Relevo Do Pampa - Globo Repórter - Formações rochosas guardam região mais preservada do Pampa
Globo Repórter - Formações rochosas guardam região mais preservada do Pampa

Entendendo o relevo do pampa: o que você realmente precisa saber na prática

O relevo do pampa é predominantemente plano a suavemente ondulado, com cotas que variam geralmente entre 50 e 300 metros acima do nível do mar. A região aparece como uma extensa planície de derrame sedimentar, mas chamar isso apenas de "planície" é simplificar demais o que acontece no terreno. Há colinas isoladas, cristas suaves e depressões que formam os famosos banhados, e tudo isso interfere diretamente no uso do solo, no planejamento agrícola e nos estudos de bacia hidrográfica.

A estrutura real do relevo do pampa

O relevo do pampa se origina de processos principalmente erosivos e deposicionais, com destaque para a ação dos paleocorpos fluviais que cortam a região. As formas mais comuns são as ondulações suaves (chamadas localmente de "morrarias"), as planícies aluviais dos rios Jacuí, Uruguai e seus afluentes, e os tabuleiros residuais que sobressaem em alguns pontos. O intemperismo químico prevalece sobre o mecânico no clima úmido da região, e isso molda superfícies com declividades baixas na maior parte do tempo. Quando você abre um modelo digital de elevação da região, a primeira coisa que nota é a homogeneidade visual. Mas essa homogeneidade engana. A variação de altitude real entre dois pontos que parecem vizinhos no satélite pode ser de até 40 metros em poucos quilômetros, especialmente nas áreas de transição entre o planalto e a planície. Isso altera completamente a drenagem, a classificação de solos e a aptidão agrícola local.

Como ler e classificar esse relevo na prática

Se você está trabalhando com mapeamento ou análise territorial, o primeiro passo costuma ser a classificação por declividade. O IBGE e os órgãos estaduais usam classes como plana (0 a 3%), suave ondulado (3 a 8%), ondulado (8 a 12%), montanhoso e acidentado. Para o pampa, a grande maioria do território se enquadra entre plana e ondulada. O problema é que essa classificação por faixas de declividade ignora a rugosidade relativa do terreno, que muitas vezes diz mais sobre o comportamento hidrológico do que a inclinação absoluta. O que eu recomendo é calcular também o índice de rugosidade do terreno (TRI), que mede a diferença de elevação entre um pixel e seus oito vizinhos no MDE. Combinar declividade com TRI dá uma visão muito mais fiel da variabilidade real. Em áreas classificadas como "planas" pelo declive, o TRI pode revelar microdepressões que funcionam como zonas de acumulação de água — aquelas que viram banhado na estação chuvosa e terra seca no inverno.

No QGIS, o processo é direto. Você carrega um MDE como o SRTM 30m ou, preferencialmente, o LiDAR disponível para algumas áreas do Rio Grande do Sul, gera o hillshade para leitura visual e roda o cálculo de declividade e TRI pela ferramenta Raster > Análise > Declividade e depois Raster > Análise > Rugosidade. Leva cerca de 10 minutos num computador médio para uma área de 50 mil hectares com dados LiDAR de 5m.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Um problema que eu enfrentei e como resolvi

Trabalhando num projeto de zoneamento ecológico-econômico no extremo sul do RS, precisei mapear as áreas de preservação permanente ao longo de cursos d'água de primeira ordem. O relevo do pampa nesse trecho é tão suave que a linha de cumieira (divisor de águas) é praticamente impossível de identificar apenas olhando o perfil de elevação. Os cursos d'água acabavam sendo demarcados em lugares errados porque o algoritmo de extração de drenagem do modelo não distinguiu bem as direções de fluxo em declividades menores que 1%. A solução foi aplicar um preenchimento de depressões (fill sinks) cuidadoso antes de rodar o fluxo acumulado, usando uma tolerância de 0,5 metro para não distorcer o relevo original. Depois disso, troquei o método de determinação de direção de fluxo do D8 para o D, que lida melhor com fluxos em superfícies muito planas. Com dados de LiDAR de 5m, o resultado finalmente apontou os cursos d'água nos locais corretos, validados por inspeção em campo com GPS diferencial.

O que os manuais não costumam avisar

O relevo do pampa tem uma particularidade que causa erro recorrente em trabalhos acadêmicos e técnicos: a existência de superfícies de aplanamento que foram rebaixadas por erosão mas mantêm padrões de drenagem relictos. Isso significa que o curso d'água atual nem sempre reflete o padrão de drenagem que o relevo indicaria. Mapas de bacias hidrográficas gerados apenas a partir do MDE podem mostrar drenagens que não existem mais no terreno, ou ignorar cursos que estão ativos devido a alterações antrópicas como açudes e canalizações. Outro ponto que passa despercebido é a influência dos depsósitos aeolianos (areias quartzárias) no padrão de relevo local. Em áreas como o Parque Estadual do Turvo e trechos do planalto, as dunas fossilizadas criam microrelevo que modifica a infiltração e o escoamento superficial de forma significativa. O MDE padrão não resolve essas variações, e o resultado é que modelagens hidrológicas feitas apenas com SRTM subestimam a variabilidade hidrossedimentológica nessas zonas.

Limitações e quando confiar (ou não) nos dados

O MDE do SRTM (30m) funciona razoavelmente bem para análises regionais de declividade e bacias de porte médio. Mas em escalas superiores a 1:25.000, ou quando o objetivo é identificar microdepressões e áreas úmidas, ele falha. A resolução horizontal é grosseira demais para capturar feições com menos de 100 metros de extensão, e o erro vertical relativo pode chegar a 8 metros em áreas de cobertura vegetal densa, o que é problemático em terrenos tão suaves quanto os do pampa. Para trabalhos que exigem precisão, o LiDAR é o caminho. O governo do RS disponibiliza dados LiDAR de 5m para parte do estado gratuitamente, mas a cobertura ainda é irregular. Se você não tem acesso a dados de alta resolução, uma alternativa viável é usar o ALOS World 3D (30m) combinado com dados locais de nível freático e imagens de alta resolução para validar as feições de relevo em campo. Isso reduz o tempo de mapeamento em campo de dias para horas em áreas já conhecidas.

O relevo do pampa é simples na aparência e complicado na realidade. Ele não impressiona pelas cotas altimétricas, mas exige atenção aos detalhes sutis que fazem a diferença entre um mapeamento acurado e outro que só parece certo no computador.