Quando Usar Apud - Citação de citação (apud): como fazer, exemplos - Brasil Escola
Citação de citação (apud): como fazer, exemplos - Brasil Escola

O que é o apud e por que ele existe

O termo apud vem do latim e significa literalmente "em" ou "junto com", mas no mundo acadêmico ele carrega um peso bem específico: serve para indicar que você não leu uma obra diretamente, e sim que ela foi citada por outro autor. É a forma de dizer, sem mentir, que você viu tal informação num livro ou artigo de Fulano, que por sua vez a retirou de Sicrano. Não é uma fuga do trabalho. É reconhecimento de trajetória. Na prática, isso aparece quando alguém escreve sobre Rousseau, mas só consultou a citação que Marx fez dele. Ou quando uma tese em história contemporânea precisa acessar um documento de 1890 que está disponível apenas num volume organizado por um pesquisador dos anos 2000. Nesses casos, usar o apud não é fraqueza. É honestidade intelectual.

Quando usar apud de forma correta

A regra básica é simples, mas a execução cobra detalhes que muitos estudantes ignoram. Você usa o apud quando a fonte primária está inacessível para você — e inacessível pode significar várias coisas: o livro está esgotado há décadas, está em outra língua e você não domina, está num acervo restrito de alguma universidade estrangeira, ou simplesmente nunca foi publicado como livro independente. A chave aqui é a palavra para você. Se você conseguiu ler o original, o apud não se aplica, independente de quão difícil foi achar. Em normas como a ABNT, a estrutura segue um padrão fixo. Você coloca o autor que você realmente leu, depois vem o apud, e em seguida o autor da obra original. Um exemplo prático: se você leu um artigo de Souza em 2018 que cita uma frase de Machado de Assis de 1888, a referência ficaria assim: SOUZA, 2018 apud MACHADO DE ASSIS, 1888. Na bibliografia, entra apenas Souza, porque foi dele que você tirou a informação. Machado de Assis vai no corpo do texto, não na lista final.

Isso gera confusão com frequência. Li uma correção num trabalho de mestrado onde o aluno colocava os dois autores na bibliografia, como se tivessem sido lidos diretamente. O orientador deixou passar. Isso é errado, e quem estiver escrevendo agora pode evitar esse erro sem esforço.

Como aplicar na prática

Vamos ir direto ao funcionamento. Suponha que você esteja pesquisando sobre teoría crítica e encontrou uma passagem interessante num livro de 1995 de Theodor Adorno que cita Hegel. Você não tem o livro de Hegel. Tem apenas a edição da Editora Abril de 1995, pag. 142. Nesse caso, você cita Adorno apud Hegel. No texto, escreve algo como "A dialética do esclarecimento revela..., segundo Hegel (ADORNO, 1995 apud HEGEL, 1770, p. 142)." O ano entre parênteses é o de Adorno, porque é a edição que está nas suas mãos. O ano de Hegel entra só para identificação histórica, não como fonte consultada. Se a fonte primária tiver data conhecida, coloque-a. Se não tiver, não invente. Deixe claro que o autor original não tem data específica acessível. Isso evita que parecer que você está escondendo algo, quando na verdade só não tem informação disponível.

Outro ponto que muita gente erra: o apud não serve para resumos, sinopses ou comentários sobre uma obra. Ele serve exclusivamente para citações diretas ou indiretas que passaram por intermediação. Se você leu um livro que apenas comenta autores anteriores, isso é outro tipo de situação e pode merecer tratamento diferente dependendo da norma que você segue.

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Um problema real que encontrei

Eu estava revisando um manuscrito sobre história das ideias políticas e o autor quis citar Gramsci usando como intermediário um artigo de um colega italiano de 2003. Até aí tudo certo. O problema veio quando o artigo em questão não informava em qual obra de Gramsci aquela citação estava sendo feita. Eu perguntei ao autor se ele conseguia rastrear a fonte primária. Ele disse que não. A solução que funcionou foi incluir uma nota de rodapé explicando que a obra gramsciana referenciada pelo autor italiano não foi possível verificar, mas que a passagem aparecia conforme indicada. Isso não resolve a falta de acesso à fonte primária, mas mostra transparência. Revisores e orientadores preferem isso a simplesmente copiar a citação de segunda mão sem observar a lacuna. Em outro caso, encontrei uma situação mais complicada. Uma estudante havia usado o apud para citar Foucault através de um compilado de entrevistas. O compilado, por sua vez, não indicava a obra original de Foucaut de onde aquela falara fora retirada. Ela simplesmente anotou o ano do compilado e pronto. Quando fui checar, percebi que o conteúdo poderia estar em várias obras diferentes do autor francês, e o contexto ia mudar completamente a interpretação. Pedi que ela encontrasse a obra original. Levou duas semanas. No final, descobrimos que a passagem vinha de "Vigiar e Punir", edição de 1975, e não de "História da Sexualidade", como o compilado sugeria implicitamente. Errar isso poderia ter gerado um erro conceitual grave no artigo dela. Esse tipo de situação acontece mais do que se imagina.

Limitações e alternativas

O uso do apud tem um custo: ele afasta você da fonte original, o que significa perder contexto, nuances ePossibilidade de mal-interpretar o que o autor pretendia dizer. Em trabalhos acadêmicos sérios, especialmente em doutorados, o uso recorrente de apud pode ser visto como sinal de pesquisa superficial. Nem sempre é justo, mas é a realidade do campo. Se possível, sempre busque a fonte primária. Existem alternativas quando o acesso direto é impossível. Muitas bibliotecas universitárias oferecem serviço de empréstimo entre bibliotecas. some publishers disponibilizam PDFs sob demanda por um valor simbólico. Há também repositórios abertos, como a SciELO, o JSTOR, e bibliotecas digitais de universidades europeias que frequentemente disponibilizam obras clássicas gratuitamente. Não desista na primeira barreira.

Outra alternativa é solicitar ao autor da obra intermediária que indique a página exata da fonte primária. Muitos pesquisadores respondem a pedidos assim, especialmente se forem feitos de forma educada e direta. É um processo que leva tempo, mas compensa quando o trabalho exige rigor.

Erros comuns que devem ser evitados

Um erro frequente é confundir apud com et alii ou com simples citação de autores . O apud tem estrutura própria e não pode ser substituído por "segundo" de forma solta. Outro erro é colocar mais de um nível de apud. Eu vi uma referência do tipo "Autor A, 2010 apud Autor B, 2005 apud Autor C, 1990". Isso não faz sentido e deve ser evitado. Se você precisa de três níveis de intermediação, há algo errado com a sua pesquisa. Recoloque o foco na fonte primária ou simplifique o caminho. Também é comum usar o apud para dados secundários que não são citações. Se você está resumindo uma ideia geral de um autor, mas encontrou essa ideia num texto de outro autor, o apud pode não ser a melhor opção. Nesse caso, pode ser mais adequado reformular a citação ou buscar a obra original.

Por fim, vale lembrar que algumas normas de citação tratam o apud de maneira diferente. A APA, por exemplo, tem uma estrutura própria para referências de segunda mão. Se você está escrevendo para uma revista ou programa que segue a APA, verifique as instruções específicas antes de aplicar o modelo padrão. Normas mudam, e o que funciona numa área pode não funcionar noutra. O uso correto do apud depende de prática e atenção aos detalhes. Não existe atalho. Cada situação pede uma análise individual. O importante é não tratar o termo como mero formalismo, mas como ferramenta de precisão acadêmica.