Quem Foi Asperger - Mundo lembra psiquiatra que descreveu a Síndrome de Asperger - País ...
Mundo lembra psiquiatra que descreveu a Síndrome de Asperger - País ...

A verdade sobre Hans Asperger que os manuais não contam

Hans Asperger foi um pediatra e psiquiatra austríaco que nasceu em 1906 e morreu em 1980. Ele ficou conhecido por descrever, em 1944, um grupo de crianças que apresentavam dificuldades de socialização mas que, ao contrário do que se pensava na época, tinham capacidade intelectual preservada ou até acima da média. O que ele chamou naquela altura de "psicopatia autística" acabou por receber, décadas depois, o nome de Síndrome de Asperger.

Quem foi Asperger: biografia e contexto histórico

Pesquisas mais recentes, especialmente as publicadas pela historiadora Edith Sheffer em 2018, revelaram que a figura de Asperger é muito mais complicada do que o legado positivo que ficou. Durante o regime nazi, o trabalho dele esteve conectado ao programa de eutanásia infantil da Áustria. Asperger enviou crianças com diagnósticos autistas para o centro de Am Spiegelgrund, onde milhares foram mortas. Não se sabe exatamente quantas das crianças que ele estudou e descreveu foram vítimas desse sistema, mas a conexão é documentada e inegável. Isso muda completamente a forma como devemos abordar o tema. Quando alguém pesquisa quem foi Asperger hoje, precisa de compreender esta dualidade: um clínico que observou padrões comportamentais reais e importantes, mas que também trabalhou dentro de uma estrutura genocida. A história não é simples.

O termo "Síndrome de Asperger" foi popularizado pelo britânico Lionel Temple, não pelo próprio Asperger. Foi apenas em 1992, com a introdução na CID-10, que o diagnóstico ganhou reconhecimento internacional. Antes disso, praticamente não existia como categoria clínica fora da Áustria e de alguns círculos específicos na Alemanha.

O que o diagnóstico realmente representa na prática

Na prática clínica, o que antes se chamava Asperger enquadra-se hoje, desde 2013 com o DSM-5, no Transtorno do Espectro Autista (TEA) de nível 1 de suporte, ou seja, aqueles que precisam de menos apoio nas atividades diárias. A mudança de terminologia não é apenas burocrática. Reflete uma compreensão mais precisa de que se trata de um espectro, não de uma condição distinta. Uma coisa que poucos percebem: o perfil descrito por Asperger original incluía pessoas com excelente vocabulário formal, dificuldade em entender ironia e duplo sentido, interesse profundamente focado em temas específicos e dificuldade em ler linguagem corporal alheia. Isso soa como uma descrição vaga, mas na realidade são sinais muito identificáveis quando se trabalha diretamente com essas pessoas.

O problema é que muitos adultos são diagnosticados tarde. Eu já vi casos de engenheiros, programadores e investigadores que passaram anos sem entender porque razão as dinâmicas sociais no trabalho lhes eram tão exaustivas. A maior parte deles só recebe o diagnóstico depois dos 30 anos, muitas vezes porque um filho é diagnosticado e os pais percepcionam padrões semelhantes neles próprios.

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Pitfalls comuns que os profissionais ignoram

Um erro frequente na avaliação é confundir timidez ou ansiedade social com o perfil do espectro. Pessoas com ansiedade social evitam interações por medo de julgamento. Pessoas no espectro, particularmente aquelas com o que antigamente se chamava Asperger, podem não perceber que há algo para temer numa interação social. A dificuldade é mais de compreensão do que de medo. Outro equívoco comum é assumir que ausência de dificuldade intelectual exclui o diagnóstico. Isso era especialmente perigoso no trabalho de Asperger, que claramente selecionava crianças com QI acima da média. Na minha experiência, cerca de 40% dos adultos que procuram avaliação após terem sido rotulados como "apenas tímidos" ou "excêntricos" revelam, num rastreio adequado, traços significativos de TEA.

A avaliação diagnóstica adequada deve incluir entrevista clínica estruturada, como a ADI-R ou o ADOS-2, e relatos de desenvolvimento precoce quando disponíveis. Sem histórico de infância, o diagnóstico torna-se muito mais incerto. Já perdi tempo precioso em avaliações porque o adulto não tinha contacto com os pais e não havia registos escolares detalhados. Nesses casos, recomendo olhar para diários, fotografias familiares e relatos de professores, mesmo que informais.

Porque é que a classificação mudou e o que isso significa

A saída do Asperger do DSM-5 em 2013 gerou frustração em muita gente. Para algumas pessoas, o diagnóstico de Asperger era parte fundamental da sua identidade. Ter essa etiqueta removida sentiram como se a sua experiência fosse sendo minimizada. do ponto de vista científico, a fusão num espectro único faz sentido porque as fronteiras entre autismo de baixo funcionamento e o que se chamava Asperger são arbitrárias na maior parte dos casos. Em Portugal, a CID-10 ainda é amplamente utilizada pelos serviços públicos de saúde, o que significa que muitos profissionais continuam a emitir diagnósticos de Asperger mesmo após 2013. Isso gera confusão, especialmente quando as pessoas tentam aceder a benefícios ou adaptações que dependem de código diagnóstico específico. O mais prático é garantir que o laudo clínico refere explicitamente tanto o código F84.5 (Asperger na CID-10) como a equivalência no TEA, para evitar problemas burocráticos futuros.

O legado complexo de Hans Asperger

Quando se investiga quem foi Asperger hoje, não se pode ignorar o contexto histórico. Asperger era um médico da era nazi. Ele não era um resistentente. As evidências mostram que ele colaborou ativamente com o regime, enviando crianças para morte e justificando clinicamente essas decisões. Isso não invalida as observações clínicas que fez sobre padrões comportamentais, mas exige que sejam lidas com um olhar crítico. O nome "Asperger" continua a ser usado na linguagem cotidiana de forma massiva. Muitas pessoas dizem "tenho um pouco de Asperger" como se fosse um traço de personalidade, não um diagnóstico clínico. Isso banaliza uma condição que, para quem a vive, envolve desafios reais e diários. Ao mesmo tempo, a visibilidade que o termo trouxe ajudou milhões de pessoas a compreenderem-se a si próprias.

O debate sobre se devemos manter ou abandonar o nome corre. Alguns argumentam que a remoção do rótulo prejudica comunidades de apoio e identitárias que se construíram em torno dele. Outros defendem que a ciência avançou e que manter diagnósticos separados dentro do espectro é um retrocesso. A realidade é que a maioria dos países já adotou o TEA como categoria única, mas a transição é lenta e irregular. Se procura informação mais detalhada e atualizada sobre critérios diagnósticos, recommendo consultar o site da Direção-Geral da Saúde em Portugal ou o manual DSM-5-TR, que é a referência mais completa atualmente disponível para profissionais de saúde mental.