Professor E Pesquisador - Estudos de pesquisa professor de ciências e alunos fazendo trabalho de ...
Estudos de pesquisa professor de ciências e alunos fazendo trabalho de ...

O que é ser professor e pesquisador no Brasil hoje

Afigura-se como uma coisa simples: dá aula pela manhã, pesquisa à tarde. Na prática, ninguém que lived isso conta dessa forma. O modelo professor e pesquisador nas universidades públicas brasileiras — e em muitas privadas também — exige que você divida tempo entre ensino, pesquisa e gestão, com salários que muitas vezes não acompanham nenhuma dessas frentes de forma adequada. Eu entrei numa universidade federal há cerca de oito anos como docente de nível doutor. Na minha primeira semana, o coordenador me disse que eu teria carga horária de 40 horas semanais distribuídas entre ensino, orientação e produção acadêmica. O problema é que nenhuma das três tinha horário definido. Eu passava sexta-feira até tarde corrigindo trabalhos de alunos, sábado respondendo pedidos de orientação de mestrado, domingo tentando escrever um artigo pra frente do prazo de submissão. E tudo isso com o salário que já era apertado pra começar.

A diferença entre professor e pesquisador

Ser professor e pesquisador não significa necessariamente fazer as duas coisas com a mesma intensidade. No sistema brasileiro, existem categorias diferentes no CNPq e nas instituições. Um professor com dedicação exclusiva (DE) não pode ter vínculo empregatício fora da universidade. Isso te obriga a viver basicamente do salário universitário, que varia muito dependendo da instituição e do estado. Já um professor com regime de 40 horas — ou até mesmo 20 horas — pode ter outro emprego, mas precisa comprovar que o tempo restante é dedicado às atividades acadêmicas. Uma coisa que ninguém te avisa antes de entrar nessa: o tempo de pesquisa raramente é protegido. Reunia com colegas todos os meses tentando montar um grupo de pesquisa formal. Conseguimos aprovar um projeto de pesquisa no site de fomento, mas na prática as demandas administrativas da faculdade — comissões, eventos, disciplinas novas — conspuravam qualquer janela que a gente abrisse. Só depois de dois anos percebi que o caminho mais eficiente era aceitar que a pesquisa aconteceria nos intervalos, e não em blocos dedicados.

Como conseguir financiamento como professor e pesquisador

O principal canal no Brasil é o CNPq. As editais de produtividade em pesquisa (nível 1A, 1B, 2, etc.) são as mais cobiçadas, mas também as mais difíceis. O critério de avaliação olha produção científica dos últimos cinco anos, mas com um viés que muitos consideram injusto: artigos em revistas de impacto estrangeiro pesam mais do que livros ou trabalhos em revistas nacionais de qualidade equivalente. Eu perdi uma avaliação de produtividade exatamente por causa disso — tinha dois livros publicados em editora universitária reconhecida, mas o avaliador não sabia como pontuar aquilo dentro da rubrica padrão. Uma alternativa que funcionou pra mim foi buscar editais estaduais. FAPESP, FAPEX, FUNADESP, FAPERJ,Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais — cada uma tem seu perfil de prioridade. Algumas focam mais em aplicação prática, outras em pesquisa básica. Conheço pesquisadores que vivem de bolsas de fomento estaduais porque o CNPq não consegue suprir a demanda. O lado negativo é que essas agências mudam políticas frequentemente. O que funcionava há dois anos pode não funcionar hoje.

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O que acontece quando você não consegue publicar

Aqui vai um insight contraintuitivo: no modelo professor e pesquisador, publicar muito nem sempre é bom se você não tiver estratégia. Um colega meu publicava seis artigos por ano em revistas de médio impacto. O problema é que ele nunca conseguia tempo pra preparar trabalhos de alto impacto. Anos depois, quando precisava se avaliar pra progresso de carreira, percebeu que tinha quantidade mas não tinha a densidade que as bancas procuravam. Ele agora está trabalhando em dois ou três projetos grandes de uma vez, com coautorias estratégicas, em vez de correr atrás de publicações individuais. Outro problema real é o burnout. Professores e pesquisadores que tentam equilibrar ensino pesado com pesquisa ativa frequentemente entram em ciclos de esgotamento. Eu vi colegas saírem da universidade após cinco ou seis anos exaustos. Não por falta de talento, mas porque o sistema não oferece estrutura — salas de pesquisa, apoio administrativo, redução de carga horária para quem está produzindo tese de doutorado. A única saída que eu vi funcionar foi negociar redução de turma por um período, mesmo que temporariamente, pra conseguir entregar um projeto de pesquisa significativo.

Dica prática: como organizar o tempo sem enlouquecer

Não existe fórmula mágica, mas o que funcionou pra mim foi separar blocos de tempo por tipo de atividade. Segunda e terça de manhã são apenas para escrever. Nada de reuniões, nada de correção. Quarta e sexta de manhã são para ensino e orientação. Sexta à tarde é para administrativa, mas só o essencial — e-mails, preenchimento de sistemas, comunicação com colegas. Sábado não trabalho, exceto em situações excepcionais que eu mesmo previ com antecedência. O problema é que isso exige disciplina e, muitas vezes, enfrentamento com colegas e dirigentes que não entendem por que você não está disponível num sábado pra resolver algo "rápido". Eu levei uns dois anos pra conseguir impor essa rotina sem parecer desinteressado ou preguiçoso. A verdade é que a maioria dos professores e pesquisadores que têm carreira sustentável construída não por trabalhar mais horas, mas por trabalhar melhor nas horas que têm.

Quando o modelo professor e pesquisador não funciona

Em universidades privadas de pequeno ou médio porte, o modelo frequentemente colapsa. A carga de ensino é tão alta — às vezes 40 ou 48 horas semanais apenas de sala de aula — que não sobra tempo material pra pesquisa. Nesses casos, o título de professor e pesquisador é mais uma formalidade do que uma realidade. Muitos acabam migrando pra instituições públicas, ou deixando a docência totalmente de lado pra focar em pesquisa como autônomos, embora isso também tenha seus problemas — principalmente de acesso a infraestrutura e bancas de avaliação. Se você está pensando em seguir essa carreira, a pergunta que eu faria não é se você gosta de pesquisar ou de dar aula. A pergunta é se você consegue sustentar o ritmo por dez anos sem se ressentir. Porque esse é o prazo real de muitos ciclos de produção acadêmica: dez anos pra construir uma trajetória mínima reconhecida, com altíssimas variáveis de felicidade pessoal no meio do caminho.