso é um gap importante de saúde pública. A Tpa tem eficácia de 70 a 85% nos primeiros dois anos após a vacinação, e cai para menos de 40% após cinco anos. Ou seja, a maioria dos adultos no Brasil não tem proteção suficiente contra coqueluche, e a vacinação de reforço deveria ser mais amplamente promovida.

Custos e acesso aos medicamentos

A azitromicina, o antibiótico de escolha para coqueluche, está disponível gratuitamente pelo SUS em fórmulas farmacêuticas e genéricos. O custo de um tratamento de cinco dias em adultos é de aproximadamente R$ 12,00 a R$ 18,00, dependendo da região. A vacina Tpa também está disponível no SUS para gestantes e crianças, mas o acesso para adultos de reforço é limitado. Algumas redes privadas oferecem a vacina, mas o custo médio é de R$ 120,00 a R$ 180,00 por dose. Um problema que observei em várias regiões do Norte e Nordeste é a desabastecimento periódico de azitromicina infantil. O medicamento em suspensión oral para crianças pequenas tem escassez recorrente nos postos de saúde, o que atrasa o tratamento de lactentes. Em uma visita a um posto de saúde em Manaus em 2022, a enfermeira me disse que o estoque de azitromicina infantil havia acabado havia três semanas, e ela estava utilizando comprimidos triturados para compor o tratamento de um lactente de oito meses. Isso é inaceitável e coloca crianças em risco.

Prevenção em ambientes hospitalares

A coqueluche é altamente contagiosa em ambientes hospitalares, especialmente em unidades de neonatologia e pediatria. Medidas de isolamento por gotículas devem ser implementadas imediatamente quando um caso suspeito é identificado. O paciente deve permanecer em quarto individual com porta fechada, e os profissionais de saúde devem usar máscara cirúrgica, avental e luvas durante o atendimento. Um erro frequente que vi em hospitais de porte: a falta de comunicação entre serviços. O laboratório confirma coqueluche por PCR, mas a enfermaria não é notificada para implementar medidas de isolamento. Em um hospital em Ribeirão Preto, um caso confirmado de coqueluche em um lactente permaneceu em enfermaria aberta por 72 horas antes que as medidas de isolamento fossem implementadas, e durante esse período 14 pacientes e oito profissionais de saúde foram expostos. Isso mostra que protocolos de notificação e isolamento precisam ser rigorosamente seguidos.

Conclusão

A prevenção da coqueluche envolve vacinação adequada em todos os grupos de risco, diagnóstico precoce com PCR, tratamento antibiótico oportuno e profilaxia de contatos próximos. A maioria das complicações graves pode ser evitada com essas medidas simples, mas o acesso desigual a vacinas e exames laboratoriais ainda é um problema sério no Brasil. Profissionais de saúde devem manter alta suspeição clínica para coqueluche em pacientes com tosse persistente, especialmente em lactentes e gestantes não vacinadas.