Uma filósofa que todo mundo cita e poucos realmente leram
Simone de Beauvoir nasceu em 9 de janeiro de 1908, em Paris, e morreu em 14 de abril de 1986. Ela foi filósofa, escritora, ensaísta e professora, e hoje é mais lembrada como a autora de O Segundo Sexo do que propriamente como pensadora existencialista. Isso é um problema, porque o existencialismo dela é o que sustenta tudo o que ela escreveu depois.
quem é simone de beauvoir
Beauvoir estudou no École Normale Supérieure, onde conheceu Jean-Paul Sartre. A relação entre os dois foi pública, intensa e duradoura. Ambos tiveram casos com outras pessoas ao longo da vida — ela com Nelson Algren, entre outros — e isso nunca foi disfarçado. Beauvoir era honesta sobre isso tanto na vida quanto na obra. Isso incomodava muita gente, inclusive feministas que não gostavam que sua figura pública carregasse essas contradições pessoais. O que as pessoas esquecem com frequência é que O Segundo Sexo (1949) não nasceu do nada. Beauvoir já tinha publicado romances como O Sangue dos Outros (1945) e A Invitação ao Ócio (1943), onde explorava temas de liberdade e responsabilidade moral que ela depois sistematizaria na filosofia. O grande erro é tratar O Segundo Sexo como um tratado isolado, quando na verdade ele é a aplicação prática de toda uma estrutura existencialista que ela vinha construindo.
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"Não se nasce mulher: torna-se mulher." Essa frase é a mais citada dela, e também a mais mal compreendida. Não se trata de dizer que gênero é só performance ou identidade. Ela estava usando a ontologia existencialista: o feminino, como construção social e histórica, é algo que a mulher é chamada a realizar dentro de uma estrutura que a precede. O ponto é que essa estrutura pode ser contestada e transformada, não que ela seja imutável. Muita gente lê essa frase como se Beauvoir estivesse negando a biologia, quando na verdade ela estava dizendo que a biologia sozinha não determina o destino social de uma pessoa. Um detalhe que pouca gente nota: Beauvoir foi a primeira mulher a receber o prêmio Goncourt em 1954, por Os Mandarinos. Sartre foi indicado no mesmo ano e recusou o prêmio Nobel de Literatura em 1964. Beauvoir também recusou a Legião de Honra em 1986. Isso mostra uma coerência política que muitas vezes se perde nas biografias resumidas que circulam pela internet.
Na prática, se você quer entender Beauvoir de verdade, comece por O Existencialismo é um Humanismo (1946) para pegar a base filosófica, e depois leia O Segundo Sexo. Se você pular direto para o livro sobre a mulher, vai achar que as argumentações às vezes se perdem em digressões históricas. Achei isso também na primeira vez que li. A solução foi usar edições comentadas — há versões da editora Martins Fontes que trazem notas explicativas que ajudam muito a acompanhar o raciocínio. O principal equívoco sobre Beauvoir hoje em dia é tratá-la como uma feminista clássica. Ela se recusava a essa etiqueta. O problema é que, sem ela, o feminismo francês dos anos 1970 provavelmente teria outra forma. Colette Guillaumont e outras filósofas materiais mostraram depois como Beauvoir abriu caminho para discussões que ela própria não aprofundou completamente, como a relação entre opressão feminina e opressão de classe. Beauvoir via essas questões, mas a estrutura do texto dela priorizava a fenomenologia da experiência feminina em detrimento de uma análise econômica mais direta.
Outro ponto que ninguém menciona suficiente: as memórias de Beauvoir são uma fonte subestimada para entender a vida intelectual francesa do século XX. A Memória de uma Vida, em quatro volumes, tem detalhes que nenhum livro de história convencional captura. Ela descreve encontros com Camus, Merleau-Ponty, Sartre, e mostra como debates filosóficos aconteciam de fato — em cafés, não em salas de aula. Lembro de ter ficado surpreso ao descobrir, lendo suas memórias, que o Socialisme et Liberté, o grupo político do início dos anos 1940, tinha quase sessenta membros e operava de forma clandestina durante a ocupação. Isso não aparece em resumos biográficos padrão. O legado filosófico dela está mais em Para uma Moral da Ambiguidade (1947) do que em qualquer outro lugar. É ali que ela tenta fundar uma ética a partir do existencialismo, e é o texto mais original dela, ainda pouco lido fora dos círculos acadêmicos. Os outros vêm depois.