Quem são os interlocutores do artigo de opinião
O texto é sempre uma construção de vozes. No artigo de opinião, isso fica ainda mais evidente porque o gênero pressupõe um posicionamento explícito, e posicionamento só existe quando alguém fala para alguém. A análise dos interlocutores costuma ser ensinada de forma resumida nas escolas, mas a prática real mostra que a coisa é muito mais estratificada do que o manual sugere.
Quem são os interlocutores do artigo de opinião
No nível mais imediato, o autor ocupa a posição de enunciatário. Ele produz o discurso, escolhe o tom, decide quais argumentos apresentar e, principalmente, assume responsabilidade por eles. Na maioria dos artigos de opinião que vejo, essa figura se manifesta através do uso da primeira pessoa, de marcadores avaliativos como "na minha visão" ou "evidentemente", e de escolhas lexicais que revelam um viés claro. O autor não está neutro. Isso não é defeito, é condição do gênero. O leitor implícito, por sua vez, é uma construção do texto. Não é o leitor real, que você não controla, mas sim uma figura que o autor supõe existir: alguém com certo grau de informação sobre o tema, disposto a dialogar, mas potencialmente cético ou oposto ao ponto de vista defendido. A existência desse leitor implícito define gran parte da estratégia argumentativa. Um artigo dirigido a quem já concorda com o autor tende a usar um registro mais militante, com menções a inimigos retóricos e apelos emocionais. Um artigo que pressupõe um leitor crítico busca convencer através de dados, contra-argumentação e refutação.
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Ambos formam o par básico, mas há uma terceira voz que frequentemente determina o rumo do texto: o interlocutor antagonista. É a pessoa ou grupo cujos argumentos o autor combate. Às vezes ele aparece explicitamente, citado ou parafraseado. Nas melhores práticas jornalísticas, esse antagonista é apresentado com fidelidade antes de ser refutado. Quando o autor cria um espantalho — uma versão distorcida do argumento oponente —, o texto perde credibilidade rapidamente. Já vi editores rejeitarem textos por isso, especificamente quando o adversário retórico era uma caricatura fabricada em vez de uma posição real de algum político ou instituição. O público-alvo final também merece atenção separada. Em colunas de grande circulação, o leitor que consome o texto pode ser diferente do leitor que o debate. Há uma diferença prática entre escrever para o público que já te segue e escrever para o público que precisa ser convencido. Um erro comum é tratar o segundo como se fosse o primeiro, o que resulta em artigos que soam como preaching para o coro em vez de tentativas genuínas de persuasão.
Na minha experiência analisando e produzindo esse tipo de texto, o maior problema prático que encontro é a sobreposição entre esses interlocutores. O autor frequentemente confunde o leitor implícito com o público-alvo, e ambos com o próprio grupo social em que está inserido. O resultado é um texto que parece ter sido escrito para si mesmo, com jargões internos, referências que só fazem sentido num círculo específico e uma falta de tradução de conceitos que afastam quem não está na bolha. Quando isso acontece, a argumentação perde força independentemente da qualidade dos argumentos em si. Uma coisa que poucos manuais enfatizam é a relação assimétrica entre os interlocutores. O autor tem poder de estruturar a discussão, de definir os termos do debate e de encerrar argumentos alheios. O leitor não tem espaço de resposta no mesmo texto. Essa assimetria é inerente ao gênero, mas é importante reconhecê-la porque ela cria uma responsabilidade: o autor pode simplificar demais, omitir versões razoáveis do opposing view, ou escolher apenas evidências favoráveis sem sinalizar essa seleção. Leitores experientes identificam esses mecanismos, e a perda de credibilidade é imediata e permanente no meio.
O que funciona na prática é mapear explicitamente cada interlocutor antes de começar a escrever. Leva cerca de cinco minutos. Você anota quem é o antagonista real — não o imaginário —, qual é o nível de informação do leitor implícito, que objeções ele provavelmente levantaria, e quem é o público que precisa ser atingido além da seção de opinião. Com isso definido, a escrita flui de forma mais direcionada. Sem esse exercício, o texto tende a vagar entre camadas de leitores incompatíveis, tentando convencer o otimista e o cético ao mesmo tempo, o que raramente funciona para nenhum dos dois.