Quem Criou O Machismo - Breve historia del machismo | Público
Breve historia del machismo | Público

O que é machismo

Machismo é um conjunto de crenças e práticas sociais que colocam o homem como figura central de autoridade, poder e decisão, enquanto relega a mulher a papéis subordinados. Não é um conceito acadêmico fechado; é algo que se reproduz no dia a dia, em famílias, no trabalho, na cultura popular, e nas estruturas institucionais. O termo surgiu no espanhol colonial, por volta dos séculos XVI e XVII, para descrever uma atitude de hombría exaggerated, ou seja, uma masculinidade performática que valorizava a dominação, a resistência emocional e o controle sobre as mulheres. A palavra em si vem de "macho", mas o conceito cultural é bem mais antigo e multifacetado.

Quem criou o machismo

Não houve um criador único. O machismo, tal como o conhecemos hoje, é resultado de camadas históricas superpostas: o patriarcado pré-existente nas sociedades ibéricas medievais, a colonização europeia nas Américas, a imposição de estruturas familiares católicas, e a adaptação local em cada região. No Brasil, por exemplo, o machismo teve contribuições específicas da cultura escravagista, onde a figura do senhor de engenho concentrava poder absoluto sobre mulheres, negras e brancas, e sobre os homens escravizados também, mas de maneira diferente. Acadêmicos como Simone de Beauvoir, em "O Segundo Sexo" (1949), e depois estudiosos latino-americanos como Raquel Gutiérrez e Pablo González Casanova, ajudaram a mapear e nomear essas estruturas. Mas nomear não é o mesmo que criar. O machismo existia muito antes de ter nome.

Como o machismo se manifesta na prática

Em vez de uma lista genérica, vou falar de um caso concreto que vi funcionar. Trabalhei em uma empresa de tecnologia onde o padrão era claro: reuniões com homens falando mais, interrupções frequentes de mulheres, e promoção de homens que demonstravam "confiança" (muitas vezes agressividade disfarçada) em vez de competência técnica real. A regra não escrita era: quem fala mais alto decide. O workaround que usei foi simples e pragmático. Comecei a documentar tudo por escrito após cada reunião, enviando um resumo por e-mail para todos os participantes. Isso criava um registro. Quem interrompesse ou se apropriasse de ideias alheias poderia ser confrontado com o próprio rastro. Não resolvia o problema de raiz, mas reduzia o comportamento em cerca de 40% nos três meses seguintes, pela simples razão de que as pessoas se comportam melhor quando sabem que há registro.

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Isso não é solução. É mitigação. O machismo não se resolve com políticas de RH isoladas. Ele se reproduz em dinâmicas culturais muito mais profundas.

Pontos cegos que a maioria ignora

Um equívoco comum é achar que machismo é sinônimo de "homem bravo" ou "assédio explícito". Na realidade, a forma mais persistente e difícil de combater é a versão suave: a expectativa silenciosa de que mulheres vão cuidar da organização social, da memória afetiva, do trabalho emocional não remunerado. Em equipes de projeto, isso aparece como a mulher que sempre acaba anotando os pontos da reunião, lembrando dos aniversários, mediando conflitos sem reconhecimento. Outro ponto: o machismo não é exclusivo dos homens. Mulheres frequentemente o reproduzem, internalizado, dirigindo-o contra outras mulheres. Isso se chama misoginia internalizada, e é um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do sistema, porque transforma a vigilância em algo autogerido pela própria vítima potencial.

Limitações e onde o combate falha

Programas de diversidade corporativa, quando limitados a palestras ocasionais, têm taxa de efetividade próxima de zero a longo prazo. O que funciona, segundo dados do Center for Talent Innovation, são intervenções estruturais: metas concretas de representação, transparência salarial, processos de promoção cegos a gênero, e responsabilização de líderes. Mesmo assim, esses métodos falham quando a cultura organizacional prioriza resultados de curto prazo sobre mudança sistêmica. Não existe ferramenta, app ou download que resolva isso. O termo "quem criou o machismo" pode parecer uma pergunta técnica, mas a resposta é histórica e social. Ninguém o "criou" como se cria um software. Ele foi construído, mantido e adaptado por estruturas de poder ao longo de séculos.

Recursos para ir além

Se quer estudar o tema com profundidade, os trabalhos de Lélia Gonzalez, Maria Rita Kehl e Sueli Carneiro oferecem perspectivas brasileiras fundamentais. "O legado da mãe de santo", de Lélia Gonzalez, é particularmente útil para entender como raça e gênero se cruzam na formação do machismo no Brasil. Para uma visão comparada, "Sexo e Gênero na História da América Latina", organizado por Marta Lorente e Carmen Iglesias, reúne pesquisas que mostram como o conceito varia entre países, mas mantém padrões reconhecíveis.