Regência Do Verbo Implicar - Regência Do Verbo Implicar - RETOEDU
Regência Do Verbo Implicar - RETOEDU

Quem nunca errou na hora de escrever

Todo mundo já caíram nessa. A gente lê uma frase e algo soa estranho, mas não consegue localizar o problema na hora. Eu tenho um exemplo que ainda me irrita porque vi aparecer em relatório formal de empresa que prestei consultoria. O trecho dizia mais ou menos assim: "o descumprimento da norma implica em sanções administrativas". Alguém marcou isso como erro e eu passei uns cinco minutos tentando entender por quê, porque a frase parecia perfeitamente legítima para qualquer leitor comum. O problema é que "implicar" nesse sentido de trazer consequências como decorrência lógica é transitivo direto. Não leva preposição "em". O correto seria simplesmente "implica sanções administrativas". A frase sem a preposição ficou mais enxuta e, ironicamente, mais clara.

A regência do verbo implicar na prática

O verbo implicar tem três usos principais, e cada um cobra uma construção diferente. O primeiro é o uso mais tranquilo: implicar algo a alguém, no sentido de atribuir ou imputar. "O juiz implicou-lhe a responsabilidade pelo dano." Isso é transitivo direto e indireto. O objeto direto é o que se atribui; o indireto, a quem se atribui, sempre com "a". Parece óbvio quando está por escrito, mas na fala muita gente esquece e vira "implicou o respons" ou pior, "implicou com o responsável". O segundo uso é o que causa a maioria dos problemas. Quando "implicar" significa "acarretar como consequência", ele é simplesmente transitivo direto. Não precisa de preposição. "A new policy implies additional costs." Em português: "A nova política implica custos adicionais." A preposição "em" aqui é sobra. Infelizmente, essa construção errada é tão frequente que até gramáticos normativos mais relaxados acabam aceitando em contextos informais, mas em texto formal continua sendo erro.

O terceiro uso é o coloquial: "implicar com alguém". Significa ter atrito, brigar, ser incompatível. É intransitivo e exige a preposição "com". "Eu não consigo implicar com ele." Esse é o mais fácil de acertar, porque a preposição já está embutida no sentido.

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Um caso que me pegou desprevenido

Há alguns anos, revisando um documento técnico, me deparei com a frase: "o ajuste fiscal implica em redução de gastos". Parecia aceitável. Eu sabia que a regência normativa pedia o transitivo direto, mas a construção com "em" estava tão arraigada no português que eu quase deixei passar. Resolvi verificar consultando duas fontes diferentes e ambas convergiam: sem preposição. Corrigi para "implica redução de gastos". O texto melhorou e ficou mais preciso. Outro caso que vale a pena mencionar: há situações em que "implicar" pode ser usado com sentido de "envolver", aí sim aceitando a preposição "em". Por exemplo: "o escândalo implicou vários políticos." Nesse caso, o verbo é transitivo direto. Mas se você disser "o escândamo implicou em investigações", está usando no sentido de "acarretar como consequência", o que tecnicamente também pede transitivo direto. A linha entre esses dois usos é tênue e muitos falantes nativos não conseguem diferenciá-la. A regra prática que desenvolvi foi simples: se o verbo pode ser substituído por "acarretar", "produzir como consequência" ou "trazer como resultado", use transitivo direto. Se não cabe essa substituição, avalie se não se trata do uso coloquial com "com".

Por que esse erro persiste

A resposta tem a ver com a analogia com outros verbos que realmente pedem "em". "Consistir em", "residir em", "dependir de". O cérebro faz a conexão automática e aplica a mesma lógica ao "implicar". O problema é que essa transferência não funciona. O português tem uma série de verbos que carregam preposições por razões históricas e etimológicas, não lógicas, e "implicar" não é exceção. Ele vem do latim "implicare", que já funcionava como transitivo direto. Um detalhe que poucos consideram: em textos jornalísticos e em materiais corporativos, a variação com "em" aparece com tanta frequência que alguns dicionários mais recentes passaram a registrar as duas formas. Isso não significa que a forma com preposição esteja certa. Significa que o uso popular é reconhecido, mas em registros formais a forma canônica continua sendo a preferencial.

Como testar antes de escrever

Antes de fechar um texto, faça a substituição. Troque "implicar" por "acarretar" ou "trazer como consequência". Se a frase mantém o sentido, o verbo é transitivo direto. "O descumprimento implica sanções." vira "O descumprimento acarreta sanções." Funciona. Agora tente com preposição: "O descumprimento implica em sanções." A substituição com "acarretar em" soa estranha. Isso é um indício claro de que a preposição é desnecessária. Se a frase usa "implicar com", o teste é mais simples: substitua por "ter atrito com" ou "brigar com". Se funcionar, o uso está correto.

Essa abordagem resolve a grande maioria dos casos. Existem exceções, claro, mas são raríssimas e geralmente aparecem em contextos literários ou muito específicos que não são relevantes para o uso diário.