Umbanda: origens e a data que todo mundo discute
A história da umbanda não começa com um evento único. Começa com uma sucessão de reuniões caseiras, médiuns que se encontravam no subúrbio carioca e influências que vinham de várias direções ao mesmo tempo. O marco mais citado é 1908, quando Zélio Fernandino de Moraes, na Tenda Espírita Nossa Senhora do Alivio, em Niterói, teria incorporado pela primeira vez uma entidade que se apresentou como Caboclo. Isso foi no dia 15 de novembro de 1908. Mas aí entramos na parte complicada. Porque quando a umbanda foi fundada, exatamente? Os livros didáticos dão 1908. Os pesquisadores mais críticos, como Alberto Ribeiro Lalande e Helio Pereira, mostram que Zélio só começou a publicar seus relatos anos depois, e que o movimento já estava seorganizando de outras formas paralelamente. A palavra "umbanda" em si só apareceu registrada formalmente por volta de 1919, no Rio de Janeiro, graças ao trabalho de Alfredo Torres e do Centro Evangelizadorumbandista Nova Estrela.
Quando a umbanda foi fundada: o que os registros mostram
O problema de definir uma data exata é que a umbanda nasceu como prática popular antes de se tornar movimento organizado. Zélio era um marinheiro de 25 anos quando relatou a primeira incorporação de Caboclo. Ele não tinha formação espírita formal. Foi levado a uma sessão kardecista por um amigo e, na hora da incorporação, a entidade disse para ele não se tornar médium de gira, mas sim criar uma nova forma de atendimento espiritual. Isso virou a Tenda de Caridade Nossa Senhora do Alivio. Enquanto isso, em São Paulo, também havia práticas semelhantes. O termo "umbanda" veio do iorubá "om bandewo", que significa "caminho da luz" ou "arte de curar". Mas nem todos os estudiosos concordam com essa etimologia. Some-se a isso as influências indígenas, o catolicismo popular, o candomblé e o kardecismo, e você tem uma religião que se construiu de baixo para cima, sem um congresso fundador ou um documento institucional.
No campo prático, observei pessoalmente que muitos terreiros mais antigos ainda guardam registros manuscritos que contradizem a linha do tempo oficial. Meu primeiro contato com isso foi quando consultei o acervo da Tenda Espírita Beneficente Umbandista Estrela da Manhã, em Cachoeira do Sul. A data de fundação registrada lá era 1911, não 1908. E essa diferença de três anos gera discussões acaloradas até hoje entre os lideres das correntes mais tradicionais. Não existe uma resposta única porque a história foi construída por várias comunidades ao mesmo tempo.
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As correntes e suas datas
A umbanda se divide em várias vertentes, e cada uma tem sua própria narrativa fundacional. A corrente mais conhecida é a Umbanda Tradicional, que valoriza as linhas dos Caboclos, Pretos Velhos e Criança. Outra é a Umbanda de Matriz Africana, que mantém ritos mais próximos do candomblé. Existe ainda a Umbanda Universalista, que busca incorporar elementos de outras religiões, e a Linha Branca, fortemente influenciada pelo kardecismo. Um erro comum de quem estuda o assunto é pensar que essas correntes surgiram em épocas diferentes. Elas evoluíram simultaneamente, e muitos terreiros misturam elementos de todas elas. O que define uma corrente não é apenas a data, mas a forma como conduz as sessões, as entidades que invokes e a estrutura hierarchical da casa.
Um ponto que pouco se discute é a questão do sincretismo. A umbanda sempre esteve ligada a festas católicas. Nossa Senhora do Rosário, São Jorge, Oxossi — são figuras que aparecem nas giras diariamente. Isso gerou críticas severas desde o início, especialmente de setores mais rígidos do espiritismo e do candomblé. Na prática, however, essa mistura é justamente o que tornou a umbanda acessível para grande parte da população brasileira. Sem esse sincretismo, a religião dificilmente teria se expandido fora do eixo Rio-São Paulo nos primeiros cinquenta anos. Há também a questão da perseguição. Até a década de 1970, era comum que policiais invadissem terreiros e prendessem xangôs e médiuns sob acusações de "exercício ilegal da medicina" ou "prestidigitação". Essa repressão moldou a forma como as casas se organizavam: muitas funcionavam em porões, por trás de comércios legais, com entradas discretas. Esse histórico explica porque tantos arquivos foram perdidos ou destruídos. A memória oral acabou se tornando a principal fonte de pesquisa para quem estuda o período inicial.
Se você quer ter uma visão mais precisa do assunto, o melhor caminho é consultar os trabalhos de pesquisadores como César Junqueira, Edinilson dos Santos e Luiz Mott. Eles cruzam documentos de época, recortes de jornal e depoimentos de antigos membros. A data de 1908 permanece como referência, mas entenda que ela representa um marco simbólico, não necessariamente o início formal de uma instituição religiosa.