A tradição romana sobre a fundação
Pra chegar a essa pergunta com calma. A resposta curta que todo mundo conhece é São Pedro, primeiro bispo de Roma e mártir sob Nero, por volta de 64 d.C. Mas a realidade histórica é mais embaraçada do que o catecismo costuma admitir, e quem começa a ler as fontes primárias logo percebe que a narrativa oficial escondia várias costuras visíveis. Até o final do século II a tradição já estava solidificada: Clemente de Roma escrevia sobre Pedro e Paulo como exemplos de martírio em Roma, e Inácio de Antioquia já falava da igreja romana como detentora de uma precedência especial. Irenaeu de Lião, por volta de 180, foi provavelmente o primeiro a sistematizar a ideia de sucessão apostólica com Pedro como fundador. Isso é documento, não só devoção posterior. O problema é que documento não prova fundação no sentido moderno da palavra.
Quem fundou a igreja de roma na prática histórica
Aqui entra o detalhe que quase ninguém conta em resumos rápidos: a igreja de Roma provavelmente não foi fundada por um único fundador. O cristianismo chegou à capital do império através de redes comerciais, diásporas judaicas e viajantes. A comunidade romana dos anos 40 já tinha cristãos antes mesmo de Pedro chegar lá, talvez até antes de Paulo escrever a Carta aos Romanos por volta de 57. O próprio Paulo se apresenta como alguém que não fundou aquela igreja, o que é uma admissão estranha se a tradição oficial estivesse 100% correta. Então, o que fazer com Pedro? Ele esteve em Roma. Martyrisou sob Nero. A tradição martirologista é antiga e consistente. O que a tradição não explica bem é como uma comunidade que já existia passou a ter como fundador um apóstolo que chegou tarde. A resposta mais honesta é que a figura de Pedro foi depois projetada sobre uma comunidade pré-existente, funcionando como validação apostólica para uma igreja que já prosperava por outros meios. É diferente de fundação no sentido literal, mas funciona perfeitamente dentro da lógica eclesiológica que se desenvolveu nos séculos seguintes.
Paulo também é parte dessa história. Seu episcopado simbólico em Roma, mencionado em algumas tradições posteriores, e sua carta aos Romanos mostram que a comunidade já tinha estrutura própria quando ele escreveu. A coexistência de duas figuras fundadoras, Pedro e Paulo, já é um sinal de que o processo foi mais complexo do que um único acto fundador.
Fontes e o que elas realmente dizem
Clemente de Roma, escrito por volta de 96, é a primeira fonte sólida. Ele fala de Pedro e Paulo como mártires em Roma, mas não diz explicitamente que Pedro fundou a igreja. Isso parece ser uma inferência posterior, não uma afirmação do próprio texto. A Didascalia Apostolorum e os actos apócrifos de Pedro, que circularam no século II, já trazem uma narrativa mais desenvolvida com Pedro como líder romano, mas são textos tardios e com tendência claramente apologética. O catálogo liberiano, do século IV, é um documento importante porque lista os bispos de Roma desde Pedro até Libério, mas sabemos que essa lista foi sujeita a edições e possíveis interpolations ao longo dos séculos. A datação exata de cada nome nessa lista gera debate entre historiadores. Eusébio de Cesareia, que era rigoroso com fontes, também tratou a questão com cautela, distinguindo entre tradição e evidência documentada.
O que muitos não consideram é a ausência de menção a Pedro como fundador nos primeiros escritos paulinos sobre Roma. Se Pedro tivesse fundado a comunidade, seria estranho que Paulo, escrevendo aos romanos, não reconhecesse isso de forma mais explícita. A explicação mais razoável é que a comunidade já existia sem liderança petrina direta quando Paulo escreveu, e que a associação posterior de Pedro à fundação reflecte mais uma necessidade teológica do que um facto biográfico simples.
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O aspecto político e institucional
É impossível separar a questão da fundação do desenvolvimento institucional. A igreja de Roma cresceu em importância não apenas por tradição apostólica, mas pela posição geográfica e política da cidade. Ser a capital do império dava automaticamente à sua igreja um peso que comunidades menores não tinham. Constantinopla, Alexandria, Antioquia também eram sedes importantes, mas Roma tinha algo a mais: a ligação directa com os apóstolos Pedro e Paulo, ambos martirizados ali. O conceito de sede petrina começou a ganhar força no contexto das disputas cristológicas dos séculos IV e V. Quando surgiram conflitos doutrinários, Roma pôde invocar a sucessão apostólica directa de Pedro para afirmar autoridade. Isso não significa que a autoridade petrina tenha sido inventada de repente — era uma tradição viva desde pelo menos o século II — mas significa que o seu uso político se intensificou dramaticamente conforme as estruturas imperiais e eclesiásticas se transformavam.
O Concílio de Calcedónia, em 451, é um momento chave. Os cânones daquele concílio reconheceram formalmente a precedência honorífica de Roma, mas também elevaram Constantinopla a uma posição secundária após Roma. Essa decisão mostrou que a questão da fundação e da autoridade nunca foi apenas teológica, mas também geopolítica. O império estava mudando, e as sedes episcopais precisavam se adequar à nova realidade.
O que a pesquisa moderna diz
Historiadores como Bart Ehrman, Wayne Meeks e Raymond Brown abordaram a questão com cautela. A conclusão geral é que Pedro esteve em Roma e morreu lá, mas que a afirmação de que ele fundou a igreja romana é uma construção teológica posterior, não um facto histórico indiscutível. A comunidade cristã em Roma já funcionava antes da chegada de Pedro, e a associação dele com a fundação serve para dar legitimidade apostólica a uma igreja que já era influente por outros motivos. Outro ponto importante: a arqueologia. As escavações sob a Basílica de São Pedro revelaram um muro com inscrições Graeco-Latinas que incluem o nome Pedro, datadas do século II. Isso confirma presença de devoção petrina em Roma muito cedo, mas não prova que Pedro tenha fundado a comunidade. Prova que ele era venerado como mártir e líder, o que é diferente. A diferença é subtil mas crucial para quem lê com atenção.
Há também a questão da literatura apócrifa. Os e textos semelhantes misturam tradição, devoção e ficção teológica de maneira difícil de separar. Estudiosos que trabalham com crítica textual conseguem identificar camadas de composição, mas o resultado muitas vezes é mais incerteza do que certezas novas. Isso não quer dizer que a tradição seja falsa, apenas que a linha entre história e devoção é mais difusa do que o discurso oficial gosta de apresentar.
Conclusão prática
Se a pergunta é quem fundou a igreja de Roma, a resposta académica mais precisa é: nenhum fundador único. A comunidade cristã romana se formou gradualmente, provavelmente a partir de redes judaico-cristãs da diáspora, e ganhou destaque por factores políticos e geográficos. Pedro e Paulo foram martirizados em Roma e associadas à fundação da igreja local por razões teológicas e institucionais que ganharam força nos séculos seguintes. A tradição é antiga, consistente e significativa, mas não deve ser lida como crónica factual no sentido moderno da palavra. O que isso significa na prática para quem estuda história do cristianismo primitivo? Significa que a questão da fundação romana não é uma questão de factos simples, mas de camadas de interpretação, devoção e política. A igreja de Roma construiu a si mesma tanto quanto foi construída por Pedro. E reconhecer essa complexidade não enfraquece a tradição, apenas a coloca no contexto real em que surgiu.