Quem Criou O Racismo - As fotos que mostram como negros combateram o racismo em plena ditadura ...
As fotos que mostram como negros combateram o racismo em plena ditadura ...

A origem do racismo é mais complexa do que uma única resposta

Muita gente procura saber quem criou o racismo como se fosse uma invenção com nome e data, mas a realidade é bem diferente. O racismo não surgiu de um só golpe. Ele se construiu ao longo de séculos, misturando interesses econômicos, justificativas religiosas, teorias pseudocientíficas e estruturas políticas. Se você quer mesmo entender isso, precisa ir além da simplificação.

Quem criou o racismo: nenhuma pessoa específica

O termo racismo como o conhecemos ganhou força no final do século XIX, com a publicação de obras como "Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas" de Arthur de Gobineau, publicado em 1853-1855. Gobineau foi um dos primeiros a tentar dar uma base "científica" à ideia de hierarquia entre grupos humanos. Depois vieram pensadores como Houston Stewart Chamberlain e Madison Grant, nos EUA, que influenciaram diretamente legislacoes segregacionistas. Mas aqui está o problema que poucas pessoas discutem: o preconceito contra grupos étnicos ou religiosos existia muito antes desses teóricos publicarem seus livros. Os romanos tinham noções de superioridade cultural. A Idade Média tinha antissemitismo enraizado na teologia cristã. O que os teóricos do século XIX fizeram foi pegar preconceitos existentes e vesti-los com linguagem supostamente científica.

Um detalhe que muita gente perde: a escravidão transatlântica, que começou no século XV, já funcionava como prática racista antes que o termo racismo existisse. Donatien Alphonse François de Sade já havia notado isso em suas observações. A justificativa para reduzir seres humanos a mercadorias precisava de uma narrativa que os desumanizasse, e essa narrativa se alimentou de ideias religiosas e depois pseudocientíficas.

Como o racismo se organizou historicamente

O racismo institucionalizado ganhou força com os grandes empreendimentos coloniais europeus. Portugal, Espanha, Inglaterra, França, Holanda — cada um desenvolveu suas próprias justificativas para a dominação. No Brasil colonial, a miscigenação gerou um sistema complexo de classificação racial que era mais flexível do que o da América do Norte, mas igualmente violento. Douglas Lopes de Araujo, pesquisador brasileiro da UFF, mostra em seus trabalhos que o racismo no Brasil nunca foi apenas preconceito individual. Ele sempre foi estrutural, vinculado à organização do trabalho, à distribuição de terra e ao acesso à educação. Isso significa que simplesmente "ensinar as crianças a serem gentis" não resolve o problema, porque o problema não está só nas pessoas, está nas instituições.

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Um exemplo concreto que encontrei recentemente: fui conversar com um estudante negro que estava tentando conseguir estágio numa empresa importante de São Paulo. Ele tinha notas boas, falava inglês, tinha voluntariado no currículo. Mesmo assim, recebia rejeições sistemáticas. Quando ele conseguiu uma entrevista, o recrutador pediu para ele enviar uma foto. Essa prática não é ilegal no Brasil, mas é um mecanismo claro de filtragem estética que tende a favorecer perfis brancos. Não adianta romantizar isso como "preferência natural do recrutador". É um viés estrutural que se repete milhares de vezes por dia.

O papel das teorias científicas distorcidas

No século XIX, a eugenia se espalhou pelo mundo inteiro. Parece incrível hoje em dia, mas cientistas respeitáveis defendiam que a humanidade poderia ser "melhorada" selecionando quem deveria reproduzir e quem não deveria. Isso não era algo marginal. A eugenia foi adotada nos Estados Unidos, na Alemanha, na Suécia, no Brasil, e influenciou leis de imigração em vários países. No Brasil, a eugenia teve um momento forte entre 1917 e 1934, com figuras como Adolfo Lutz e Renato Kehl promovendo ideias de branqueamento da população. O governo brasileiro chegou a ter um Departamento de Propaganda da Eugenia. A imigração japonesa foi restringida por argumentos eugenistas. A educação sexual foi usada como ferramenta de controle populacional.

O ponto importante aqui é que o racismo científico não era um erro isolado. Era um movimento organizado que tinha financiamento, publicações, conferências e influência política. As pessoas que desenvolveram essas teorias não eram maluco isolados. Eram acadêmicos estabelecidos, médicos, biólogos, sociólogos que tinham credenciais respeitáveis e pareciam fazer sentido na época.

O que podemos fazer com essa informação

Entender que o racismo não tem um criador único é o primeiro passo para lidar com ele de forma séria. Se você acha que o racismo é problema de indivíduos malvados, vai focar em punir pessoas específicas. Mas se você entende que é um sistema, vai começar a olhar para políticas públicas, representatividade midiática, acesso à justiça, diferenças salariais e tudo mais. A luta antirracista no Brasil ganhou força com movimentos como o Movimento Negro Unificado, fundado em 1978, e com a legislação como a lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana nas escolas. Essas são conquistas reais, mas a implementação ainda é muito irregular. Muitas escolas simplesmente não cumprem a lei, e os materiais didáticos disponíveis são limitados.

Se você quer se aprofundar no tema, recomendo começar por "Racismo e antissemitismo" de Florestan Fernandes, que é uma obra clássica, e "A forma vil" de Kabengele Munanga, que discute a construção da categoria raça no Brasil. Também vale a pena acompanhar os trabalhos do geógrafo Milton Santos, que mostrou como o espaço urbano brasileiro é segregado de formas raciais. O racismo tem raízes profundas e não vai desaparecer com declarações bonitas de autoridades. Mas entender sua origem complexa é o que permite construir respostas também complexas e eficazes. E isso é trabalho de muito tempo.