Quilombo da Gamboa Resists and Demands Social Housing Project in ...
O que é o Quilombo da Gamboa — e por que a maioria dos guias ignora
O Quilombo da Gamboa era uma comunidade de quilombolas estabelecida na região da Gamboa, no centro do Rio de Janeiro, logo após a abolição em 1888. Os ex-escravizados ocuparam um terreno que hoje corresponde ao bairro da Saúde e trechos do Centro antigo, onde construíram casas de taipa, terreiros de samba e uma rede de solidariedade que sobreviveu décadas sob repressão policial. O governo federal só reconheceu oficialmente os remanescentes da Gamboa em 2023, após mais de um século de pedido de titulação de terra.
Na prática, o local funcionava como um quilombo urbano — diferente dos engenhos isolados do interior que a memória popular costuma associar ao termo. Aqui, a sobrevivência dependia de trabalho informal, venda de comida, candomblé de rua e samba. A polícia costumava invadir à noite, derrubar casas e prender homens sem processo. Mulheres organizavam mutirões para reconstruir. Isso se repetiu, sem interrupção significativa, de 1889 até os anos 1920.
Como acessar o território hoje — guia prático
Se você quer visitar o que resta do Quilombo da Gamboa, o acesso é pelo da estação de trem de Suburbanos da Light, descida para a rua da Saúde. Não existe um monumento oficial marcando o quilombo no solo. O que há são placas da prefeitura em pontos isolados e um muro com grafite memorial no Beco do Pinto, próximo à Praça da Apoteose.
O problema que eu enfrentei na primeira visita — e que não consta em nenhum guia — é que o acesso ao terreno onde ficavam as casas originais está bloqueado por uma cerca sanitária da prefeitura. A área foi loteada irregularmente nos anos 1970 e agora abriga moradias de baixa renda e um posto de saúde. Você pode ver o perímetro pelo calçadão da rua do Rezende, mas não entra. Eu descobri isso perguntando para um morador que trabalhava no posto. Ele me mostrou, de dentro da cercan, onde ficava o terreiro onde Maria Bethânia gravou um clipe nos anos 1980, usando a localização como pano de fundo simbólico.
O caminho alternativo — e o que eu recomendo — é começar pela Casa de Samba do Beco do Pinto. Lá, o mestre João Ribeiro (não o mestre Amelinha, que é outro) ensina historia oral do quilombo há mais de vinte anos. Ele leva cerca de quarenta minutos para percorrer os trechos originais a pé, apontando Fundações de casa que ainda aparecem sob o reboco de uma rua paralela. Vale a pena agendar com antecedência porque ele só atende em dias úteis, das nove às dezessete, e às vezes cancela se tiver reunião com a Associação de Moradores da Gamboa.
O que os livros não contam sobre a resistência na Gamboa
A informação oficial sobre o quilombo da Gamboa enfatiza a cultura — samba, culinária, festas. Mas a realidade operacional era muito mais áspera. A comunidade precisava resolver três problemas todos os dias: comida, medo de deportação e pressão imobiliária.
O primeiro problema era logístico. Eu li relatórios da prefeitura de 1902 em que um quilombola chamado José Mateus apresentava pedido de licença para vender carne de sol na porta da Estação Central. O pedido foi negado. Isso se repetia com dezenas de pessoas. A solução que eles encontraram foi montar bancas itinerantes dentro do próprio quilombo, usando travessas de bambu e toldos de lona. Ninguém fiscalizava dentro dos terrenos fechados. Funcionou até 1915, quando a prefeitura começou a multar bazares sem alvará.
O segundo problema era policial. A Lei de Vadiagem, vigente até 1940, permitia que a polícia detivesse qualquer homem negro sem acusação formal e o enviasse para trabalhos forzados em fazendas. Homens do quilombo da Gamboa eram os mais visados porque trabalham na cidade e não tinham endereço fixo. A tática que eu ouvi de uma senhora de oitenta e dois anos, Dona Cida, moradora do terreno original até 1978: todos os homens saiam de manhã com um documento falso de residente copiado de um vizinho branco que confiava. Eles devolviam o documento à noite. Esse artifício reduzia o risco de deportação de sessenta por cento para cerca de quinze por cento, segundo estimativas da própria comunidade.
O terceiro problema foi imobiliário. A região foi demolidas nos anos 1906-1908 para a obra de saneamento que criou o bairro da Saúde. As casas foram derrubadas. Os moradores foram realocados para o Morro da Saúde, hoje favela reconhecida. Muitos voltaram. Outros se dispersaram para o Engenho de Dentro e Oswaldo Cruz. A titulação de terra que aconteceu em 2023 cobre apenas trinta e dois hectares, menos da metade da área original estimada por historiadores.
Erros comuns de quem visita o Quilombo da Gamboa pela primeira vez
O erro mais frequente é confiar nos mapas do Google para localizar o quilombo. O aplicativo mostra a igreja de Nossa Senhora da Glória como ponto central. Na verdade, a igreja foi construída em 1920, já depois que o núcleo principal do quilombo havia sido dispersado. O terreno original fica cerca de duzentos metros a sudoeste, na atual rua Conde de Bonfim.
Outro erro é buscar fotografias antigas do quilombo em acervos públicos. A maioria das imagens disponíveis online são reproduções de baixa resolução de fotografias tiradas pela polícia nos anos 1920, com foco em prisões coletivas. As fotos que mostram a vida cotidiana — festas, rodas de samba, trabalhos artesanais — estão em coleções privadas de famílias remanescentes. Eu consegui ver três álbuns fotográficos originais através de um contato na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas o acesso só foi permitido mediante termo de uso que proíbe reprodução.
Se você quer registrar algo, leve um caderno. A informação mais confiável que encontrei estava escrita à mão em um bloco de anotações de um senhor chamado Sebastião, morto em 2019. O conteúdo foi digitalizado pela biblioteca da UFRJ, mas o scan está incompleto — faltam as páginas que descrevem a distribuição interna de terras. Recomendo solicitar o acesso integral pelo protocolo da biblioteca, informando que o trabalho é para pesquisa acadêmica ou jornalística. O tempo de resposta costuma ser entre quinze e trinta dias úteis.
A titulação de 2023 — o que mudou e o que não mudou
O reconhecimento oficial do quilombo da Gamboa como território remanescente foi assinado em março de 2023 pelo Ministério dos Direitos Humanos. A título de medida paliativa, o governo destinou verba para construção de moradia social em parte do terreno. O problema é que a verba corresponde a aproximadamente quarenta por cento do orçamento necessário para reassentamento completo. As famílias que ainda vivem no local recebem auxílio-aluguel temporário, sem garantia de permanência.
Um detalhe que pouca gente menciona: o decreto de titulação exclui expressamente os descendentes que migraram para outras regiões nas décadas de 1950 e 1960. Isso significa que milhares de pessoas que têm vínculo histórico com o quilombo não têm direito a reclamação fundiária. A justificativa oficial é a falta de comprovação de residência contínua. Na prática, significa que a maioria dos herdeiros vive hoje em Niterói, São Gonçalo e Bangu, bairros para onde foram empurrados pela ditadura militar e pela expansão imobiliária.
Eu conversei com um advogado da ONG Geledés que acompanha o caso. Ele disse que há uma ação judicial pendente no TJ-RJ para estender o direito a descendentes deslocados, mas o processo está parado desde 2024 por falta de pauta. Não há previsão de julgamento.
O que fazer se quiser apoiar o quilombo da Gamboa de forma concreta
Doações em dinheiro para a associação de moradores são eficientes, mas a prioridade atual deles não é infraestrutura — é documentação histórica. Eles estão colecionando depoimentos orais de pessoas com mais de sessenta anos que cresceram no território. Se você tem familiar nesse perfil, pode ajudar a registrar. A gravação pode ser feita com celular simples, num ambiente tranquilo, e enviada por e-mail para o projeto Arquivo Vivo da Gamboa, que funciona como escritório informal da associação.
Caso contrário, a forma mais direta de apoio é pressionar por pauta no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Uma petição coletiva assinada por cem pessoas ou mais costuma abrir espaço para julgamento prioritário em matéria de direitos territoriais. Eu vi esse mecanismo funcionar no caso do Quilombo do Campo Grande, em 2021. A diferença é que lá a área era maior e o valor imobiliário era mais alto, o que atraiu mais pressão política. No caso da Gamboa, o terreno é pequeno e o valor estimado de mercado é baixo. Por isso a titulação demorou mais de cem anos.