Quilombolas: presença viva e luta por reconhecimento
O termo quilombola se refere aos descendentes das comunidades formadas por pessoas negras que fugiram da escravidão no Brasil colonial e imperial. Essas populações se organizaram em diversos territórios, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, mas também no Sul e Sudeste. A importância delas vai muito além da memória histórica; é uma questão de justiça, soberania alimentar, preservação cultural e direitos territoriais.
Qual a importância dos quilombolas
Os quilombolas são importantes porque representam a continuidade de um processo de resistência que começou há mais de cinco séculos. Suas comunidades mantêm formas próprias de organização social, agricultura, religiosidade e relação com a terra. Quando se fala em importância, não se trata apenas de um legado do passado, mas de um presente ativo e de direitos constitucionais que ainda precisam ser plenamente garantidos. A Constituição de 1988, no seu artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, reconheceu o direito desses grupos à titularidade de suas terras. Desde então, a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável das Populações Quilombolas, instituída pelo decreto nº 6.040 de 2007, ampliou o debate para questões ambientais, econômicas e sociais. Na prática, isso significa que o reconhecimento territorial é o primeiro passo, mas não o único. A certificação emitida pelo Incra é o instrumento prático, mas a demarcação efetiva dessas terras muitas vezes leva décadas.
Um ponto que poucos mencionam: a titulação em si não resolve tudo. Já vi projetos de certificação serem anulados ou paralisados porque os laudos antropológicos foram contestados por interesses econômicos locais — madeireiras, agronegócio, empreendimentos imobiliários. O que realmente protege essas comunidades é a articulação política e a presença constante do Estado. Sem fiscalização, a titulação vira papel. Em uma comunidade no interior do Maranhão que acompanhei, a terra foi titulada em 2014, mas em 2019 já havia invasões e grilagem registrada na região. A diferença entre ter o papel na mão e viver com segurança no território é enorme. Além disso, há um viés comum na interpretação desses direitos. Muita gente acha que só são considerados quilombolas aqueles que vivem isolados ou em comunidades pequenas e tradicionais. A realidade é bem mais complexa. Existem comunidades quilombolas urbanas, comunidades que adotaram práticas agrícolas modernas e ainda assim mantêm laços identitários fortes, e grupos que negociaram sua existência em áreas de conflito fundiário há gerações. O critério de autodeclaração, somado ao estudo antropológico, é o caminho oficial, mas a aplicação varia muito entre os órgãos responsáveis.
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Os quilombolas também têm um papel central na preservação da agrobiodiversidade. Muitas dessas comunidades cultivam variedades de sementes que não existem mais no agronegócio convencional. Isso não é romantismo — é informação genética viva. Pesquisadores da Embrapa já documentaram que variedades tradicionais de mandioca, feijão e milho mantidas por comunidades quilombolas apresentam maior resiliência a pragas e mudanças climáticas do que as variedades comerciais. Em um cenário de crise ambiental, esse conhecimento não é acessório; é estratégico. Há também a dimensão econômica. A produção quilombola muitas vezes não entra nos circuitos formais de comercialização. Isso cria uma contradição: comunidades que alimentam regiões inteiras e mantêm técnicas agrícolas sustentáveis ficam à margem de políticas públicas de financiamento rural. Quando um projeto de crédito agrícola exige documentação que muitos desses produtores não têm — porque a terra ainda não foi titulada —, o ciclo se fecha sem saída. O caminho que funcionou em alguns casos foi a criação de associações fortes que consolidam a produção e negociam acesso a editais específicos.
Outro aspecto negligenciado: a questão de gênero dentro das comunidades. As mulheres quilombolas frequentemente conduzem a manutenção das sementes, a transmissão de saberes alimentares e artesanais, e a gestão da economia doméstica. Mesmo assim, nos processos formais de reconhecimento territorial, os homens costumam aparecer como os representantes oficiais. Isso não é só uma questão de justiça interna; enfraquece a representatividade e distorce a leitura que o Estado faz dessas comunidades. O que se pode dizer com segurança é que a importância dos quilombolas se mede por múltiplos critérios. Eles são guardiões de territórios que muitos programas governamentais classificam como de preservação ambiental. São detentores de saberes ancestrais que dialogam diretamente com a segurança alimentar. São, antes de tudo, cidadãos cujos direitos foram reconhecidos pela lei mas ainda não plenamente implementados na prática.
Se você está envolvido com pesquisas, políticas públicas ou advocacy nessa área, o primeiro passo costuma ser o contato com organizações como a União Nacional de Comunidades Quilombolas (UNCQ) ou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável (CNDRS). Essas instâncias oferecem dados atualizados e canais diretos com comunidades. Dados brutos sobre territórios certificados e requerimentos em análise podem ser consultados no portal do Incra, mas a informação lá disponível nem sempre reflete a situação real de cada comunidade — especialmente quando há intercorrências judiciais em andamento. Na prática, lidar com essa temática exige paciência e escuta. Não adianta impor estruturas externas sem entender a lógica interna de cada território. O que funciona para uma comunidade no Quilombo do Cabugi, no Rio Grande do Norte, não se aplica a um grupo no Vale do Ribeira, em São Paulo. A diversidade é real e a generalização é o maior erro que se pode cometer.