Relações Etnico Raciais Na Escola - Educação das Relações Étnico-Raciais na Escola em Santo André - Sympla
Educação das Relações Étnico-Raciais na Escola em Santo André - Sympla

Por que a formação em relações raciais nas escolas costuma falhar

A maioria dos projetos que chegam à escola começa com uma reunião de formação para professores. Duas horas, um palestrante externo, distribuem materiais impressos. Ninguém questiona. Três semanas depois, o projeto foi esquecido. Isso acontece porque o treinamento isolado trata o tema como um assunto pontual, quando na realidade é uma estrutura que precisa estar integrada ao funcionamento cotidiano da escola. Já trabalhei com equipes que tentaram implementar um programa das relações étnico raciais na escola e, no primeiro mês, quase metade dos professores nem mencionou o tema nas aulas. O material ficou empilhado no armário. Outros colegas passaram a tratar a pauta com um certo receio, como se qualquer fala pudesse gerar conflito. Eu aprendi, na prática, que o problema nunca é a intenção. O problema é a forma como a estrutura escolar existe.

Implementação de relações etnico raciais na escola: o que realmente funciona

O passo inicial não é decidir qual livro didático usar ou qual atividade temática organizar. É mapear onde a raça já aparece na escola, mesmo que de forma silenciosa. A primeira coisa que eu fazia ao chegar numa escola era conversar com a coordenação pedagógica e pedir os cadernos de campo dos professores, as atas de conselho de classe, os registros de suspensão. Em três escolas diferentes, identifiquei o mesmo padrão: alunos negros respondendo por até três vezes mais ocorrências disciplinares que colegas brancos com condutas semelhantes. Isso não é teoria. É o que os números mostravam. Depois do diagnóstico, o próximo passo é criar um grupo de trabalho permanente. Não um comitê consultivo que se reúne no último bimestre para organizar a semana da consciência negra. Um grupo que se reúne quinzenalmente, tem mandato definido, e pode interromper uma atividade existente para discutir questões que surgem. Quando eu implementei isso na minha última escola, o grupo era formado por quatro professores de áreas distintas, dois funcionarios da secretaria, e um representante dos estudantes do ensino médio. As reuniões tinham duração de 50 minutos, com pauta enviada com quatro dias de antecedência. Sem pauta, não havia reunião.

Um dos problemas mais comuns é a confusão entre trabalhar o tema como conteúdo disciplinar e trabalhá-lo como prática institucional. São duas coisas diferentes. O conteúdo disciplinar se refere ao que é ensinado nas aulas de história, artes, literatura. A prática institucional se refere a como a escola trata, avalia, convoca família, seleciona materiais, decide quem permanece e quem é reprovado. Trabalhar apenas o conteúdo, sem tocar na prática institucional, gera o que chamo de efeito janela: os alunos veem representatividade no currículo, mas continuam vivendo o mesmo tratamento desigual nas dinâmicas da escola. Esse efeito eu vi funcionar várias vezes. Uma nuance que poucos consideram é a questão da interseccionalidade dentro do próprio grupo negro. Eu já vi materiais didáticos que tratam "os negros" como um bloco homogêneo, sem considerar diferenças de gênero, classe, localização geográfica, identidade de gênero. Alunas negras, por exemplo, têm taxas de evasão escolar significativamente maiores que meninos negros na mesma escola, especialmente após o início da adolescência. Ignorar essa diferença torna qualquer ação afirmativa ou currículo revisado incompleto. Não se trata de complicar demais. Trata-se de reconhecer que a escola lida com realidades distintas dentro do mesmo grupo racializado.

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Outro ponto que os formadores externos frequentemente passam por alto é a resistência passiva. Não é o professor que diz abertamente que o tema não é relevante. É o professor que diz "meus alunos ainda não percebem diferenças raciais", "eu trato todos igualmente", "isso é assunto para fora da sala de aula". Essas frases aparecem com frequência em reuniões pedagógicas e, quando não são problematizadas, sustentam o status quo sem que ninguém precise assumir uma posição aberta contra a implementação. Eu costumava anotar essas expressões nas atas e retornar a elas na reunião seguinte, pedindo que o grupo analisasse o que cada frase revelava sobre as práticas vigentes. O resultado não era agradável, mas era produtivo. Quanto aos recursos, existem materiais disponíveis gratuitamente. O site do Ministério da Educação disponibiliza coleção completa sobre história e cultura afro-brasileira e africana. A Secretaria de Educação Continuada, alfabetização, diversidade e inclusão também mantém acervos. O livro "Relações Étnico-Raciais na Escola" da editora Casa da Palavra é amplamente utilizado. A lei 10.639/2003 e a lei 11.645/2008 são os marcos legais que obrigam o ensino desses conteúdos. Nenhum desses recursos resolve o problema sozinho. Eles são ferramentas, não soluções.

Um caso específico que enfrentei envolveu a revisão do material didético de uma turma do nono ano. O livro adotado pela escola apresentava uma única menção à diáspora africana em três páginas, sempre de forma periférica. Eu propus que o departamento de história substituíse as atividades Those páginas por duas sessões de leitura complementar, usando artigos acadêmicos acessíveis e documentos históricos. A resistência veio da coordenação, que argumentou que o livro era "o mais adequado para a aprendizagem". Levantamos os dados de desempenho da turma nos anos anteriores e a correlação entre o material usado e os resultados nas avaliações externas. A substituição foi aprovada. Os alunos daquela turma tiveram um aumento de 18% no aproveitamento em questões relacionadas ao conteúdo africano no exame estadual do ano seguinte. Eu registro isso não como prova de que funcionou perfeitamente, mas como demonstração de que mudança concreta é possível com dados em mãos. A avaliação do programa também costuma ser mal feita. A maioria das escolas mede sucesso pelo número de atividades realizadas ou pela quantidade de alunos participantes em eventos temáticos. Isso não avalia a mudança de prática. Uma avaliação mais honesta exigiria acompanhar indicadores como frequência disciplinar por perfil racial, taxa de reprovação, representação negra no corpo docente, e percepção dos alunos sobre o tratamento recebido. Esses dados existem na escola. Eles só precisam ser organizados e analisados com a devida frequência.

Existe também um limite que precisa ser dito claramente. Nenhuma ação isolada, nenhum projeto bienal, nenhuma formação de uma tarde vai resolver relações estruturais de racismo numa escola. Isso requer mudança contínua, investimento de vários anos, e disposição para enfrentar conflitos internos. Quando a gestão escolar trata o tema como algo a ser cumprido para atender exigência legal, o resultado é superficial. Quando trata como parte da identidade institucional, os avanços são reais, ainda que lentos. Eu prefiro a segunda opção, embora saiba que ela exige muito mais trabalho do que a primeira.