Quem Criou O Samba - A história do Samba: Origem, resistência e transformações
A história do Samba: Origem, resistência e transformações

O samba tem vários pais, e isso irrita muita gente

A pergunta quem criou o samba aparece sempre que alguém tenta resumir a música popular brasileira pra uma linha. A resposta curta é que não tem um único criador. O samba nasceu de processos coletivos, ao longo de décadas, nas casas de tias, nos terreiros de candomblé, nos cortiços do centro do Rio. Se você quer entender o gênero, precisa deixar de lado a ideia de autoria única e encarar que foi um conjunto de pessoas moldando o som sem nunca registrar nada em papel. O que a gente chama de samba hoje tem duas linhagens principais que se encontram: o samba de roda baiano, mais antigo, marcado pelo tambores e pela dança em círculo, e o samba urbano carioca, que ganhou estrutura de música gravada nos anos 1930. O primeiro veio dos africanos e seus descendentes, especialmente as mães e tias que mantiveram os tambores vivos no Recôncavo Baiano. O segundo surgiu quando migrantes baianos e outras pessoas negras chegaram ao Rio de Janeiro, trouxeram o ritmo, encontraram violão, cavaquinho e pandeiro, e começaram a tocar nas festas dos morros e dos salões da época.

Quem criou o samba: os nomes que ficam na história

Don Pedro II recebeu um samba no Paço Imperial em 1886. Isso é documentado. O historiador Sérgio Buarque de Holanda citou o fato em Raízes do Brasil, mas o que importa é que até então o samba era visto como coisa de marginal, de bairros pobres, e ainda não tinha espaço em lugares considerados sérios. Esse evento abriu uma brecha, mas não transformou o gênero de uma vez. Levou mais de cinquenta anos pra que o samba ganhasse estrutura de canção, partituras, editoras e profissionais que pudessem viver disso. Emilinha Borba disse numa entrevista que o samba sempre teve mulheres fazendo tudo acontecer nos bastidores, mas raramente recebendo crédito. Isso é verdadeiro. As tias que costuravam, tocavam atabaque, ensinavam os passos, cantavam nas rodas eram fundamentais e quase nunca aparecem nos livros de história. Se você quer saber quem criou o samba, precisa olhar pra elas também, não só pra os homens que assinavam as músicas ou gravavam os discos.

Pixinguinha e João da Baiana são dois nomes que todo mundo cita, mas o papel de cada um é diferente. Pixinguinha foi compositor, arranjador, instrumentista, e ajudou a estruturar o samba como forma artística digna de ser tocada em rádios e estúdios. João da Baiana foi o tocador de atabaque que mantinha a tradição do samba de roda viva no Rio, ensinava os passos, acompanhava os cantadores. Um construiu ponte entre o samba e a cultura acadêmica, o outro manteve a raiz prática. Os dois eram necessários.

Como o samba virou música profissional

Ernesto Nazareth compôs valses e tangos, mas também gravou sambas. Ele teve papel importante na profissionalização, porque mostrou que o gênero poderia ser tocado com precisão e sair da oralidade. Antes disso, a maioria dos sambas era transmitida de boca em boca, de geração em geração, sem partitura. Isso significava que muitas composições se perdiam quando as pessoas morriam ou se mudavam. A chegada dos gravadores e das editoras mudou isso, mas também trouxe um problema novo: quem gravava decidia o que entrava e o que ficava de fora. O rádio ajudou a espalhar o samba pelo Brasil. Em 1930, já existiam emissoras no Rio e em São Paulo que tocavam sambas várias vezes por dia. Isso aumentou a demanda por compositores e intérpretes. Mas o controle também estava nas mãos de poucos: donos de rádios, produtores, gravadoras. As pessoas que realmente criavam o samba nos morros e nos bairros populares muitas vezes não viam dinheiro vindouro das músicas que tocavam.

O caso de Cartola é emblemático. Ele escreveu dezenas de sambas famosos, mas viveu dificuldades financeiras enormes. Morreu pobre, enquanto outras pessoas lucravam com suas composições. Isso não é exceção. A maioria dos sambas antigos passou por processos parecidos: quem criava não tinha contratos, não sabia como proteger direitos autorais, e muitas vezes assinava coisas sem entender o que estavaassinando. Quando o problema aparecia, já era tarde.

Quem criou o samba: os mitos que persistem

Tem gente que insiste em dizer que Ismael Silva criou o samba-enredo sozinho. Ele foi importante, sim. Fundou a primeira escola de samba, a Deixa Falar, que depois virou Portela. Mas o samba-enredo já existia antes, nas manifestações dos bairros, nos blocos carnavalescos. Ismael organizou, padronizou, profissionalizou. Isso é diferente de criar do nada. Outro mito comum é que Noel Rosa inventou o samba palpiteiro. Ele refinou o estilo, tornou-o mais sofisticado, mas a estrutura já existia nas rodas dos botecos e nos bares do centro do Rio. Noel trouxe letras mais apuradas, temas urbanos, vocabulário mais culto. Mudou o tom, não a base. Se você ouvir sambas de 1920, vai perceber que o ritmo e a forma já estavam lá.

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A ideia de que Carmen Miranda trouxe o samba pro exterior também precisa de ajuste. Ela era cantora e bailarina, sim, mas o samba já tocava em Hollywood antes dela. O que ela fez foi popularizar uma imagem do Brasil lá fora, uma versão estilizada que às vezes distorcia a realidade. Foi útil comercialmente, mas não transformou o gênero musical em si.

Por que a autoria do samba é tão difícil de definir

O samba é oral por natureza. As pessoas aprendiam cantando, ouvindo, repassando de pai pra filho, de mãe pra filha. Não havia partituras, não havia registro formal. Isso significa que centenas de sambas antigos se perderam. Nomes de compositores foram esquecidos, canções famosas viraram pó quando as últimas pessoas que sabiam morreram. Quem tentar mapear toda a história do samba vai encontrar lacunas enormes. Além disso, o samba sempre foi coletivo. Músicas nasciam nas rodas, eram modificadas por várias pessoas, ganhavam versos novos, saía do controle do autor original. Esse processo é natural em tradições orais, mas cria confusão quando se tenta atribuir autoria. Um samba pode ter cinco, dez contribuintes ao longo dos anos, e nenhum deles pode reivindicar paternidade completa.

Um problema prático que eu encontrei ao estudar isso é a diferença entre o samba de roda e o samba carioca. Às vezes as pessoas chamam tudo de samba, mas são variações distintas. O de roda tem estrutura mais cíclica, tambores predominantes, dança. O carioco tem violão, cavaquinho, estrutura de verso e refrão mais definida. Se você usar uma definição errada, chega a conclusões equivocadas sobre origem e evolução.

Fontes confiáveis pra quem quer aprofundar

O livro Samba, Doce Vigaria, do pesquisador José Ribamar Bessa, tem dados interessantes sobre a profissionalização do gênero. Outro material útil é a coleção de gravações históricas do acervo da Casa Rui Barbosa, onde se encontram discos dos anos 1920 e 1930 que mostram a transição entre o samba de roda e o samba urbano. Sites como o Samba.org.br também reúnem partituras e letras antigas, mas precisam ser conferidos com outras fontes, porque às vezes há erros de transcrição. A Biblioteca Nacional Digital tem documentos sobre os primeiros sambas gravados, inclusive contratos e recados de época. Isso ajuda a entender como as pessoas lidavam com direitos autorais na prática, que era bem diferente de hoje. Na maioria dos casos, os compositores não sabiam exatamente o que estavam firmando, e quando percebiam, o dinheiro já tinha sido repartido.

O que fazer pra preservar a memória do samba

Gravar depoimentos de mais velhos que ainda sabem sambas antigos é uma das ações mais práticas. Muitas pessoas cariocas e baianas guardam repertórios que não estão em nenhum livro. Se não forem registrados, vão embora com elas. Isso já aconteceu várias vezes, e a perda é irreversível. Outra coisa útil é mapear as rodas de samba atuais e fazer o levantamento de quais tradições estão vivas, quais estão enfraquecendo, quais sumiram. É um trabalho lento, que exige tempo e presença constante, mas ajuda a entender como o gênero continua se transformando.

Se você quer entender quem criou o samba de verdade, a resposta honesta é que foi um processo coletivo, marcado por desigualdades, por apagamentos, por pessoas que nunca receberam reconhecimento. Os nomes que ficaram são importantes, mas não contam a história inteira. O resto ficou pra trás, nas rodas, nas festas, nas casas onde o samba era vivido e não apenas registrado.